Mélissa Daniela Teixeira Martins, de 28 anos, nasceu em Portugal, é filha de pai português e mãe francesa e vive atualmente em Genebra, na Suíça. Licenciada em Solicitadoria e pós-graduada em Gestão e Administração Autárquica, iniciou o percurso profissional em Portugal, onde exerceu funções como solicitadora e gestora de património pessoal.
Mais tarde, mudou-se para a Suíça, onde trabalha na “PlanetServices SA”, empresa com sede em Bussigny, e exerce atualmente o cargo de coordenadora do Projeto LIFE. Entre as suas responsabilidades estão a angariação de parceiros, embaixadores e clientes, a venda direta do serviço, o contacto com a comunidade no terreno e através dos meios digitais e a dinamização das plataformas do projeto.
Em entrevista ao Gazeta Lusófona, Mélissa Martins apresenta o LIFE. como um projeto criado em 2018 por Hugo Aguiar para responder às dificuldades enfrentadas por famílias da comunidade portuguesa na Suíça perante a morte de um familiar e a necessidade de repatriamento para Portugal. Segundo a coordenadora, o serviço acompanha o processo desde os procedimentos burocráticos até ao repatriamento e à realização do funeral em Portugal, disponibilizando ainda apoio jurídico e psicológico à família. Mélissa sublinha que o trabalho exige articulação entre diferentes intervenientes e uma relação próxima com os familiares num período de luto, defendendo que o objetivo passa por evitar que estes tenham de assumir a gestão de procedimentos administrativos e logísticos num momento de fragilidade. Esta responsável pretende também reforçar a vertente digital do LIFE. e criar uma comunidade de informação e partilha dirigida aos portugueses residentes na Suíça, partindo do princípio de que uma comunidade mais informada dispõe de melhores condições para enfrentar estas situações.
A “PlanetServices” nasceu na Suíça francófona, inicialmente ligada à contabilidade, em resposta à procura por apoio administrativo. Como é que essa experiência conduziu à criação do projecto LIFE e quais são hoje os seus principais objectivos junto da comunidade portuguesa?
O LIFE. foi fundado por Hugo Aguiar no ano de 2018 no seio da “PlanetConseil SA”, empresa na qual opera com o cargo de Diretor Geral. Este projeto foi criado como alternativa para suprir uma necessidade ainda hoje presente na comunidade portuguesa emigrada: terminar com todos os peditórios na tentativa de fazer face a despesas inerentes em caso de repatriamento. Uma das preocupações centrais para o seu criador, foi o seu custo, pois visto como uma causa social, tornou-se necessário poder ser acessível a todas as famílias. O LIFE. nasceu dessa realidade, onde por menos de 25 francos por mês, toda a família fica protegida. Conta, à data, com diversas alterações, sempre na perspectiva de melhorar o produto em virtude do cliente.
Quando ocorre uma morte na Suíça e a família pretende realizar o funeral em Portugal, que procedimentos administrativos, consulares, financeiros e logísticos têm de ser assegurados?
Um repatriamento é muito mais complexo do que parece. Trata-se de um procedimento longo e complexo, onde estão envolvidas diversas entidades, documentos e decisões, num período tão curto. O LIFE. assegura não só o repatriamento, como também trata do ‘’problema’’ na totalidade. Ao dia de hoje, o LIFE. trata de todo o processo, quando um português morre na suíça, desde a parte burocrática, ao repatriamento e à realização do funeral em Portugal, colocando ainda um advogado e um psicólogo à disposição da família.
De que forma o LIFE articula o trabalho entre familiares, agências funerárias, consulados, autoridades suíças e entidades portuguesas durante o processo de repatriamento?
Um dos princípios fundamentais do LIFE. é evitar que a família se preocupe em tratar do que quer que seja. Quando somos informados da fatalidade, coordenamos todo o processo entre os diversos intervenientes. Existe uma articulação com a família, para perceber a sua vontade relativamente ao destino e ao funeral, mas só isso. Não somos uma Agência funerária, e por isso trabalhamos com um parceiro, onde delegamos tudo o que diga respeito ao repatriamento e funeral em si. Sendo oportuno, dependendo da localização, a parte administrativa poderá ser tratada por nós.
