Quando o primeiro curso de português abriu portas em Genebra, em 1913, por iniciativa de Abílio Guerra Junqueiro, Ministro Plenipotenciário representante do Estado Português na Suíça, ainda não se vislumbrava a chegada das grandes vagas de imigração portuguesa a terras helvéticas.
Numa época em que a presença portuguesa era muito reduzida, este curso destinava-se a formar suíços interessados em aprender a língua e a cultura portuguesas, num gesto de aproximação entre os dois países e de afirmação diplomática e cultural de Portugal na Europa. Aquelas aulas pioneiras afirmavam já a importância da língua como elemento de ligação entre Portugal e a Suíça e, neste caso particular, o cantão de Genebra.
Mais de um século depois, os cursos de Língua e Cultura Portuguesas desempenham uma missão fundamental junto das novas gerações. Para além da aprendizagem da língua, constituem espaços de transmissão cultural, de construção identitária e de formação para a cidadania. É precisamente neste contexto que se enquadra a participação dos alunos e professores da Coordenação do Ensino Português na Suíça (CEPE-Suíça) no Dispositivo de Reconhecimento da Comunidade Portuguesa no cantão de Genebra Notre Historia.
Lançado pelo Cantão e pela Cidade de Genebra, este projeto dá a conhecer a história e os contributos das comunidades portuguesas para o desenvolvimento económico, social e cultural do cantão. A iniciativa assenta num itinerário memorial composto por doze locais emblemáticos – sendo o número 1 o local do primeiro curso de português -, complementado por uma plataforma digital, podcasts, vídeos e outras ações destinadas a valorizar a memória coletiva da comunidade portuguesa.
Para assinalar os doze locais foram produzidos azulejos por alunos da CEPE-Suíça, no âmbito de uma parceria com o Museu Ariana. Inspirados numa das mais emblemáticas expressões artísticas portuguesas, estes trabalhos testemunham a capacidade dos jovens para reinterpretar o património cultural português e contribuir para a sua divulgação junto da sociedade suíça.
A participação da CEPE-Suíça no Dispositivo de Reconhecimento da Comunidade Portuguesa também estará em destaque no evento de encerramento, no próximo dia 13 de junho, através da sessão do II Parlamento dos Jovens Portugueses na Suíça. À semelhança da primeira edição, esta atividade é dinamizada em colaboração com a Federação das Associações Portuguesas da Suíça, presidida por António da Cunha, contando com apoio financeiro para assegurar a deslocação dos alunos, garantindo que todos possam participar em condições de igualdade.
Esta segunda edição do Parlamento dos Jovens na Suíça surge na continuidade do projeto «Cidadania ParticipAtiva», desenvolvido para assinalar os 50 anos do 25 de Abril e cuja sessão final decorreu no âmbito do I Fórum Portugal–Suíça. O objetivo mantém-se: promover a cidadania ativa, o pensamento crítico e a vivência de um processo democrático pelas crianças e jovens que frequentam os cursos de língua e cultura portuguesas, sob a responsabilidade do Camões, I.P.
Em 2026, o II Parlamento dos Jovens na Suíça assume uma dimensão mais alargada, envolvendo 13 professores e 228 alunos, provenientes de vários cantões suíços. O funcionamento reproduz, de forma pedagógica, os procedimentos parlamentares do Parlamento dos Jovens em Portugal – onde a CEPE-Suíça marca presença regularmente – permitindo aos participantes apresentar os seus trabalhos, projetos de recomendação, debater propostas, defender ideias, votar medidas e selecionar e/ou construir coletivamente um documento final. As temáticas em discussão foram “Redes sociais”, para os alunos entre os 13 e os 18 anos, e “A alimentação: da palavra à mesa”, para os alunos entre os 6 e os 12 anos. Os mais jovens trabalharam as temáticas propostas através da expressão plástica, dramática e escrita. Os trabalhos selecionados pelos alunos, através de um processo democrático, serão partilhados e estarão em exibição no dia 13, na sala de Plainpalais, em Genebra.
Mais do que uma simulação parlamentar, esta iniciativa constitui uma verdadeira escola de cidadania. Ao refletirem sobre temas atuais, ao aprenderem a argumentar, a negociar posições e a assumir responsabilidades, crianças e jovens desenvolvem competências essenciais para a participação democrática e para o fortalecimento da sua ligação à comunidade portuguesa.
Da primeira aula de português realizada em Genebra, em 1913, aos projetos que hoje mobilizam escolas, professores, associações e centenas de alunos, a língua portuguesa continua a afirmar-se como um instrumento de ligação entre gerações. Uma língua que preserva a memória, valoriza a cultura e forma cidadãos preparados para participar ativamente na sociedade onde vivem.
Cláudia Pereira, (Docente CEPE-Suíça)
Lurdes Gonçalves, (Coordenadora CEPE Suíça)





