O Rancho Folclórico do Centro Lusitano de Zurique cumpre 37 anos de existência, mantendo uma atividade totalmente ininterrupta na Suíça. O projeto, que nasceu em 1989 do improviso de um grupo de amigos com uma concertina e um bombo na “casa mãe” da associação, transformou-se ao longo de quase quatro décadas num pilar essencial da preservação da identidade portuguesa na diáspora.
A Gazeta Lusófona conversou com Luís Pereira, responsável pelo Departamento da Cultura do Centro Lusitano de Zurique, para nos contar o percurso fantástico deste agrupamento folclórico que tem representando as tradições e os costumes portugueses em terras helvéticas.
O Rancho celebra agora 37 anos de história, tendo sido fundado em 1989. Olhando para trás, como nasceu este projeto no seio do Centro Lusitano de Zurique e quem foram os grandes impulsionadores?
É verdade já lá vão 37 anos, muitas das vezes parece que foi ontem. Tudo começou com um grupo de amigos com uma concertina e um bombo após uma conversa na nossa casa mãe, o Centro Lusitano de Zurique. Com o tempo foram se juntando mais elementos. Ao longo dos anos entraram e saíram alguns, outros ainda cá continuam praticamente desde o primeiro dia.
Manter um rancho ativo na diáspora durante quase quatro décadas exige muito esforço. Quais foram os maiores desafios que encontraram nestes primeiros anos de atividade?
Os primeiros desafios foram, sem dúvida, completar o rancho com todos os elementos que faziam falta e tudo em volta da música, assim como elaborar os primeiros trajes que foram costurados por um grande amigo da casa. Mais tarde esses mesmos trajes foram substituídos por trajes originais vindos de Portugal.
Ao longo deste percurso, já levaram a cultura portuguesa a países como Portugal, Luxemburgo, França, Alemanha e por toda a Suíça. Como é a reação das comunidades emigrantes e dos próprios cidadãos locais desses países quando assistem às vossas atuações?
Os portugueses adoram. O nosso grupo representa o Baixo e Alto Minho e muitos dos que vivem aqui na parte de Zurique e um pouco nos arredores vêm exatamente dessa região. Então a alegria de ver e ouvir músicas como uma Chula ou uma Cana Verde é sempre bem acolhida porque fazem a comunidade lembrar as raízes. Depois, os suíços adoram ver porque é algo diferente do que eles estão habituados. O Nosso rancho em maio, já é tradição, vai ao desfile das crianças no domingo do Sächsilüta. (A famosa festa da queima do Boneco em Zurique). Somos sempre bem recebidos pela comunidade suíça e ficam sempre radiantes com os nossos trajes, músicas e alegria.
Há alguma viagem ou atuação internacional marcante nestes 37 anos que recordem com especial carinho?
Se calhar recordamos a nossa primeira saída ao estrangeiro. Estivemos no Luxemburgo a fomos muito bem recebidos pela comunidade e pelo rancho anfitrião onde criamos laços e vivemos um dia cheio de alegria. Também em memória fica, sem dúvida, a primeira atuação em Portugal no verão de 2012 na aldeia de Brunhais, Póvoa de Lanhoso. Foi quase como atuar em casa porque muitos dos nossos elementos são da Póvoa e arredores. Tinham lá a família a fazer companhia.
O vosso manifesto refere que “cada dança, cada música e cada traje representa um pouco da nossa terra”. Como é feito o trabalho de pesquisa e recolha histórica para garantir que as tradições, músicas e trajes se mantêm fiéis às raízes de Portugal?
Bem, ao princípio o rancho tinha os seus próprios trajes com o seu emblema bordado no colete dos homens. Com o passar do tempo fomo-nos adaptando a novas realidades. Fizemos sempre as nossas próprias pesquisas e entramos em contacto com vários ranchos federados em Portugal que nos foram dando ajudas. Este ano temos o privilégio de ter como responsável do Rancho um antigo membro da Federação Portuguesa de Folclore o que nos ajuda muito. Algumas coisas também foram feitas de recordações de conversas antigas com os nossos avós e pais sobre as festas e romarias.
Para os portugueses a viver na Suíça, o rancho vai muito além da dança. É também um espaço de dedicação, amizade e união. Como definem o ambiente e a “família” que se criou no Centro Lusitano de Zurique?
A ligação com o Centro faz de nós uma família muito especial. Porque o Centro vem de um derivado da Missão Católica de língua portuguesa de Zurique. Ou seja, muitos que convivem durante a semana, seja no trabalho nos ensaios de futebol ou rancho, também se voltam a ver na eucaristia de domingo.
Passados 37 anos, como encaram a renovação do rancho? Tem sido fácil motivar os jovens lusodescendentes, nascidos ou criados na Suíça, a vestirem o traje e a subirem ao palco para dançar ou tocar no grupo?
Essa é a parte mais fácil… Eles vêm à nossa procura, o que se torna mais fácil para nós. Nessa ambição foi criado em setembro de 2015 o Rancho Infantil. Eles em cada atuação que vão têm o seu próprio tempo para mostrarem ao público aquilo que já sabem. E, os mais evoluídos vão trocando com os pares adultos. O que nos deixa muito satisfeitos porque sentimos neles a alegria e o orgulho de serem portugueses e de mesmo estando no estrangeiro poderem cultivar as suas tradições e raízes.
Se tivessem de deixar uma mensagem de agradecimento a todos os componentes, antigos membros e público que vos acompanha desde 1989, o que lhes diriam?
Obrigado, obrigado por todo o esforço e pela vossa coragem para criar um grupo folclórico. Obrigado a cada hora, minuto até mesmo a cada segundo investido no rancho. Não foi fácil continuar o legado, mas conseguimos, sem nunca haver uma interrupção, tornar-nos o rancho mais antigo da Suíça com esse mesmo facto.
Quais são os próximos objetivos que o Rancho ambiciona conquistar?
Já pisamos os mais diversos palcos nas mais diversas festas e para as mais diversas comunidades, daí não haver nada em específico a mencionar, mas enxeria-nos de orgulho voltar a pisar um palco na nossa tão amada terra natal, que é Portugal.
Adélio Amaro





