Rui Jorge Martins Cunha, de 61 anos, é advogado reformado e escritor, licenciado em Direito, com pós-graduação em Direito Administrativo e um curso técnico de Fotografia, na variante industrial e técnica.
Natural da freguesia de Vilar de Nantes, no concelho de Chaves, distrito de Vila Real, dedica-se à investigação na área do ensaio histórico crítico e pretende prosseguir o trabalho que tem desenvolvido em defesa da democracia e dos direitos humanos. Na Suíça, viveu com a mulher em Saint-Prex, no cantão de Vaud, e mantém hoje uma dinâmica pessoal e social entre o país helvético e Portugal, onde possui residência habitual, sem deixar de conservar uma permissão de residência suíça válida, o “permis de séjour”. Em território luso, tem casa junto às praias da Gafanha da Nazaré, no concelho de Ílhavo, distrito de Aveiro, enquanto tem familiares em Chaves. É também pai de um engenheiro da Tesla que vive em Berlim.
Viveu durante vários anos na Suíça, onde desenvolveu o seu percurso pessoal e profissional. Como descreve esse percurso?
O meu percurso pessoal e profissional foi desenvolvido em Lausanne e Saint-Prex e passou por aprender com as novas experiências na Suíça, sobretudo com as difíceis. Foi o momento de questionar as certezas que adquiri, reconhecer os erros, descobrir novas capacidades e, progressivamente, perceber quais são os valores, as ideias e os princípios que queria ter em face da vida. Foi um período em que decidi fortemente não viver segundo aquilo que os outros esperavam de mim, tendo de fazer escolhas próprias e muito pessoais com o risco inerente, mesmo quando essas escolhas me afastaram do caminho mais fácil ou mais conveniente e me fizeram perder amigos.
O que motivou a mudança para o país helvético e que etapas marcaram a sua experiência na sociedade suíça?
A minha decisão de ir para a Suíça, em setembro de 2012, nasceu de duas escolhas importantes na minha vida. Aos 50 anos decidi reformar-me da advocacia e iniciar uma nova etapa como escritor profissional. Ao mesmo tempo, quis acompanhar a minha companheira, com quem viria a casar em janeiro de 2017, que trabalhava à data na Suíça. Foi, portanto, uma mudança simultaneamente profissional, pessoal e afectiva e o início de uma nova vida. Não existiram propriamente etapas marcantes, mas um processo subtil de habituação com padrões de comportamento institucional, social e cívico muito apurado e rigoroso, que não existe em Portugal, mas que no final verificamos que essa unidade evolutiva subtil é marcante.
De que forma a vivência na Suíça influenciou o seu trabalho como advogado, a sua visão sobre a comunidade portuguesa e a sua relação com Portugal?
A minha vivência na Suíça não teve qualquer influência sobre a minha actividade como advogado, simplesmente porque, quando fui para a Suíça, já tinha decidido abandonar a advocacia. Também não alterou a minha visão sobre a comunidade portuguesa, que permaneceu essencialmente a mesma que tinha antes de partir. Sempre considerei que muitos portugueses no estrangeiro revelam uma atitude excessivamente subserviente, embora tenham, em geral, um comportamento cívico exemplar. Vejo também uma forte orientação para o trabalho e para o rendimento, mas, com demasiada frequência, sem um correspondente investimento na formação, na cultura e no desenvolvimento pessoal. Reconheço, naturalmente, diferenças importantes nas gerações mais jovens, sobretudo entre os portugueses de segunda geração. Quanto à minha relação com Portugal, fiz uma escolha consciente de afastamento. Optei por interromper essa relação com um país doentio e trocar aquilo que sentia como um ambiente social que me sufocava por uma vida com mais tranquilidade, liberdade e qualidade. A Suíça não foi apenas um país onde vivi, foi, antes de tudo, uma escolha de vida consciente tomada a dois.
Enquanto escritor, que espaço ocupam a emigração, a identidade, a distância e o sentimento de pertença na sua obra literária?
