No período estival, quando milhares de portugueses residentes na Suíça viajam para Portugal para reencontrar familiares e matar saudades, abordamos outro tipo de viagem que merece destaque.
Todos os anos, no âmbito do Ensino Português no Estrangeiro (EPE), dezenas de alunos lusodescendentes participam em visitas de estudo organizadas pelos seus professores, transformando a descoberta do país de origem numa experiência educativa e humana de enorme significado. É esta dimensão do ensino da língua e da cultura portuguesas que a Coordenação do Ensino Português na Suíça (CEPE Suíça) pretende evidenciar.
Estas visitas de estudo constituem muito mais do que uma atividade escolar. Planeadas em estreita colaboração entre professores e alunos, representam uma oportunidade única para os jovens contactarem diretamente com a realidade portuguesa, aprofundarem o conhecimento da sua língua e cultura e reforçarem a ligação às suas raízes. Ao mesmo tempo, promovem competências como a autonomia, a responsabilidade, a capacidade de organização e o trabalho em equipa, tornando-se um marco importante no percurso dos alunos que frequentam os cursos de Língua e Cultura Portuguesas na Suíça.
No presente ano letivo realizaram-se três visitas de estudo a Portugal. A primeira decorreu em Lisboa, entre 6 e 10 de fevereiro de 2026, envolvendo 15 alunos dos níveis B2/C1 da C.O. Golette, sob a orientação do professor Manuel Filipe Alves de Sousa. Seguiu-se a viagem à Madeira, de 28 de março a 1 de abril de 2026, organizada pelas professoras Onélia Jorge e Sílvia Coelho, com a participação de 20 alunos dos níveis B2/C1 das escolas Basileia-Rittergasse e Zurique-Kornhaus. A mais recente, e que constitui o foco deste artigo, levou um grupo de alunos aos Açores.
Muito mais do que simples deslocações, estas experiências permitem um contacto direto com a realidade portuguesa do século XXI, contribuindo para desconstruir imagens cristalizadas que, por vezes, permanecem associadas ao país através das histórias familiares ou das memórias transmitidas entre gerações. Ao conhecerem Portugal tal como ele é hoje — dinâmico, diverso e em constante evolução — os jovens fortalecem a ligação à sua matriz identitária e desenvolvem um sentimento de pertença mais consciente e informado. São viagens que deixam marcas profundas e criam memórias que os acompanharão para toda a vida.
Açores: uma viagem ao coração da identidade portuguesa
Foi precisamente esse o propósito da viagem de finalistas do curso de Moudon à ilha de São Miguel, nos Açores, realizada entre 12 e 17 de abril de 2026.
O projeto envolveu seis alunos dos níveis B2 e C1, orientados pela professora Helena Freitas, e foi preparado ao longo de vários meses. Os próprios participantes pesquisaram custos, planearam o programa de atividades e colaboraram em diversas iniciativas de angariação de fundos, num verdadeiro exercício de responsabilidade, autonomia, espírito de iniciativa e trabalho em equipa.
Já em São Miguel, os alunos descobriram uma realidade portuguesa singular. Entre paisagens vulcânicas, lagoas impressionantes, termas, praias de areia negra e centros históricos cheios de vida, a viagem revelou uma região onde a natureza e a cultura coexistem de forma harmoniosa. O contacto com os habitantes locais permitiu conhecer melhor as especificidades do falar açoriano, o vocabulário regional, as tradições e os modos de vida da ilha.
Ao longo da semana, os jovens exploraram Ponta Delgada, visitaram espaços naturais emblemáticos, conversaram com residentes, provaram especialidades gastronómicas e aprofundaram conhecimentos sobre a história e a realidade socioeconómica açoriana. As descobertas surgiram tanto nos locais mais conhecidos como nos recantos menos turísticos apresentados pelo guia, que ajudou o grupo a compreender a riqueza ambiental e cultural da ilha.
Mas foram sobretudo as emoções vividas que marcaram esta experiência. Flávio M. Teixeira resumiu a viagem numa frase simples, mas expressiva: “Passei momentos extraordinários, numa ilha extraordinária, com pessoas extraordinárias.” Diana destacou que “foi uma viagem incrível que vai ficar marcada no meu coração.” Já Joana Rodrigues sublinhou a importância da descoberta cultural: “Adorei aprender mais sobre a cultura do meu país, conhecer novas paisagens, expressões e um sotaque que não nos deixa indiferente.”
Também Eva Soares Paulo Silva evidenciou o poder agregador da língua portuguesa ao afirmar que “a língua portuguesa pode juntar um grupo para uma viagem autêntica e com muita alegria!” Luís, por sua vez, destacou o impacto duradouro da experiência: “A nossa viagem aos Açores deixou-me memórias que nunca vou esquecer.”
Um dos aspetos mais significativos foi a forte convivência entre os participantes. O uso reduzido dos telemóveis favoreceu conversas, jogos, partilha de experiências e a criação de laços de amizade duradouros. O ambiente descontraído e colaborativo permitiu uma exploração genuína da ilha e transformou cada momento numa oportunidade de aprendizagem.
No final, ficou a certeza de que esta viagem ultrapassou largamente a dimensão turística. Para estes jovens lusodescendentes, São Miguel foi um espaço de descoberta, de pertença e de reencontro com a cultura portuguesa. Uma experiência que reforçou a identidade, aproximou gerações e demonstrou que conhecer Portugal é, muitas vezes, a melhor forma de compreender quem somos.
Claudia Pereira, docente CEPE Suíça
Helena Freitas, docente CEPE Suíça





