As redes familiares e de amizade ajudam os portugueses que chegam ao cantão de Zurique a encontrar habitação e emprego, a lidar com procedimentos administrativos e a ultrapassar barreiras linguísticas. A conclusão integra a investigação de Maria Carolina da Cunha Pinto sobre os percursos de integração da comunidade portuguesa.
Parte dos resultados foi publicada num capítulo da obra “Integração e regresso na emigração portuguesa”, do “Observatório da Emigração”. O trabalho examina também o papel das redes digitais e das instituições, mostrando que a integração varia conforme as circunstâncias de cada pessoa.
Natural de Lisboa e residente no cantão de Zurique há mais de duas décadas, Maria Carolina Pinto é licenciada em Línguas Aplicadas, mestre e doutorada em Relações Interculturais pela Universidade Aberta. É investigadora colaboradora do Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais da Universidade Aberta (CEMRI/UAb). Na Suíça, desenvolve trabalho voluntário no Zentrum für Migrationshilfe (ZMH), na área de Integração e Mediação Intercultural, no Departamento de Projetos. É ainda moderadora de língua portuguesa no programa FemmesTische, dinamizando rondas de conversa com mulheres migrantes.
Em entrevista ao Gazeta Lusófona, esta investigadora lusa cruza a análise académica com a experiência de viver na Suíça. Fala, sobretudo, sobre o trabalho desenvolvido no âmbito académico. Sublinha, porém, que o regresso a Portugal, a língua, as tradições e os gestos do quotidiano entram também numa conversa sobre pertença e sobre as ligações que persistem depois da emigração.
Como nasceu o estudo e qual o seu enquadramento?
Este estudo nasceu no âmbito do meu percurso académico em Relações Interculturais na Universidade Aberta. Muitas das questões que investiguei começaram a ganhar forma ainda durante o mestrado, a partir de interrogações suscitadas pela minha própria experiência migratória e pelo que observava à minha volta na Suíça. A investigação permitiu transformar essas inquietações em perguntas científicas e relacionar a experiência individual com as redes sociais, as instituições e as condições estruturais que influenciam a integração. No doutoramento, o estudo incidiu sobre portugueses que chegaram ao cantão de Zurique entre 2013 e 2019. Parte dos resultados foi publicada no capítulo “Os novos migrantes portugueses no cantão de Zurique: integração, redes e experiência vivida”, da obra “Integração e regresso na emigração portuguesa” (Observatório da Emigração, julho de 2026). Um dos resultados mais evidentes foi a importância das redes de proximidade nos percursos de integração. Os contactos com colegas suíços e as redes de familiares e amigos portugueses surgem entre os apoios mais valorizados, pela ajuda prática, pela circulação de informação e pelo acesso a oportunidades de trabalho. Ao mesmo tempo, o estudo mostra que a integração não é um processo linear nem igual para todos. A autoavaliação global dos percursos é maioritariamente positiva, em particular na dimensão profissional, mas persistem desafios relacionados com o domínio da língua alemã, a criação de laços sociais e alguma distância em relação à sociedade de acolhimento. Os resultados apontam, por isso, para uma integração gradual, muito dependente das circunstâncias individuais, das estruturas existentes e da qualidade das redes que cada pessoa consegue estabelecer.
De que forma estes vínculos facilitam o acesso ao emprego, à habitação, aos cuidados de saúde e à informação necessária nos primeiros meses?
As redes familiares e de amizade desempenham um papel muito importante, especialmente na fase inicial de instalação. Chegar a um novo país implica tomar decisões e resolver rapidamente questões muito concretas, como procurar alojamento, compreender o funcionamento do mercado de trabalho, tratar do seguro de saúde ou saber a quem recorrer perante uma questão administrativa. Alguns dados do estudo ajudam a contextualizar essa fase. Cerca de 66% dos participantes viveram inicialmente com o cônjuge ou outros familiares, 58% já tinham uma proposta de emprego quando emigraram, 80,1% referiram ter encontrado alojamento com relativa facilidade e 83,7% conseguiram aceder rapidamente ao seguro de saúde obrigatório. As redes funcionam, além disso, como canais de informação e orientação. Quem já conhece o contexto pode partilhar contactos, explicar procedimentos e ajudar a ultrapassar barreiras linguísticas ou burocráticas. Constituem, assim, uma forma de capital social que reduz a incerteza dos primeiros meses e facilita a adaptação, sem substituir o papel das instituições. As redes digitais, como os grupos de emigrantes no Facebook, têm um papel mais moderado, mas relevante, já que cerca de um terço dos participantes as considerou importantes.