Temos aqui vários conceitos. A experiência de viver fora de Portugal não ocupa o centro da minha obra como tema explícito de “emigração”. Não escrevo sobre saudade, nem sobre o drama do desenraizamento, nem sobre a dualidade tradicional do entre cá e lá. O que a Suíça me deu e continua a dar é sobretudo distância. Porém, isso não me impediu de escrever o “Sim, fui violada”, uma obra literária reconhecida no Salão do Livro de Genebra, em 2025, constituindo literatura de não-ficção, totalmente verídica, cujos factos ocorreram na Suíça e que aborda a vida de um emigrante português que trouxe a sua filha, de 16 anos, para junto dele e que a transforma em escrava sexual. O caso foi para o tribunal e tornou-se muito mediático com uma acusação de violação, coerção sexual e incesto. Quanto à distância, ela foi muito física, mas, mais importante, foi a distância emocional e intelectual. Estar longe permite olhar para Portugal sem a urgência de o defender, mas com a necessidade de o condenar. Permite vê-lo como um país entre os piores, com as suas luzes e as suas sombras, sem a necessidade de pertencer-lhe de forma absoluta. Essa distância não me tornou menos português, tornou-me foi menos refém de uma certa ideia de portugalidade que considero contraproducente. Já quanto à identidade, eu diria que viver entre países obriga-nos a perguntar, mais cedo ou mais tarde, se somos o lugar onde nascemos ou se somos aquilo que fazemos com o que nos foi dado. Descobri que a identidade não é um território que se perde ou se ganha. É uma construção permanente, feita de memória, de escolhas e de recusa. Ser português, para mim, não é uma essência, é uma língua, uma certa forma de olhar o mundo, uma herança que carrego e que considero fantástica, mas que não me define de forma alguma. Depois de tantos anos fora, já não sinto que pertenço a um único lugar. Não pertenço plenamente a Portugal, porque a distância me afastou de certas ilusões. Não pertenço plenamente à Suíça, porque há sempre uma camada de estranheza que permanece. Todavia, pertencer a ambos seria uma solução cómoda e ideal, mas pouco verdadeira. Acabo por concluir que pertenço, sobretudo, àquilo que sou capaz de criar, de pensar e de defender. Pertenço ao mundo, à luta internacional pela democracia e pelos direitos humanos. Assim quero ser definido. A emigração, no meu caso, não entrou na literatura como tema. Entrou como condição da possibilidade de olhar de fora, de escrever sem a obrigação de representar ninguém, de ser, simplesmente, uma consciência que observa e luta.
Que livros tem editados?
O Cromatismo (1996); Das Cores em Geral (1998); Vida Salgada – O Mar como Abismo de uma Vida (2022); Onze de Fevereiro, Coletânea de Poemas (2022); Sim, fui violada (2024), reconhecido no Salão do Livro de Genebra; Israel o Irão e a Palestina (2025), reconhecido no Salão do Livro de Genebra; A Grande Invasão: O Islão (2026); Antologias nacionais várias de poesia e conto (2022 – 2026).
Que significado teve esse reconhecimento para o seu percurso e que impacto produziu na divulgação do seu trabalho?
O reconhecimento no Salão do Livro de Genebra, primeiro com a obra “Sim, fui violada” e, depois, com o “Israel, o Irão e a Palestina”, teve bastante significado no meu percurso. Não se tratou apenas de um prémio ou de uma distinção honrosa e formal, mas foi a confirmação de que uma voz nascida na margem podia ser ouvida noutro centro, e de que o que escrevo atravessa fronteiras. Esse reconhecimento tornou-me mais conhecido e, sobretudo, tornou a minha obra mais visível. Os livros anteriores, como “O Cromatismo, Vida Salgada e Onze de Fevereiro”, passaram a ser lidos com outro olhar, e o aumento das vendas foi notório. A obra deixou de circular apenas entre poucos e passou a encontrar leitores que, de outra forma, talvez nunca a tivessem encontrado. Mais do que números, o que ficou foi a sensação de que a palavra, quando é verdadeira, acaba por encontrar o seu caminho.
Depois de anos na Suíça, decidiu voltar a viver em Portugal. Foi essa a conversa que tivemos ainda no ano passado… Que razões estiveram na origem dessa decisão?
O que me fez regressar ao fim de 14 anos foi, simplesmente, a grave doença do meu pai e o apoio que foi necessário dar-lhe tendo, infelizmente, falecido a 27 de março de 2026. Diga-se o mesmo da minha mãe que, ainda viva, é uma senhora dependente e com Alzheimer avançado.
E quais foram os principais desafios encontrados no processo de regresso?
Se falamos do processo burocrático, é trabalhoso, como sempre. Mas o verdadeiro desafio do regresso é outro. Ele passa pelo reencontro com uma realidade que uma mente exigente e civicamente formada sente como estranha. Corrupção institucional, tráfico de influências, mentira política, aproveitamento do Estado, carga fiscal das mais pesadas da Europa, colapso da resposta na saúde, incongruências graves na educação, escassez de creches, problemas de habitação, taxas de juro elevadas, a injustiça da própria justiça, uma ideologia de esquerda dominante e radical, e, por fim, a total falta de vergonha do poder político. Viver com essa ignomínia é mister odiento.
Que novos passos pretende dar em Portugal?
Somente literatura e sempre no sentido da denúncia dos grupos e acções atentatórias contra a democracia e os direitos humanos.
E que livros, iniciativas culturais ou outros projectos prepara para os próximos meses?
Várias palestras em Portugal. Mas já está também em curso e vai para a editora a breve trecho duas novas obras: trata-se de um trabalho que denuncia e desmascara a ONU e o seu envolvimento com o terrorismo, o anti-semitismo e a corrupção, entre outros aspectos francamente reprováveis; por outro lado, uma coletânea de poesia elaborada em co-autoria.
Como era a sua vida na Suíça?
