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Home Cultura / Arte

Notre História – os portugueses em Genebra

admin by admin
17/07/2026
in Cultura / Arte
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“Notre História” é um dispositivo de valorização e reconhecimento simbólico do contributo histórico, social e cultural da comunidade portuguesa no cantão de Genebra, através de ações de natureza artística, cultural e memorativa.
Um percurso urbano, que conecta locais emblemáticos a temas fundamentais da imigração, mostra a evolução e a diversidade da comunidade portuguesa, dando visibilidade à sua forte presença nesta metrópole.
Em novembro de 2024, a Associação dos Graduados Portugueses na Suíça (AGRAPS) juntou-se à Coordenação do Ensino do Português na Suíça (CEPE-CH), ao Consulado-Geral de Genebra e a outras associações, sindicatos, artistas e intelectuais, na conceção desta iniciativa do Gabinete da Integração e Cidadania (BIC), do Departamento da Coesão Social do Estado de Genebra, em parceria com a Cidade de Genebra.
O itinerário memorial é composto por 11 etapas em Genebra, mais uma 12.ª etapa em Lisboa que foca o tópico do regresso a Portugal. Em cada uma destas paragens, um cartaz aborda um tema específico da história e do legado da comunidade lusa, em estreita relação com o respetivo local.
O site oficial https://notre-historia.ch/ disponibiliza: 12 cápsulas áudio, associadas a cada local; um podcast de 6 episódios; conteúdos editoriais com imagens de arquivo e contemporâneas; um jornal do itinerário; e os originais dos cartazes.

“As cápsulas áudio e o podcast, escritos e realizados pela Chahut Média, mergulham na história das comunidades portuguesas do cantão – uma presença com mais de meio século, determinante, muitas vezes desconhecida, sempre emocionante. Exílio e ditadura. Estatuto de trabalhador sazonal. Pedreiros, mulheres da limpeza, sindicalistas. Futebol, fado, associações. Ciência, novas migrações. Partir ou ficar. São estes alguns dos temas que a série se propõe explorar.”
Chahut Média (https://www.chahut.ch/documentaire/notre-historia/)

Como anteriormente noticiado na Gazeta Lusófona, a iniciativa foi apresentada ao público em 30 de março. A cerimónia de encerramento teve lugar a 13 de junho, por ocasião do 3.º Fórum dos Portugueses na Suíça, organizado pela Federação de Associações Portuguesas na Suíça (FAPS), em colaboração com a CEPE-CH. Os cartazes estarão patentes nos vários locais até ao final de junho, mas o site web com toda a informação continuará disponível posteriormente.
São exploradas áreas tradicionais como a língua, a política, o associativismo, o desporto, a educação, a gastronomia, o sindicalismo, o trabalho feminino e a Igreja. São também abordadas as dinâmicas mais recentes, ligadas à ciência e inovação (etapa 9), assim como aos novos perfis de migração, altamente qualificada e móvel (etapa 11). A participação da AGRAPS centrou-se nas etapas 9 e 11.

“Esta colaboração, além de enriquecer o dispositivo, também contribui para dar maior visibilidade ao trabalho desenvolvido por associações como a AGRAPS, ajudando a projetar uma imagem mais completa e atual da coletividade de origem portuguesa no Cantão de Genebra.”
Valério Simoni
(responsável BIC pelo projeto)

Os portugueses constituem a segunda maior comunidade estrangeira do cantão de Genebra. Apesar de beneficiarem de direitos políticos a nível comunal, a sua participação cívica permanece relativamente reduzida. Um estudo do BIC aponta o sentimento de exclusão e a falta de reconhecimento público como fatores que limitam a participação dos portugueses.

“Ao valorizar estes percursos no espaço público, afirmamos que Genebra se constrói graças à diversidade daqueles que aqui vivem. É também reconhecer plenamente o seu lugar na nossa história comum e incentivar a sua participação cívica”
Thierry Apothéloz
(Presidente do Conselho de Estado do Cantão de Genebra)

“Hoje em dia, numa altura em que assistimos, um pouco por toda a parte, ao crescimento de discursos de isolamento e de fechamento, é ainda mais essencial mobilizarmo-nos para valorizar a diversidade e recordar que ela constitui a nossa maior riqueza.”
Alfonso Gomez
(Maire da cidade de Genebra)