A investigação revela uma preferência pelas estruturas informais de apoio, em detrimento das respostas institucionais portuguesas e suíças. Que fatores ajudam a explicar esta tendência e que lacunas continuam a ser identificadas no acompanhamento dos novos emigrantes?
As redes informais são frequentemente mobilizadas porque estão próximas, são acessíveis e conseguem responder rapidamente às necessidades de quem chega. Na perceção dos participantes, as instituições portuguesas e suíças foram menos valorizadas do que as redes informais no apoio direto à integração. Isso não as torna irrelevantes, porque fazem parte do processo, embora surjam sobretudo numa fase posterior ou em situações mais específicas. O que o estudo evidencia é que, numa fase inicial, muitas pessoas recorrem primeiro a relações de confiança já existentes ou construídas rapidamente. As lacunas tornam-se mais visíveis quando essa rede é frágil ou inexistente. Nesses casos, aumenta a necessidade de informação acessível, orientação inicial e respostas que aproximem os migrantes dos recursos disponíveis. Mais do que substituir as estruturas institucionais, importa torná-las mais visíveis, compreensíveis e próximas de quem acaba de chegar.
O estudo apresenta a integração como um processo dinâmico, não linear e influenciado por fatores individuais, relacionais e estruturais. Quais foram os principais obstáculos apontados pelos portugueses ouvidos?
A língua alemã surgiu como o obstáculo mais transversal, porque condiciona a comunicação quotidiana, o acesso à informação, a relação com as instituições, a participação na comunidade e, em alguns casos, a própria progressão profissional. Como resumiu uma participante: “A língua é a maior barreira.” Quanto às relações interculturais, a avaliação foi mais positiva, embora isso não permita concluir que os obstáculos estejam ausentes. O estudo revela alguma ambivalência entre experiências de acolhimento e sentimentos de distância simbólica, em especial na sociabilidade de proximidade e nos ritmos da convivência quotidiana. Essa dificuldade estende-se à participação na comunidade local, dimensão em que alguns participantes se consideraram pouco integrados. No mercado de trabalho, os resultados são globalmente mais favoráveis e a integração profissional surge como uma das dimensões mais positivas. Ainda assim, a língua, o reconhecimento das competências e as condições concretas de inserção podem influenciar a estabilidade e a progressão. Na verdade, os obstáculos não surgem isolados, mas interligados.
A investigação combinou dados quantitativos com entrevistas autobiográficas e semiestruturadas, envolvendo portugueses entre os 18 e os 45 anos que chegaram ao cantão de Zurique entre 2013 e 2019. Como foi desenvolvido este trabalho?
A investigação combinou um questionário online, que reuniu 361 respostas válidas, com onze entrevistas: seis autobiográficas, a migrantes, e cinco semiestruturadas, a representantes associativos, religiosos, sindicais e de comunidades digitais. O questionário ajudou a identificar padrões, enquanto as entrevistas deram profundidade a esses dados e mostraram como os próprios migrantes interpretam o que vivem. Foi através dos testemunhos que se tornaram particularmente visíveis as diferenças de percurso, as expectativas, as dificuldades e as estratégias de adaptação.
Enquanto investigadora e emigrante residente em Zurique, de que modo a sua própria experiência influenciou a escolha deste tema e o seu trabalho na área das migrações e das comunidades, sem comprometer o distanciamento exigido pela investigação científica?
O meu percurso académico nasceu, em grande medida, da necessidade de compreender a minha própria experiência migratória. Desde a dissertação de mestrado, em que trabalhei questões de identidade cultural, até ao doutoramento, fui transformando em objeto de estudo muitas das interrogações que surgiam daquilo que vivia e observava à minha volta na Suíça. Interessava-me perceber até que ponto essas experiências encontravam correspondência nos percursos de outros portugueses e atualizar o olhar sobre uma comunidade em transformação. A proximidade ao tema exigiu reflexividade e distanciamento analítico, para que a minha experiência pessoal pudesse gerar perguntas sem determinar os resultados. Compreender melhor os outros acabou por me ajudar a compreender o meu próprio percurso.
Embora o estudo esteja centrado no cantão de Zurique, considera que os resultados encontram correspondência noutras regiões da Suíça?
É possível que alguns destes resultados encontrem correspondência noutras regiões da Suíça, especialmente no que diz respeito à importância das redes sociais, familiares e profissionais nos percursos de integração. Seria, contudo, imprudente generalizar os resultados do cantão de Zurique a outros contextos geográficos. As diferenças linguísticas, institucionais e territoriais podem dar origem a experiências distintas. Num cantão francófono, por exemplo, a relação com a língua pode assumir contornos diferentes dos encontrados em Zurique, onde o alemão surge como uma das principais dificuldades. Uma comparação desse tipo exigiria investigação específica. Além disso, como a amostra do meu estudo não é probabilística, os resultados não podem ser extrapolados para toda a população portuguesa na Suíça. Para perceber até que ponto existem padrões comuns ou diferenças regionais, seria necessário desenvolver um estudo comparativo entre vários cantões.