Como é lidar com as famílias nesses momentos tão difíceis? A “PlanetServices” apresenta a proximidade e o acompanhamento personalizado como elementos centrais da sua abordagem. Como é adaptado o serviço às necessidades de cada família, sobretudo num momento de luto e sob pressão de prazos administrativos?
É a parte mais humana e também a mais delicada do meu trabalho. Não nos deparamos simplesmente perante um dossier, pois do outro lado está alguém que acabou de perder o marido, a mulher, a mãe, o pai, um filho ou outra pessoa que ama. Nesses momentos, temos de saber ouvir, explicar as coisas com calma, quando a pessoa pergunta, e sobretudo não aumentar a ansiedade da família. Existem sim procedimentos que precisam de ser tratados rapidamente, mas existe simultaneamente uma pessoa a viver um momento de enorme fragilidade emocional. Encontrar esse equilíbrio exige muita empatia e sensibilidade. Não existem duas famílias iguais, e também não existem dois processos completamente iguais. Há famílias que já sabem onde querem realizar o funeral, outras precisam de orientação. Por isso, começamos sempre por perceber a situação concreta daquela família, depois adaptamos a comunicação e o acompanhamento às suas necessidades. O que a família precisa é de sentir que não está sozinha. Para mim, esta é uma das maiores responsabilidades associadas ao LIFE.
O projecto refere dispor de reconhecimento por parte da FINMA. Qual é, concretamente, o enquadramento regulatório do serviço e que garantias oferece aos cidadãos que aderem?
O LIFE. não é nada mais nada menos do que um serviço que é reconhecido e registado pela FINMA – Entidade Federal de Supervisão dos Mercados Financeiros da Suíça, que supervisiona o setor dos seguros e intermediários de seguros. Isto significa que o LIFE. cumpre os requisitos aplicáveis para exercer a atividade que apresenta.
Há algum exemplo “mediático” ou mais conhecido dos vossos serviços para portugueses na Suíça?
Preferimos não transformar as situações que acompanhamos em casos mediáticos, porque estamos a falar de momentos extremamente privados e dolorosos para as famílias. Existem naturalmente processos que nos marcaram mais do que outros, mas a confidencialidade e o respeito pelas pessoas estão acima da exposição do projeto. Para nós, cada família e cada repatriamento têm a mesma importância.
Além do repatriamento, a “PlanetServices” apoia os clientes na compreensão dos seus direitos, na gestão administrativa e financeira e na adaptação a serviços cada vez mais digitalizados. Como é desenvolvido esse acompanhamento e que medidas estão previstas para ampliar a informação e o apoio à comunidade portuguesa na Suíça?
Os meios digitais que estamos a construir permitem-nos chegar a mais gente em menos espaço de tempo. O objetivo a longo prazo para o Projeto LIFE. é construir uma ‘’Comunidade’’ em que as pessoas se sintam à vontade para partilhar experiências, dores e realidades, com o intuito de se sentirem acompanhadas e informadas. Quanto mais informada estiver a comunidade, mais protegida estará.
Em que locais de Portugal a Melissa Martins tem família?
A maior parte da minha família está centralizada no Norte de Portugal, mais precisamente em Trás-os-Montes, onde estão as minhas origens.
Como é a sua vida na Suíça?
É na Suíça que desenvolvo a minha vida profissional e onde construí uma grande parte da minha experiência enquanto adulta, que ainda está longe de estar concluída. A vida aqui é muito dinâmica, entre trabalho e deslocações, compromisso e contacto diário com diferentes línguas e culturas. Ao mesmo tempo, é uma experiência que nos faz crescer muito, tanto profissionalmente como pessoalmente.
Como é viver na Suíça?
