Frequentar o Ensino Português no Estrangeiro não significa acrescentar mais uma obrigação ao horário dos filhos. Significa dar continuidade a uma língua que faz parte da sua história e transformar o plurilinguismo numa vantagem para o futuro.
As reflexões que aqui partilho decorrem da minha participação, no passado dia 15 de setembro, na mesa-redonda «Herkunftssprachen in der Schweiz», realizada no Kino Rex, em Berna, no âmbito da iniciativa Heritage Voices, do Center for the Study of Language and Society da Universidade de Berna. O diálogo com Pascale Schaller, da Escola Superior de Educação (PH Bern), e Fiona Häusler, do Gabinete Federal da Cultura, bem como as questões colocadas pelo público, permitiu discutir os desafios, o reconhecimento social e o futuro das línguas de herança na Suíça. Foi a partir desse debate que regressei a uma questão essencial para muitas famílias portuguesas: que valor tem hoje a frequência das aulas de Português para as crianças e os jovens que crescem num contexto plurilingue?
Muitos pais portugueses residentes na Suíça fazem, em algum momento, a mesma pergunta: valerá a pena inscrever os filhos nas aulas de Português?
A dúvida é compreensível. Depois de um dia inteiro na escola suíça, há trabalhos de casa, atividades desportivas, música, compromissos familiares e a necessidade legítima de descansar. Como a maioria dos cursos de Português funciona fora do horário escolar regular, frequentemente ao fim da tarde ou ao sábado, as famílias podem recear estar a exigir demasiado às crianças e aos jovens.
Mas importa colocar a questão de outra forma: o tempo passado nas aulas de Português é realmente tempo perdido ou é um investimento numa competência que acompanhará os alunos durante toda a vida?
A sobrecarga não está nas línguas
Na maioria dos casos, o que preocupa os pais não é propriamente o plurilinguismo dos filhos, mas o esforço adicional exigido pelas condições em que decorre o ensino da língua de herança.
Devemos, por isso, distinguir a eventual sobrecarga linguística da sobrecarga organizacional. Aprender e utilizar várias línguas não constitui, por si só, um problema para as crianças. A dificuldade pode estar nos horários, nas deslocações e no facto de as aulas de Português acontecerem depois de um longo dia escolar.
Ainda há professores do ensino regular que aconselham algumas famílias a não “sobrecarregarem” os filhos com a frequência destas aulas. Esta recomendação parte, muitas vezes, da ideia de que as línguas competem entre si e de que aprender Português pode prejudicar a aprendizagem do alemão, do francês ou do italiano.
Porém, as línguas não ocupam compartimentos isolados na mente. Fazem parte de um repertório que os alunos mobilizam para compreender, relacionar ideias, comunicar e construir conhecimento. A pergunta não deve ser se uma criança tem “línguas a mais”, mas se o sistema educativo e os professores sabem reconhecer e aproveitar pedagogicamente as línguas que ela já possui.
O Português não concorre com as outras línguas
Aprender Português não significa aprender menos alemão, francês, italiano ou inglês. Pelo contrário, uma competência linguística desenvolvida pode apoiar a aprendizagem de outras línguas.
Quando os alunos comparam palavras, estruturas e formas de expressão, tornam-se mais conscientes do funcionamento da língua. Quando procuram transmitir uma ideia de uma língua para outra, desenvolvem competências de mediação. Quando percebem que uma tradução literal nem sempre comunica o significado pretendido, aprendem a interpretar, a explicar e a pensar criticamente.
Foi o que observámos no projeto de tradução desenvolvido no âmbito do Ensino Português no Estrangeiro. Os alunos traduziram textos para as suas línguas de escolarização, discutiram significados, procuraram equivalências e analisaram traduções produzidas por ferramentas digitais.
Durante esse processo, não abandonaram o Português para trabalhar em alemão ou francês. Mobilizaram todo o seu repertório linguístico. Utilizaram intensamente o Português para discutir opções, justificar escolhas e compreender as diferenças entre as línguas. Também aprenderam que as ferramentas de inteligência artificial podem ajudar, mas não substituem o diálogo, a reflexão, a negociação de significados nem a orientação do professor.