Como é a sua vida na Suíça?
A minha vida na Suíça faz-se muito no quotidiano. Privilegio os momentos com os meus filhos, e o meu trabalho centra-se na investigação, na escrita e na mediação intercultural, através de projetos e iniciativas de proximidade junto de comunidades migrantes. Como em qualquer percurso migratório, há responsabilidades e desafios, mas também uma rotina, laços e referências que fui construindo ao longo do tempo. Viver na Suíça é viver num país muito organizado, previsível e exigente, aspetos que valorizo. Muitos elementos deste modo de vida já fazem parte da minha normalidade.
Pensa em voltar a viver em Portugal algum dia?
Sim, penso nessa possibilidade. Portugal continua a ser um lugar de pertença e é natural que a ideia de regressar faça parte do meu horizonte. Por outro lado, depois de tantos anos na Suíça, um regresso teria de ser pensado à luz da vida que aqui construí, dos projetos que ainda quero desenvolver e das amizades que aqui mantenho. Na Suíça aprendi a transitar entre diferentes referências culturais sem sentir que tenho de escolher apenas uma, e talvez uma das maiores conquistas seja conseguir reconhecer-me no caminho que fui construindo.
O que a Suíça significa para si?
A Suíça significa estabilidade, segurança e qualidade de vida, visíveis no dia a dia e no bom funcionamento dos serviços. Foi aqui que aprofundei o sentido de autonomia, de responsabilidade, de respeito pelo espaço comum e de participação cívica. Viver neste país levou-me também a acolher outras culturas e a valorizar ainda mais o papel das normas e condutas que tornam possível uma boa convivência em sociedade. A Suíça já não é apenas o país para onde emigrei. É uma segunda casa, que faz parte da minha história e da minha identidade, embora de uma forma diferente de Portugal.
Que imagem tem de Portugal?
Tenho uma relação muito afetiva com Portugal, porque é o meu país. Ao mesmo tempo, viver fora dá-me uma perspetiva diferente, inevitavelmente marcada pela comparação com a Suíça. Vejo um país com um grande capital humano, cada vez mais diverso e com muitas qualidades, mas que continua a enfrentar fragilidades na economia, na saúde e na criação de oportunidades. Preocupa-me particularmente a geração mais jovem e a dificuldade que muitos ainda encontram para construir uma vida estável com perspetivas de futuro. Talvez por viver fora do país consiga manter essa proximidade emocional e, ao mesmo tempo, observar algumas destas diferenças a partir de uma perspetiva mais ampla.
Como e por que foi viver no país helvético?
Vim para a Suíça por motivos pessoais e familiares. Na altura, a decisão não esteve ligada a razões económicas, mas ao meu próprio percurso de vida. Acabei por construir aqui uma parte muito importante da minha história, a nível pessoal, académico e profissional.
O que espera do futuro da comunidade portuguesa na Suíça?
Espero que a comunidade portuguesa continue a ser reconhecida por uma história migratória globalmente positiva. Gostaria de ver as novas gerações, em particular as que já nasceram aqui, com maior presença em cargos de responsabilidade e em espaços de decisão. Desejo uma comunidade mais consciente, coesa e ativa no exercício dos seus direitos e deveres cívicos, sem perder a identidade cultural que a caracteriza. Uma comunidade capaz de afirmar a sua presença para benefício próprio e para benefício da sociedade em que vive.
Como caracteriza essa comunidade hoje, na Suíça?
Vejo hoje uma comunidade portuguesa muito diversificada, com diferentes gerações, percursos de vida e níveis de qualificação. De uma forma geral, é uma comunidade reconhecida pelo seu trabalho e pelo seu sentido de responsabilidade. Hoje circula mais informação, em parte graças às redes sociais digitais, o que capacita as pessoas para conhecerem melhor os seus direitos, deveres e recursos disponíveis. Não existe um único perfil de emigrante português na Suíça, e essa heterogeneidade é talvez uma das características mais marcantes da comunidade atual.
Por fim, como vive o coração do emigrante português na Suíça?
O coração do emigrante português na Suíça vive muitas vezes entre a razão e a emoção. Aprende a adaptar-se, cria laços e constrói uma vida, sem deixar de transportar memórias, afetos e saudades de Portugal. Com o tempo, essa dupla pertença deixa de ser apenas uma distância entre dois lugares e passa a fazer parte de quem somos.
Ígor Lopes





