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Home Educação

Gabriel Wickbold leva a Genebra 20 anos de investigação sobre “identidade”

admin by admin
22/09/2026
in Educação
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Gabriel Wickbold inaugura, a 15 de outubro, uma exposição no “Espace des Arts”, da Fundação Christina Oiticica e Paulo Coelho, em Genebra, Suíça.
A mostra, que permanecerá aberta durante aproximadamente 45 dias, marca uma nova etapa da presença do artista visual brasileiro no país helvético, iniciada através da parceria com Letícia Maciel, da “Galerie Espace_L”, que possibilitou a sua participação na “Photo Basel”.
Ao longo de 20 anos de trabalho com a imagem, Wickbold construiu uma pesquisa centrada na “identidade” e nas forças que participam na formação do “indivíduo”. O percurso começou na fotografia e expandiu-se para a pintura, o vídeo, a instalação, a escultura, o corpo, a tecnologia e a inteligência artificial. Nas diferentes séries, o artista aborda temas como “memória, ancestralidade, natureza, redes sociais, biometria, dados e autoria”.
A exposição em Genebra integra um ano de revisão da sua trajetória, assinalado também pela retrospectiva Gabriel Wickbold — Imersão e Origem — Ato I, apresentada no Museu do Estado de Pernambuco, no Recife, e pelo novo trabalho Maze ID — A Utopia da Face, exibido na SP-Arte Rotas, em São Paulo. Nesta entrevista, Gabriel Wickbold fala sobre os projectos em curso, a relação com o circuito artístico suíço e as questões que orientam o início dos próximos 20 anos da sua produção.

A sua trajetória começou na fotografia em 2006 e, ao longo de duas décadas, passou por exposições internacionais, coleções de museus, projetos curatoriais e pela criação da sua própria galeria. Como enquadra hoje a chegada à Suíça neste percurso?
A minha relação com a Suíça começou de uma maneira muito natural. Foi através da Letícia Maciel, da “Galerie Espace_L”, que surgiu a possibilidade de apresentar o meu trabalho na “Photo Basel”. E foi muito interessante porque não era simplesmente chegar numa feira onde ninguém conhecia a minha história. Existia uma pessoa ali apresentando o trabalho, criando pontes, explicando de onde ele vinha. A resposta foi muito boa. Tivemos vendas, mas, principalmente, tivemos conversas que continuaram depois da feira. Para mim, isso talvez seja o mais importante hoje. Depois de 20 anos, eu não tenho mais tanta ansiedade de simplesmente estar em muitos lugares. Quero estar nos lugares onde seja possível construir alguma coisa. Por isso, a Suíça começa a ter um significado especial. “Photo Basel” foi um primeiro movimento importante e, agora, em 15 de outubro, acontece a exposição em Genebra, no “Espace des Arts” da Fundação Christina Oiticica e Paulo Coelho. Quero que uma coisa leve à outra e que essa relação seja construída com tempo.

Onde está localizado o espaço na Suíça?
Hoje eu não tenho um espaço próprio na Suíça. Acho importante fazer essa distinção. A minha presença no país acontece através das relações que estamos construindo, principalmente com a “Galerie Espace_L”, e, agora, através da exposição no “Espace des Arts”, em Genebra, da Fundação Christina Oiticica e Paulo Coelho. A exposição abre em 15 de outubro de 2026 e permanece por aproximadamente 45 dias. Ela faz parte desse momento de revisão dos meus 20 anos de trajetória. E o que mais me interessa nessa retrospectiva não é simplesmente mostrar como a estética do trabalho mudou, mas perceber como uma mesma pergunta foi aparecendo de formas completamente diferentes ao longo do tempo. No fundo, acho que passei 20 anos tentando entender identidade. Quem somos? O quanto da nossa identidade é realmente nossa? O quanto vem do lugar onde nascemos, das pessoas que encontramos, das marcas que carregamos, das histórias que herdamos e, agora, dos sistemas tecnológicos aos quais entregamos nossas informações?