A minha vida na Suíça era, acima de tudo, calma. Tinha ritmo, mas não havia pressa. Divertia-me, praticava desporto competitivo de forma intensa, convivia com alguns amigos e dedicava muitas horas à escrita, muitas mesmo. Era uma espécie de tempo protegido em que o mundo ficava lá fora e eu, dentro do meu escritório, fazia o meu trabalho de denuncia. Gostava especialmente de sair e passear de mota. Tanto eu como a minha mulher somos motards, e aquelas estradas suíças, limpas e sinuosas, davam-nos uma satisfação que ainda hoje recordo com prazer. Era uma vida simples, equilibrada e muito feliz. (…) Um paraíso e um sonho.
Conviveu com a comunidade portuguesa na Suíça?
Sim, convivi e ainda convivo, mas com uma pequena parte e com gente muito selecionada.
E frequentou associações portuguesas?
Digamos que passei por perto e não gostei. Os portugueses quando se juntam e ficam em comunidade, mesmo na Suíça, esquecem onde estão e voltam a ser o que são em Portugal. Aliás, quando vêm de férias a Portugal comportam-se no trânsito de forma indisciplinada e incorrecta, mas não o fazem na Suíça.
Como os portugueses são recebidos no país?
Todos são bem recebidos, mas os portugueses, particularmente bem recebidos. Têm a fama de ser obedientes, trabalhadores, competentes e humildes. Tudo que não são em Portugal.
Como conseguia matar as saudades de Portugal?
Pela primeira vez senti a saudade no peito de forma tão dilacerante que compreendi, no sentido físico do termo, o que ela realmente é. Foi terrível. Em todo o caso, vinha a Portugal pelo menos uma vez a cada dois meses e era a única forma de suavizar aquela dor. Mais recentemente cheguei a vir a Portugal duas vezes no mesmo mês.
O que conquistou na Suíça?
A paz interior, o bem-estar e a felicidade.
O que a Suíça significa para si?
A Suíça significa, para mim, a possibilidade de uma vida serena. Foi o lugar onde encontrei paz e tranquilidade, onde pude ser feliz sem a urgência constante que tantas vezes nos consome no quotidiano. Ali tive tempo para escrever, para o desporto, para os amigos, para as estradas de mota com a minha mulher. Foi um espaço de equilíbrio e de liberdade interior. Mesmo que nos primeiros anos a saudade de Portugal me tenha dilacerado o peito, a Suíça deu-me a quietude necessária para viver e para criar.
Que imagem tem de Portugal?
A imagem que tenho de Portugal é, honestamente, péssima. Vejo um país onde predomina o acomodamento, a baixa exigência e uma certa resignação colectiva. O mérito raramente prevalece. O “desenrascanço” continua a ser enaltecido como se fosse uma qualidade, quase uma virtude nacional, enquanto a mediocridade é, com demasiada frequência, aceite e até normalizada, como se fosse uma fatalidade a que não se pode escapar. A produtividade é fraca (ao contrário dos portugueses no estrangeiro), os salários não acompanham o custo de vida e, ano após ano, perde-se talento para o estrangeiro. Os jovens mais inteligentes e mais preparados partem porque aqui não encontram espaço nem recompensa justa para o que valem. Foi o caso do meu filho, ele é um bom exemplo: na Alemanha ganha oito vezes mais do que ganhava em Portugal. É uma sociedade que se queixa muito e exige pouco de si própria. Há uma tendência para exteriorizar sempre a culpa, para esperar que alguém resolva, em vez de se assumir a responsabilidade colectiva. Falta rigor, falta ambição e falta, muitas vezes, a simples disciplina de fazer bem feito. Depois de se ter vivido noutro país, esta realidade torna-se ainda mais nítida e muito mais difícil de aceitar. Até dói.
Como e por que foi viver no país helvético?
Viver na Suíça foi muito mais do que viver noutro país. Foi encontrar um lugar onde eu descobri a paz, a tranquilidade e, sobretudo, o tempo para pensar, para observar, para escrever e para me reencontrar comigo próprio. A Suíça deu-me uma serenidade que me permitiu olhar para a vida com outra distância e outra profundidade. Foi também um lugar de inspiração e de felicidade. A paisagem, o lac Léman (face às minhas janelas com a França do outro lado), o silêncio, a organização e a possibilidade de viver com maior equilíbrio criaram as condições para uma dimensão interior que se reflectiu tanto na minha vida pessoal como na minha escrita. Talvez por isso a minha relação com a Suíça seja tão difícil de explicar. Ela não foi apenas o país onde vivi, ela foi o lugar onde, durante muitos anos, me senti verdadeiramente em paz. Como escrevi há uns dias, num poema que sairá em breve, cuja obra, supostamente, estará pronta para o próximo Salão do Livro em Genebra, “há lugares que, mesmo quando deles partimos, continuam a viver dentro de nós”.
Como vive o coração do imigrante português na Suíça?
Esta pergunta é engraçada. O coração do emigrante suíço tem duas batidas: a primeira, bate para ganhar dinheiro; a segunda, bate para regressar a Portugal. Há excepções. Existem famílias que têm os filhos na Suíça, são cidadãos de segunda geração e, por sua vez, também já têm filhos. Em muitos casos os avós, depois de muitos anos de trabalho e algumas economias, acabam por comprar casa e ficam por lá. Mas isto é mais excepcional. A regra é a das duas batidas.
Ígor Lopes