A Suíça proporciona uma qualidade de vida e uma estabilidade muito grandes, mas também é um país exigente. Existe organização, segurança e uma cultura de responsabilidade muito forte. Para quem trabalha e procura construir estabilidade, existem muitas oportunidades. Mas com isto, estou longe de romantizar a emigração. O custo de vida é elevado, a distância da família pesa e existe uma adaptação cultural e linguística que nem sempre é simples. Por isso, diria que viver na suíça oferece muitas oportunidades, mas também exige muito de nós.
Convive com a comunidade portuguesa na Suíça?
Sim, muito. Somos muitos portugueses na Suíça, e através do LIFE, o meu contacto com a comunidade portuguesa aumentou. Tenho a oportunidade de conhecer quem acabou de chegar, mas também quem já quer ir embora. Apesar de todos terem percursos diferentes, existe quase sempre um sentimento comum: a ligação a Portugal que continua sempre presente. Confesso que este contacto e proximidade com a nossa comunidade portuguesa, são das coisas de que mais gosto no projeto.
Pensa em voltar a viver em Portugal algum dia?
Não excluo essa possibilidade. Portugal será sempre a minha casa, uma referência emocional muito forte para mim. Acredito que muitos emigrantes vivem com a ideia no pensamento de ‘’um dia talvez volte’’, eu pessoalmente, estou focada na vida que estou a construir aqui. Mas, acredito que não precisamos necessariamente escolher entre amar Portugal e construir uma vida fora. Podemos pertencer aos dois lugares de formas diferentes.
O que a Suíça significa para si?
A Suíça significa para mim, oportunidade, crescimento e independência, e acima de tudo a Suíça representa uma parte importante da pessoa que sou hoje e daquilo que ainda quero construir. Um país que me obrigou a sair da minha zona de conforto, a adaptar-me e a aprender. Tendo avós e outros familiares emigrantes, a Suíça permitiu-me conhecer verdadeiramente a realidade da emigração.
Que imagem tem de Portugal?
Portugal continua a ser casa. Tenho uma ligação muito afetiva a Portugal: a família que lá ficou, as minhas raízes, a comida, as tradições e a nossa forma de estar e conviver. Curiosamente, viver fora também nos ensina a olhar para Portugal de outra maneira. Comecei a valorizar pequenas coisas que antes considerava normais.
Como e por que foi viver na Suíça?
Depois de algum tempo em Portugal, percebi que, apesar de trabalhar e tentar construir o meu caminho, não estava a conseguir alcançar alguns dos objetivos pessoais e profissionais que tinha para a minha vida. A vinda para a Suíça, foi uma decisão motivada pela vontade de procurar mais e melhor para mim e para o meu futuro. Vim com vontade de crescer.
Qual a diferença de vida entre Portugal e a Suíça?
Existem diferenças gigantescas. Na Suíça, os salários são mais elevados, mas o custo de vida também é muito superior. Existe uma cultura muito orientada para a organização, horários e responsabilidade. Portugal, oferece-nos outras coisas que são difíceis de substituir: a proximidade familiar, a nossa cultura, o clima e aquele sentimento de estarmos em casa. Do meu ponto de vista, nenhum dos países é perfeito. Há coisas que valorizo muito na Suíça e outras coisas das quais sinto falta em Portugal. Talvez essa seja uma das maiores contradições da vida de emigrante: quando estamos fora sentimos falta de Portugal e, quando regressamos, também reconhecemos aquilo que a vida no estrangeiro nos proporcionou. Eu não faço parte dos que regressou, mas já reconheço.
Por fim, como vive o coração do imigrante português na Suíça?
Acho que vive um pouco dividido. Construímos uma vida aqui, criamos hábitos, amigos, trabalho, projetos e objetivos. Com o tempo, a Suíça também passa a fazer parte de nós. Mas basta ouvir Português na rua, comer alguma coisa que nos lembra a infância, chegar o verão ou ir de viagem para Portugal, para percebermos que aquela ligação nunca desapareceu. Existirá sempre uma parte do meu coração que ficará lá.
Ígor Lopes





