Encontrámos em Portugal e na Suíça um jovem e simpático historiador. Uma oportunidade para conhecer melhor o seu trabalho e a sua visão de Portugal.
Qual foi a razão por ter escolhido esta formação de historiador?
Desde criança que me lembro de gostar muito de história e ter interesse por locais e monumentos construídos em épocas longínquas. Lembro-me de ler bastantes livros de divulgação histórica para crianças e jovens e também romances históricos. O meu irmão mais velho mostrava-me muitos filmes antigos que passavam na televisão e outros mais recentes mas que retratavam várias épocas históricas. Depois de a internet aparecer, ele mostrava-me também vários materiais retirados de websites relacionados sobretudo com a Segunda Guerra Mundial. Sempre gostei também muito de videojogos ambientados em épocas históricas, nomeadamente os de estratégia. Para mim seguir o curso de história foi uma opção natural, embora quando entrei na universidade não soubesse exatamente o que iria fazer profissionalmente.
Fez uma tese sobre as representações da Idade Média e as suas influências na história portuguesa de 1890 até 1947. Pode falar sobre este trabalho e as conclusões da sua tese?
Essencialmente é uma tese que se debruça sobre três temas: a escrita da história, as políticas patrimoniais e as comemorações públicas. Procurei compreender de que formas o passado medieval foi narrado, representado e instrumentalizado politicamente durante este período. Uma das principais conclusões é que a Idade Média legitimou ideologicamente regimes e campos políticos completamente díspares. Podemos encontrar usos do passado medieval tanto durante a monarquia como durante a Primeira República e o Estado Novo, tanto em autores liberais conservadores como em autores da esquerda republicana ou ligados ao Integralismo Lusitano. À semelhança de outros países europeus, a Idade Média era essencialmente imaginada como uma época na qual as características da nação haviam assumido o seu cariz mais original e mais puro. Era por isso que era tão frequentemente evocada.
Esta tese foi elaborada em co-tutela com a Universidade de Lucerna. Quais foram os ensinamentos pelo facto de trabalhar com uma universidade suíça?
A co-tutela com a Universidade de Lucerna, na qual estive sob a supervisão do Professor Valentin Groebner, constituiu uma oportunidade única na minha carreira académica. Foi a primeira vez que obtive um grau académico através de outra instituição que não fosse a universidade onde me licenciei e tirei o mestrado (Nova de Lisboa). A minha estadia em Lucerna permitiu-me entrar em contacto com uma série de investigadores, não apenas da Suíça mas também de outros países, que se dedicam ao estudo dos usos do passado. Além disso, mostrou-me como boas condições de estudo e investigação, nomeadamente em termos de infraestruturas (edifícios e salas confortáveis, bibliotecas bem apetrechadas) podem fazer a diferença ao nível do interesse e progressão da carreira académica.
Também apresentou em 2018 uma palestra sobre as representações da história de Portugal no quadro das exposições portuguesas de 1940 e 1998. Existe uma certa semelhança entre essas duas exposições?
Foi de facto uma apresentação que fiz na Universidade de Genebra, a convite da Professora Nazaré Torrão e do Pedro Cerdeira, no âmbito de um seminário organizado a propósito dos 20 anos da Expo’98. Em 2020 publiquei uma versão escrita desta apresentação na revista Língua-Lugar, editada pela mesma universidade. De facto, são várias as semelhanças entre as duas exposições: ambas constituíram momentos muito significativos de celebração para os respetivos regimes políticos que as patrocinaram e organizaram, ambas foram realizadas em zonas de Lisboa situadas junto ao rio Tejo e que foram profundamente remodeladas para o efeito, e ambas tiveram como enfoque principal a expansão ultramarina portuguesa. De facto, apesar de realizadas em épocas e contextos históricos completamente diferentes, tanto uma como outra espelharam uma visão universalista sobre a identidade nacional portuguesa, cuja maior expressão teriam sido os chamados “descobrimentos” dos séculos XV e XVI.
O estudo da história contemporânea de Portugal ajuda-lhe a perceber a situação atual do país e a definir melhor os grandes desafios futuros?
Há uma piada que se costuma dizer entre os historiadores das épocas medieval e moderna: a de que os especialistas em história contemporânea são como jornalistas, ou seja, investigam o tempo presente. Na verdade, é um pouco isso que acontece com todas as épocas históricas: os historiadores partem das questões do presente para investigar o passado. No caso particular da história contemporânea, esta “contemporaneidade” da história é ainda mais marcada. É de facto muito mais fácil compreender o presente sabendo que aconteceu há 20, 50, 100 ou 200 anos. No entanto, a maioria dos historiadores tem muita reticência em fazer previsões ou a dar conselhos baseados em experiências passadas. A história pode indicar-nos para onde não devemos ir, mas não nos indica o caminho exato por onde devemos ir. As circunstâncias históricas mudam muito rápido, sobretudo a partir do início da época contemporânea.
Tem projetos a longo prazo e trabalhos em curso?
Neste momento estou a desenvolver um projeto de seis anos financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia que se debruça sobre as representações e usos do passado medieval no Portugal pós-25 de abril. Ainda não sei bem até que ano este projeto irá cobrir, dado que é um tema que está constantemente a ter desenvolvimentos novos. Além disso, estou também envolvido num projeto do meu centro de investigação – o Instituto de História Contemporânea – que se intitula “Histórias Conectadas de Portugal: Dicionário Digital do Mundo Contemporâneo”. O projeto encontra-se na fase de consolidação do website e estará disponível em acesso aberto muito brevemente.
Como vê ou prevê o seu futuro de jovem historiador e os seus grandes sonhos?
Bem, já não sou exatamente um jovem historiador, uma vez que tenho 38 anos e iniciei a minha carreira de investigação há cerca de 15 anos. Prosseguir uma carreira de investigação em história não é fácil em nenhuma parte do mundo, sobretudo pela razão que apontei antes: dependemos quase inteiramente de financiamento público e o Estado olha para a disciplina com uma certa desconfiança. Financiar ciência dá sempre poucos votos e muita gente não vê os benefícios de o fazer. No anterior governo houve algum progresso no sentido de dar estabilidade aos investigadores mais consolidados através do programa Tenure. Além disso, há também alguns (poucos) concursos para a docência universitária. Diria que o meu grande sonho, a médio prazo, seria alcançar esta estabilidade profissional, quer fosse através do programa Tenure, quer através da docência universitária.
É diretor da revista Práticas da História. Journal on Theory, Historiography and Uses of the Past, lançada em 2015. Qual é o objetivo desta revista?
De facto, fui diretor da revista entre julho de 2020 e março de 2023. Neste momento colaboro com a mesma enquanto membro do Conselho Editorial. Trata-se de uma revista científica com revisão por pares em acesso livre que, como o nome indica, publica artigos dedicados à história da historiografia e dos usos do passado e à teoria da história. Neste momento estou a trabalhar, juntamente com vários outros colegas portugueses e brasileiros, num número temático dedicado aos usos do passado pelos atuais movimentos de extrema-direita a nível mundial.
Clément Puippe, cp@netplus.ch