No quadro desta iniciativa, foram também organizados 5 ateliers de criação e fabricação de azulejos, por alunos dos cursos de português, auxiliados pelas respetivas famílias e professores da CEPE-CH, e enquadrados por mediadores do Museu Ariana da Cerâmica e do Vidro, Genebra. Dezenas de azulejos foram depois expostos durante a inauguração do dispositivo. Reportagem: https://cernbox.cern.ch/s/iHXT4GiMu1Pi540

“O facto de ser uma atividade da responsabilidade do Estado de Genebra é um aspeto positivo a realçar, pois foi uma oportunidade de marcar presença na vida cultural e social de Genebra. A participação de pais e alunos constituiu um excelente momento de desenvolvimento da interculturalidade, pondo em relação as famílias com as instituições culturais e o Governo do cantão. A atividade foi um sucesso e pode constituir-se como uma oportunidade de dar visibilidade ao trabalho realizado na aula de Português Língua de Herança junto das instituições locais.
Num ambiente familiar, os alunos desenvolveram técnicas de trabalho em argila (ou outro material) e também a criatividade de decoração, seguindo motivos alusivos ao imaginário da decoração azulejar em tons azul e branco. Os alunos desenvolveram igualmente competências de interação com o meio social e utilizaram vocabulário das línguas portuguesa e francesa, numa atividade realizada em contexto de imersão cultural, nomeadamente com a visita às reservas do Museu.”
António Carvalho
(professor EPE)

Resumo da Etapa 1 – origens, língua e cultura
https://notre-historia.ch/parcours/origine-langue
https://qrco.de/notre-historia-1

A integração escolar e a transmissão linguística representam marcos fundamentais na história da imigração portuguesa em Genebra. Durante muitos anos, os filhos de trabalhadores sazonais sem estatuto legal viviam na clandestinidade e sem acesso à escolaridade oficial, dependendo de estruturas solidárias paralelas. A abertura das escolas públicas genebrinas em 1991constituiu uma viragem social e um reconhecimento de cidadania, permitindo que milhares de crianças saíssem da sombra, dominassem o francês e se integrassem plenamente na sociedade local.
Paralelamente, a preservação da língua e cultura de origem motivou um forte movimento associativo antes de se tornar uma estrutura institucional. Os tradicionais cursos das tardes de quarta-feira evoluíram para um modelo de ensino de excelência, fruto da colaboração entre o Instituto Camões e o departamento de instrução pública de Genebra, que hoje integra o português na própria escola pública como vantagem pedagógica.

“Já não se trata apenas de preservar uma identidade portuguesa, mas de ajudar os jovens a construir uma identidade plural, capaz de navegar entre várias culturas. Contudo, à medida que a migração avança e a terceira geração se fixa, o interesse por estes cursos diminui. As atividades extracurriculares multiplicam-se, as ligações com Portugal tornam-se mais flexíveis e a transmissão linguística passa a ser um desafio.
Apesar destas mudanças, a língua continua a desempenhar um papel essencial. Permanece um ponto de encontro entre famílias, uma ponte entre os portugueses estabelecidos na Suíça e os que ficaram no país, mas também uma ferramenta de diálogo com as outras comunidades presentes num panorama helvético profundamente multilingue.”
Lurdes Gonçalves
(Coordenadora do Ensino do Português na Suíça)

Resumo da Etapa 9 – ciência, inovação e internacionalização
https://notre-historia.ch/parcours/science-innovation-et-internationalisation
https://qrco.de/notre-historia-9

