A presença portuguesa constitui, há várias décadas, uma componente demográfica relevante do cantão de Genebra tendo contribuído de forma significativa para as suas dinâmicas económicas, sociais e territoriais.
A segunda maior comunidade estrangeira do cantão, reúne trajetórias humanas diversas: exílio e compromisso político, migração laboral, atividade empresarial, reagrupamentos familiares, atividades associativas, regressos, idas e vindas. A presença da comunidade é hoje visível em obras de construção, como nas organizações internacionais, mas também nas escolas, associações, sindicatos, paróquias, clubes desportivos, festivais, empresas e espaços públicos que se tornaram marcos de uma memória coletiva. “Notre História” foi o nome dado ao processo de reconhecimento simbólico da presença portuguesa numa das mais pequenas metrópoles globais do mundo.
A história da comunidade portuguesa como parte da história do Cantão de Genebra
Mais concretamente, “Notre História” designa uma iniciativa participativa do BCI (Bureau de l’Intégration et de la Citoyenneté) que visa explorar a história da presença portuguesa através um percurso por locais emblemáticos apoiado em textos, imagens, arquivos e testemunhos, permitindo compreender os processos de chegada, enraizamento e transmissão das experiências de vida da comunidade, no passado e no presente. Em cada etapa do itinerário proposto, um cartaz apresenta um tema específico. Um total de onze locais foram identificados abordando temáticas diversas (desporto, associativismo, educação, lazer, etc.) sendo a décima segunda, sobre a questão do regresso, afixada em Lisboa. O percurso pode ser seguido com uma aplicação ou com um documento imprimível. É complementado por um website, uma série de podcasts e cápsulas áudio relacionadas com as diferentes localizações (https://notre-historia.ch/).
Com cerca de 32 000 residentes num cantão onde aproximadamente 40% da população é de nacionalidade estrangeira, a comunidade portuguesa constitui um reflexo das transformações da sociedade suíça contemporânea. Estas evoluções implicam processos de integração recíproca, marcados pela incorporação de novas normas, comportamentos e formas de debate público. A introdução, em 2005, do direito de voto e de elegibilidade para residentes estrangeiros residentes estabelecidos há pelo menos 8 anos exemplifica esta adaptação institucional às dinâmicas sociais. Os desafios da inclusão são múltiplos: condições de acolhimento, alojamento, trabalho, acesso a direitos, valorização das pessoas e das comunidades, reconhecimento social, exigência de participação e cidadania.
Cerimónia de Abertura: a FAPS esteve presente
A “Abertura oficial” do processo de “Reconhecimento simbólico da Comunidade portuguesa” teve lugar no passado 30 de março no prestigioso Salão Franz Liszt do Conservatório de Música de Genebra. O Presidente do Conselho de Estado, Thierry Apotheloz abriu a sessão evidenciando que “uma democracia não pode satisfazer-se com o afastamento duradouro de uma parte da sua população da vida cívica”, apelando às portuguesas e aos portugueses – que geração após geração, contribuíram ao desenvolvimento do cantão – a exercerem plenamente os direitos políticos que lhes foram concedidos, nomeadamente o direito de voto e de elegibilidade. Por sua vez, Alfonso Gomez, Presidente da Câmara Municipal de Genebra, destacou que a riqueza de uma cidade se constrói graça aos percursos, às tradições e às culturas de que a faz viver, lamentando, contudo, que a história e a participação da comunidade portuguesa permaneçam ainda insuficientemente conhecidas.
A cerimónia foi também marcada por momentos culturais, com a apresentação de azulejos produzidos no Museu Ariana por crianças que frequentam cursos de língua e cultura portuguesas, bem como por interpretações de música e poesia portuguesas. Estiveram também presentes o Embaixador de Portugal em Berna, Júlio Vilela e a Cônsul Geral de Portugal em Genebra, Maria Leonor Esteves, que sublinhou a importância do processo de reconhecimento simbólico, chamando também a atenção para as crescentes dificuldades enfrentadas pelas famílias, num contexto de aumento significativo do custo de vida.
Um ato político forte portador de novas políticas: reserve o dia 13 de Junho
A Federação das Associações Portuguesas da Suíça acompanhou de perto o processo de reconhecimento simbólico da comunidade portuguesa de Genebra, iniciado em 2024. Antonio Cunha, Presidente da Federação das Associações Portuguesas da Suíça (FAPS) encerrou a cerimónia, sublinhando que esta iniciativa constitui um ato político forte e uma promessa de reforço da democracia participativa. Para a Federação este processo abre caminho a um reposicionamento das associações enquanto atores legítimos, capazes de acompanhar e co-construir projetos inclusivos. Reconhecer o papel da comunidade portuguesa representa uma etapa essencial; traduzir esse reconhecimento e, políticas participativas constitui, porém, o verdadeiro desafio. Trata-se de um caminho exigente, mas portador de novas perspetivas de colaboração que a FAPS se declara pronta a assumir. Neste contexto a Federação convida desde já à continuação deste diálogo no próximo dia 13 de Junho, em Genebra na Sala de Plainpalais, no âmbito do 3° Fórum dos Portugueses da Suíça consagrado ao tema da “cidadania participativa”.
Leonardo Flores, FAPS
Foto: Vincent Albert,
in https://www.ge.ch/