Que projetos tem hoje ativos no país helvético?
A relação começou com a parceria com Letícia Maciel e a “Galerie Espace_L”, que possibilitou a minha participação na “Photo Basel” em 2026. Foi uma experiência muito importante porque me colocou em contacto com um público novo e abriu conversas com colecionadores e pessoas do circuito europeu. Agora, existe essa exposição em Genebra, no “Espace des Arts” da Fundação Christina Oiticica e Paulo Coelho, a partir de 15 de outubro. Eu gostaria que esses movimentos fossem criando uma presença mais contínua. Não estou interessado em chegar, fazer uma exposição e ir embora. Quero construir relações que permitam que o trabalho seja acompanhado e compreendido ao longo do tempo.

O que a experiência na “Photo Basel” revelou sobre o público, os colecionadores e o mercado de arte suíço?
Uma coisa que me chamou atenção foi o tempo. Senti um público que realmente parava diante da obra. Perguntava sobre processo, sobre série, sobre o que veio antes e o que veio depois. Talvez porque eu esteja completando 20 anos de carreira, isso tenha ficado especialmente evidente para mim. Hoje, uma obra minha quase nunca existe sozinha. Ela faz parte de uma investigação que começou muitos anos antes. A “Photo Basel”, através da parceria com a Letícia e a “Espace_L”, permitiu apresentar justamente essa história. Nova York tem uma velocidade enorme. Miami tem uma relação muito forte entre mercado, encontro e vida social. Londres possui um circuito institucional muito consolidado. E, no Brasil, existe uma proximidade cultural com as questões que atravessam o meu trabalho. Na Suíça encontrei outra temporalidade. Existe mercado, evidentemente, mas senti também curiosidade e uma tradição de colecionismo baseada em conhecimento. Isso me interessa muito.

Quais trabalhos estão atualmente em desenvolvimento e quais terão ligação com a Suíça?
A retrospectiva também está me fazendo olhar muito para frente. Nos trabalhos mais recentes, tenho me interessado por aquilo que não conseguimos fotografar diretamente: tempo, memória, ausência, afeto, desejo, ancestralidade. Tenho chamado essa investigação de Diários da Invisibilidade. Estou trazendo para o trabalho materiais como cera de abelha, juta, plantas, mangueiras, radiografias e objetos que carregam memória. A fotografia continua ali, mas já não precisa necessariamente ser a superfície final da obra. Talvez a pergunta que esteja começando a aparecer seja: o excesso de visibilidade nos tornou invisíveis? Vivemos num momento em que produzimos imagens de nós mesmos o tempo inteiro. Somos fotografados, filmados, identificados e transformados em dados continuamente. Nunca fomos tão visíveis. Mas não sei se isso significa que somos realmente vistos. Essa pesquisa é provavelmente o começo dos próximos 20 anos.

Como observa hoje o ecossistema artístico suíço e que oportunidades identifica para artistas brasileiros e latino-americanos?
Acho que, durante muito tempo, existiu uma expectativa de que o artista brasileiro precisasse explicar o Brasil para conseguir circular internacionalmente. Eu não acredito muito nisso. Claro que carregamos o nosso território, a nossa história, as nossas contradições e a nossa cultura. Isso está inevitavelmente dentro do trabalho. Mas questões como identidade, tecnologia, ancestralidade, meio ambiente, desigualdade, corpo e memória não são exclusivamente brasileiras. São questões humanas. A Suíça tem uma tradição extraordinária de colecionismo e uma concentração muito particular de galerias, fundações, museus e pessoas do mundo inteiro circulando pelo país. Isso cria uma oportunidade enorme para artistas brasileiros. Mas acho que o caminho não é simplesmente aparecer uma vez. É criar relação. Foi isso que comecei a perceber através da parceria com Letícia Maciel e a “Galerie Espace_L”. Ter alguém que conhece aquele território, apresenta o trabalho e constrói confiança faz uma diferença enorme.

A sua atuação internacional combina a carreira autoral com a vertente de galerista e empreendedor cultural. A Suíça poderá também tornar-se uma ponte entre Brasil e Europa?
Eu gostaria muito. A galeria e principalmente o Instituto Gabriel Wickbold nasceram desse entendimento. Eu tive acesso a pessoas e oportunidades que mudaram a minha vida.

Em que outros locais está presente ou onde existem produções artísticas suas?
O meu trabalho já circulou por diferentes países e cidades ao longo desses 20 anos, mas hoje estou tentando ser um pouco mais cuidadoso com a ideia de presença.
Ígor Lopes

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