A história da emigração portuguesa no cantão de Genebra conheceu uma transformação profunda ao longo das últimas décadas. Durante muito tempo, este fluxo esteve associado aos estaleiros de construção civil, aos corredores dos hospitais, à restauração e ao trabalho doméstico, sectores onde os cidadãos nacionais moldaram discretamente o panorama social e económico da região.
Contudo, há cerca de vinte anos que se impõe uma nova realidade, constituída por uma diáspora altamente qualificada de engenheiros, cientistas e investigadores. Este perfil migratório acentuou-se sobretudo após a crise financeira de 2008, altura em que uma geração de jovens diplomados, perante a escassez de perspetivas em Portugal, decidiu procurar na Suíça melhores condições para desenvolver carreiras na vanguarda da investigação.
O grande impulsionador da internacionalização da ciência lusa foi José Mariano Gago, antigo físico de partículas e Ministro da Ciência. Ele desempenhou um papel crucial na adesão de Portugal ao CERN (Laboratório Europeu para a física de partículas, em Genebra), em 1986, e criou o primeiro grupo nacional em física experimental de partículas e tecnologias associadas. Deste modo, abriu o país às colaborações internacionais, permitindo que os investigadores saíssem das limitações dos pequenos laboratórios e grupos locais.
Dez anos depois, a ADI (Agência De Inovação), lançou o Programa de Formação Avançada de Engenheiros Portugueses no CERN (e depois na ESA e no ESO). De 1996 até 2022, duas centenas de recém-graduados portugueses beneficiaram deste programa. Parte deles continua no CERN, enquanto outros seguiram carreira no estrangeiro e alguns regressaram a Portugal.
Atualmente, o CERN acolhe em permanência cerca de 150 profissionais portugueses, para além de uma centena de colaboradores associados, que participam a partir das universidades parceiras. O legado de Mariano Gago continua assim vivo no complexo de Meyrin, demonstrando o envolvimento ativo do país na investigação internacional.
No seio desta comunidade qualificada, nasceu em 2020 a AGRAPS (Associação dos Graduados Portugueses na Suíça). Fundada em plena pandemia, conecta profissionais de áreas como engenharia, saúde, inteligência artificial e finanças, para partilhar experiências e oportunidades.
Mais do que um ponto de encontro profissional, a associação atua na diplomacia científica (contactos com a academia e instituições oficiais portuguesas) e na literacia científica (transmissão pedagógica aos jovens locais). Longe de ser um clube elitista, ambiciona servir de inspiração para que os jovens da diáspora encarem as carreiras académicas e científicas como um caminho possível.
Embora muitos acalentem o desejo de regressar, as excelentes condições de trabalho, os salários e as infraestruturas na Suíça tornam o regresso definitivo a Portugal uma equação complexa. Estes profissionais encontram-se por vezes divididos entre a estabilidade conquistada e a saudade das origens. Deste modo, esta nova geração permanece sediada na Suíça, projetando uma imagem moderna e inovadora de Portugal, sem romper com as suas raízes, nem com a memória coletiva daqueles que os antecederam no país.

Resumo da Etapa 11 – Novas migrações
https://notre-historia.ch/parcours/nouvelles-migrations
https://qrco.de/notre-historia-11

A imigração portuguesa na Suíça está a passar por uma transformação marcante, coexistindo atualmente diferentes gerações com perfis muito distintos. Afastando-se do estereótipo tradicional do operário da construção civil ou da empregada doméstica das primeiras vagas sazonais, os fluxos recentes incluem também uma vaga de jovens licenciados altamente qualificados. Esta nova geração, fluente em vários idiomas e com grande flexibilidade profissional, ocupa posições de relevo em áreas como a investigação científica, engenharia, informática, saúde e banca, redefinindo o mapa laboral da comunidade no cantão de Genebra.
Esta diversificação reflete a subida das qualificações em Portugal e a forte procura do dinâmico mercado suíço, que atrai profissionais em busca de melhores salários e progressão na carreira. Ao contrário dos pioneiros, que viviam focados no regresso e mantinham uma postura mais discreta, estes novos migrantes possuem uma relação diferente com o mundo e com a política. Integram-se mais facilmente nos círculos sociais helvéticos, convivem com cidadãos locais e participam ativamente na vida sociopolítica e cívica do país assim que têm oportunidade, mantendo, no entanto, os laços económicos e afetivos com Portugal.
Compreender a atual comunidade portuguesa na Suíça exige, por isso, abandonar a ideia de um grupo homogéneo e aceitar um mosaico complexo em constante recomposição. Essa realidade junta os antigos trabalhadores de contratos sazonais, os seus filhos que constituem a chamada “segunda geração” (cresceram na Suíça, têm dupla nacionalidade e encaram o país como o seu espaço de cidadania) e os recém-chegados altamente qualificados. No seu conjunto, esta presença desenha uma diáspora dinâmica e em movimento, cada vez mais inserida nas redes profissionais, sociais e políticas da Suíça contemporânea.
Paulo Gomes
(oficial de ligação do CERN para Portugal, Presidente AGRAPS)
Lurdes Gonçalves
(Coordenadora CEPE-CH, Comunicação AGRAPS)

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