O início da história da relação entre Portugal e Suíça é usualmente associado à passagem e permanência de figuras históricas, nobreza e aventureiros, pela Suíça a partir de meados do séc XVI.
Surgem como exemplos imediatos Damião de Góis, Beatriz de Portugal ou Emília de Nassau e sua descendência, ou outros com presença mais breve, como D. Manuel Teles da Silva, 2º Conde de Vilar Maior.
E se o primeiro contacto entre estes 2 povos for muito anterior àqueles, anterior mesmo à existência de Portugal e Suíça…
É esta possibilidade que apresentamos, e para a contextualizar chamamos à liça nada mais, nada menos que Júlio César, o célebre general e estadista romano.
Muitos saberão que a primeira menção de Genebra é feita por César em 58 a.c, nos seus Comentários sobre a Guerra das Gálias, na altura um mero oppidium da tribo dos Alóbroges, a última cidade antes do território dos Helvécios, que servia como ponto e ponte estratégicos.
Nas proximidades, era fundada em 46-44 a.c., pelo mesmo imperador, a Colonia Iulia Equestris, uma verdadeira colónia romana com capital em Novidium, actual Nyon, com o propósito de atrair veteranos do exército romano que ali recebiam terras para se instalarem e, simultaneamente, protegerem as fronteiras do império. A figura 1 trata-se de um excerto da tábua de Peutinger, itinerário viário utilizado no período romano para viajar pelo mundo conhecido e que continha todas as estradas de Olisipo (Lisboa) a Sera Maior (China).
Como pode constatar no mapa, abaixo da pequena casa, está a menção da Colonia Equestris, Gennaua (Genebra) aparece atrás, bem longe do lago (por economia de espaço no mapa) sendo o lago designado de lago Losonne.
Feita esta pequena resenha histórica, apresentamos um dos protagonistas desta história, François Bonivard, humanista e célebre historiador genebrino do séc. XVI, autor das célebres Chroniques de Genève, nas quais relata a história da cidade.
No seu trabalho transcreveu diversas inscrições latinas, então visíveis um pouco por toda a cidade, entre aquelas damos destaque a uma pedra encontrada na rue Perron (ver figura 2).
Em linguagem corrente, a inscrição significa “Arúcio, filho de Cneu, pertencente à Coorte dos Lusitanos”. A pedra (ver figura 3) foi descoberta fracturada no canto esquerdo, faltando parte da inscrição, apesar disso, o Musée d’Art et d’Histoire de Genève (MAH) reconstituiu o texto completo:
“A Cneu Tarúcio Celer, filho de Cneu, prefeito da Primeira Coorte dos Lusitanos.”
A estela funerária, redescoberta em 1902 e que pode hoje ser vista no referido museu, fornece poucas pistas, permitindo, todavia, inferir que o defunto teria provável origem romana, nomeadamente, etrusca, que era filho de Cneu e fora prefeito da 1ª Coorte Lusitana.
A maior unidade militar romana era a Legião, com cerca de 5000 soldados, subdividia-se em 10 coortes, composta por cerca de 500 militares, distribuídas em centúrias, entre 80 a 100 pessoas e, por fim, organizadas em contubernium, de 8-10 soldados.
Na lápide está referida a 1ª Coorte Lusitana, ou seja, a primeira criada após a pacificação da província, conseguida por volta de 19 a.c. Após aquele período deu-se a normalização administrativa e começos de recrutamento militar com início no reinado de Augusto que criou a província da Lusitânia com capital em Emerita Augusta (actual Mérida).
É por volta deste mesmo período, 7-24 d.c, que Estrabão escreve na sua obra Geographica, “os Lusitanos são o mais poderoso dos povos da Ibéria e aquele que durante mais tempo combateu os Romanos”, atestando a resistência e combatividade daquela tribo.
Ora, o MAH data a lápide entre 50-120 d.c., podemos assim supor que a nossa personagem terá sido um dos primeiros prefeitos desta coorte lusitana.
Neste ponto a investigação torna-se muitíssimo mais difícil e com diversas saídas possíveis, permito-me apresentar, todavia, a hipótese que me parece mais verosímil.
Registos militares romanos, confirmam a presença da 1º Coorte Lusitana na região da Panónia entre 60 d.c. e 167 d.c., Tácito, célebre historiador e senador romano, relata a participação de coortes lusitanas na campanha de Aulo Cecina Alieno em favor da proclamação do imperador Vitélio, contra Galba, em 69 d.c, o célebre ano dos 4 imperadores.
Tácito, confirma que Cecina levanta um exército na Germânia Superior e segue para Itália, pelo caminho subjuga os Helvécios, ocupa Aventicum (actual Avenches) e prossegue para o seu destino final (ver figura 4). É plausível que a 1ª Coorte tenha tomado parte na campanha e participado em várias escaramuças ao longo do actual território suíço.
Com toda esta informação podemos admitir as seguintes hipóteses:
– Largas centenas de soldados, de várias coortes lusitanas, participaram na campanha de Cecina entre janeiro e março de 69 d.c., passando pela porção suíça da incursão que compreendeu o território entre Augusta Raurica (actual Basileia) e Vale da Aosta.
– Um prefeito da 1ª coorte lusitana pode ter perecido em combate, pouco provável, e sido sepultado nas imediações de Genebra ou, mais plausível, terminado a sua carreira militar próximo daquela região e recolhido à já referida Colonia Iulia Equestris, que abrangia vasto território em redor de Nyon, onde viria a falecer.
– Existiram várias coortes lusitanas que serviram nos 4 cantos do império, a título de curiosidade, mencionamos a criação durante o reinado de Augusto, o mesmo que criou a província da Lusitânia, da Cohors I Augusta Praetoria Lusitanorum, uma unidade auxiliar de elite, que viria a destacar-se em campanhas militares nas fronteiras orientais (Judeia e Egipto).
Terá sido a 1ª Coorte Lusitana a levar os primeiros portugueses, ou melhor, lusitanos, a cruzar-se com suíços, melhor dizendo, helvécios?
É possível que estes soldados lusitanos tenham sido os primeiros a ligar, de forma duradoura, os territórios actuais de Portugal e Suíça: primeiro pelas armas, ao longo das campanhas militares romanas dando provas da sua proeza marcial, depois estabelecendo-se nas cidades e nos campos da região onde haviam servido, dando mostras da sua capacidade de adaptação que, até hoje, se reflecte no povo português, onde quer que esteja e por mais adversa que seja situação.
Ivane Domingues