Este tipo de trabalho mostra que a aula de Português não serve apenas para aprender vocabulário ou regras gramaticais. Ajuda os alunos a desenvolver competências úteis em todas as áreas: compreender com maior profundidade, comunicar com precisão, comparar perspetivas e avaliar criticamente a informação.
Uma língua é também uma relação
A língua portuguesa não é apenas uma disciplina. Para muitas crianças e jovens, é a língua dos pais, dos avós, das férias, das histórias de família, dos afetos e das memórias.
É através da língua que se transmitem formas de estar, referências culturais, tradições, valores e maneiras particulares de interpretar o mundo. É também através dela que uma criança pode construir uma relação mais profunda com familiares que nem sempre dominam a sua língua de escolarização.
Transmitir a cultura familiar sem transmitir a língua é entregar uma herança incompleta. Não se trata de culpabilizar as famílias que, por diferentes circunstâncias, encontram dificuldades nesse processo. Nem todas dispõem do mesmo tempo, das mesmas competências linguísticas ou das mesmas oportunidades de contacto com o Português.
A transmissão começa em casa, mas a família não pode ficar sozinha com essa responsabilidade. Falar Português com os filhos é essencial; permitir-lhes desenvolver a leitura, a escrita, a capacidade de argumentar e um vocabulário mais amplo exige também um ensino orientado por profissionais qualificados.
É precisamente aí que o Ensino Português no Estrangeiro desempenha um papel insubstituível.
Mais do que preparar um exame
Algumas famílias aproximam-se do EPE sobretudo por causa da certificação. A certificação é importante: reconhece formalmente as competências adquiridas e pode ter valor no percurso escolar, académico e profissional.
Mas a frequência das aulas vale muito mais do que o exame final.
É nas aulas que os alunos enriquecem o léxico, leem textos diversificados, aprendem a escrever para diferentes finalidades, participam em projetos, debatem assuntos atuais e utilizam o Português para pensar e produzir conhecimento. É também nesse espaço que encontram outros jovens com experiências semelhantes e compreendem que a sua identidade não precisa de ficar dividida entre dois países ou duas línguas.
Podem ser simultaneamente portugueses, suíços e cidadãos ligados a outras línguas e culturas. O plurilinguismo não enfraquece a identidade: torna-a mais ampla e mais rica.
Uma competência com valor no mundo profissional
O valor de uma língua é frequentemente condicionado pelo prestígio social que lhe é atribuído. Hoje, o inglês ocupa uma posição dominante como língua internacional, mas outras línguas desempenharam essa função em diferentes períodos históricos. O estatuto das línguas muda com as relações políticas, económicas e culturais.
No entanto, conhecer verdadeiramente uma língua representa sempre uma forma de poder: o poder de compreender o outro sem intermediários.
No mundo profissional, as competências linguísticas e culturais são cada vez mais relevantes. Falar a língua de um interlocutor facilita a confiança, permite compreender nuances e ajuda a construir relações profissionais mais equilibradas. O Português dá acesso não apenas a Portugal, mas a um espaço internacional diversificado e a milhões de falantes distribuídos por vários continentes.
Podemos recorrer a aplicações de tradução e a ferramentas de inteligência artificial, mas comunicar através de uma máquina não é o mesmo que pensar, compreender e interagir diretamente noutra língua. A tecnologia pode transmitir palavras; não substitui os afetos, as referências culturais, as intenções e tudo aquilo que, numa conversa, nem sequer precisa de ser dito.
O EPE e a escola suíça não devem ser mundos separados
Na Suíça, a rede do Ensino Português no Estrangeiro conta, no presente ano letivo, com 63 professores e 525 grupos de alunos. Contudo, apenas três cursos estão integrados no horário escolar regular, no cantão de Zurique. Todos os restantes funcionam depois das aulas do ensino suíço ou ao sábado.
Esta situação ajuda a explicar por que motivo algumas famílias sentem que o Português constitui uma atividade adicional. A solução não passa por abandonar a língua, mas por melhorar progressivamente as condições em que é ensinada.
A integração não tem de obedecer a um modelo único. Aliás, um modelo uniforme seria pouco característico da Suíça, onde a autonomia cantonal e a flexibilidade permitem encontrar soluções adequadas às realidades locais. Quando uma parte significativa da população de uma escola partilha a mesma língua de herança, pode fazer sentido considerar a sua integração no horário escolar. O Português em Zermatt é um exemplo que merece reflexão. Noutros lugares, poderão ser mais adequadas outras formas de colaboração entre os professores do EPE e os professores da escola regular.
Flexibilidade não deve significar invisibilidade. Deve significar capacidade para encontrar, em cada contexto, a melhor forma de reconhecer e desenvolver os recursos linguísticos dos alunos.
Dos bons projetos a uma colaboração duradoura
O projeto realizado na PHBern com Irène Zingg analisou 74 iniciativas no âmbito do ensino da língua de herança, apoiadas pelo Departamento Federal da Cultura de 2011 a 2024. Encontrámos projetos relevantes e bons resultados, mas também um limite evidente: projetos pontuais, por mais interessantes que sejam, raramente conseguem criar, por si só, estruturas permanentes de colaboração entre o ensino das línguas de herança e a escola regular. A colaboração precisa de mais do que boa vontade. Precisa de tempo, espaços, reconhecimento institucional, responsabilidades claras e formação adequada.
As Escolas Superiores de Educaçã, responsáveis pela formação dos professores na Suíça, têm aqui um papel decisivo. Os futuros docentes precisam de aprender a trabalhar com a diversidade linguística existente nas salas de aula e a mobilizar os repertórios dos alunos como recursos para a aprendizagem. A referência explícita às línguas de herança no relatório apresentado pela Suíça ao Conselho da Europa, no âmbito da Carta Europeia das Línguas Regionais ou Minoritárias, constitui um sinal político positivo. Também a swissuniversities reconhece a importância educativa da diversidade linguística relacionada com a migração. Falta, contudo, transformar esse reconhecimento numa estratégia mais coordenada, consistente e duradoura.
O futuro poderá começar nas próprias escolas: com professores, direções, cantões e instituições de formação dispostos a desenvolver boas práticas, a avaliá-las e a dar-lhes continuidade.
Uma decisão que pertence hoje às famílias
Enquanto essas mudanças estruturais não se concretizam plenamente, são as famílias que tomam, todos os anos, uma decisão fundamental: continuar ou interromper a aprendizagem do Português. Por vezes, os resultados desse investimento não são imediatamente visíveis. Uma criança pode responder em alemão ou francês quando os pais lhe falam em Português. Um adolescente pode considerar as aulas pouco importantes e só mais tarde compreender o valor daquilo que aprendeu. A continuidade, porém, é decisiva. Uma língua que deixa de ser utilizada e desenvolvida pode perder-se progressivamente.
Inscrever os filhos no EPE e apoiar a sua frequência regular não significa obrigá-los a viver no passado nem escolher entre Portugal e a Suíça. Significa dar-lhes mais instrumentos para construírem livremente o futuro.
Significa permitir-lhes falar com os avós, ler um livro em Português, estudar ou trabalhar num país de língua portuguesa, compreender melhor as suas origens e participar plenamente em diferentes espaços culturais.
Significa, sobretudo, não fechar uma porta que, uma vez fechada, pode ser difícil voltar a abrir. A língua portuguesa não é um peso acrescentado à mochila dos nossos alunos. É uma chave que lhes entregamos. Talvez não saibamos ainda todas as portas que poderão abrir com ela, mas sabemos que, sem essa chave, algumas permanecerão inevitavelmente fechadas.
Maria de Lurdes Gonçalves
Coordenadora do Ensino Português na Suíça





