No coração da Suíça, a cidade de Payerne transforma-se anualmente num vibrante epicentro da cultura portuguesa, acolhendo aquela que é considerada a mais emblemática Festa de S. João das Comunidades Lusas no país. Este evento, organizado pelo Centro Português de Payerne, transcende a mera celebração religiosa, afirmando-se como um pilar fundamental na preservação da identidade cultural e no reforço dos laços comunitários entre os portugueses emigrados e os seus descendentes.
A festa é um testemunho vivo da resiliência e da capacidade de uma comunidade em manter as suas tradições, mesmo a milhares de quilómetros da pátria-mãe.
A história da comunidade portuguesa em Payerne está intrinsecamente ligada aos fluxos migratórios que, a partir dos anos 60 e 70, levaram milhares de portugueses a procurar novas oportunidades na Suíça. Estes emigrantes, muitos deles oriundos de zonas rurais de Portugal, trouxeram consigo não apenas a sua força de trabalho, mas também um rico património cultural e um profundo sentido de comunidade. O Centro Português de Payerne emergiu neste contexto como um ponto de encontro vital, uma “segunda casa” para muitos, onde se podia falar a língua materna, partilhar experiências e manter vivas as tradições. Ao longo das décadas, o Centro consolidou-se como uma referência cultural, de informação e entreajuda, desempenhando um papel crucial na integração e no bem-estar dos portugueses na região.
A Festa de S. João em Payerne é o expoente máximo desta dinâmica comunitária. Celebrada geralmente em meados de junho, esta festividade de três dias, carinhosamente apelidada de “O Maior São João”, atrai portugueses de toda a Suíça e até de países vizinhos. A organização esmera-se em recriar a atmosfera das festas populares portuguesas, com uma forte aposta na gastronomia, na música e nas tradições folclóricas. A oferta de uma tonelada de sardinha assada, acompanhada de grelhados e dos tradicionais manjericos, é um dos pontos altos que evoca os sabores autênticos de Portugal.
O programa musical é diversificado, contando com atuações de artistas portugueses, grupos de concertinas e bombos, que animam o ambiente e convidam à dança. Os ranchos folclóricos, como o Rancho de Fribourg e o Rancho F.P. Bienne, desempenham um papel crucial, exibindo as danças e cantares tradicionais que são passados de geração em geração. A dimensão religiosa é também respeitada, com a realização de uma missa campal promovida pela Comunidade Católica Portuguesa de Payerne, sublinhando a ligação da festa às suas origens.
Para compreender melhor a profundidade do impacto desta festa, conversámos com alguns participantes:
Maria Silva, 72 anos
Dona Maria, é um prazer encontrá-la aqui na Festa de S. João. Há quanto tempo vive na Suíça?
Boa tarde! Vivo cá há mais de 50 anos. Vim para cá muito nova, com o meu marido, à procura de uma vida melhor. Deixámos Portugal com o coração apertado, mas com muita esperança.
E o que significa para si esta festa, aqui tão longe da sua terra natal?
Ah, meu filho, esta festa é tudo! É como voltar a casa por uns dias. Sinto o cheiro da sardinha assada, ouço as concertinas, vejo as pessoas a dançar…. É a nossa cultura, as nossas raízes, que não deixamos morrer. Lembro-me dos S. “Joões” em Portugal, das fogueiras, dos balões. Aqui, o Centro Português de Payerne faz um trabalho maravilhoso para nos trazer um bocadinho disso. É um consolo para matar as saudades.
Nota diferenças na forma como as gerações mais novas vivem a festa?
Sim, claro. Os meus netos, por exemplo, já nasceram cá. Eles não viveram as dificuldades que nós vivemos, mas vêm à festa com a mesma alegria. Para eles, é uma forma de conhecerem a cultura dos pais e avós. Vejo-os a rir, a comer sardinha, a ouvir a música. É diferente, mas o espírito é o mesmo: o de celebrar o que é nosso. E isso enche-me o coração de orgulho.
Maria Silva, 62 anos, emigrante há 40 anos: “Para mim, o S. João em Payerne é como voltar a casa. Sinto o cheiro da sardinha, ouço a nossa música e vejo os meus netos a dançar o vira. É uma forma de matar saudades e de lhes mostrar de onde viemos. É a nossa Portugal aqui na Suíça.”
Carlos Mendes, 45 anos
Carlos, como luso-descendente, qual a sua ligação à Festa de S. João em Payerne?
A Festa de S. João é parte da minha identidade. Nasci aqui na Suíça, mas os meus pais sempre fizeram questão de nos incutir a cultura portuguesa. Cresci a vir a esta festa, primeiro com os meus pais, depois com os amigos, e agora trago os meus filhos. É uma tradição que passa de geração em geração.
Participa ativamente na organização ou em alguma atividade?
Sim, este ano ajudei na montagem das bancas e na distribuição da sardinha. O Centro Português de Payerne é como uma segunda casa para muitos de nós. É importante que a segunda e terceira gerações se envolvam para que a festa continue a crescer. As marchas populares, por exemplo, são um momento alto. Ver os miúdos e os jovens a ensaiar e a apresentar-se com tanto empenho é inspirador. É a prova de que a nossa cultura tem futuro aqui.
O que mais o atrai nesta celebração?
A união. É incrível ver milhares de portugueses e até suíços e outras nacionalidades a celebrar juntos. A gastronomia é fantástica – a sardinha, claro, mas também as bifanas, porco assado, os robalos e as lulas que o Centro oferece. E a música, as concertinas, os ranchos folclóricos…. É um ambiente de alegria contagiante que nos faz sentir em Portugal, mesmo estando na Suíça. É um orgulho enorme fazer parte disto.
João Santos, 35 anos, filho de emigrantes: “Cresci aqui na Suíça, mas os meus pais sempre fizeram questão de nos trazer ao S. João. É importante para mim e para os meus filhos saberem as nossas raízes. O Centro Português é a nossa segunda casa, e esta festa é a prova de que a nossa cultura está viva e forte.
Sofia Pereira, 17 anos
Sofia, como jovem, o que a traz à Festa de S. João em Payerne?
Venho cá desde que me lembro! Os meus avós e os meus pais sempre vieram, e para mim é um evento super divertido. Encontro os meus amigos, conheço gente nova e é uma oportunidade de estar com a minha família alargada.
Sente uma ligação especial à cultura portuguesa através da festa?
Sim, com certeza. Embora tenha nascido e crescido na Suíça, sinto-me muito portuguesa. A festa ajuda-me a manter essa ligação. Adoro a música, especialmente quando os grupos de bombos tocam, e a comida é incrível. A sardinha assada é a minha favorita! Também gosto de ver as marchas, é muito giro ver o empenho de todos.
Acha que a festa consegue atrair os jovens da sua idade?
Acho que sim. Muitos dos meus amigos, mesmo os que não são portugueses, vêm cá e adoram. É uma festa diferente, com muita energia e boa disposição. É importante para nós, jovens, não esquecermos de onde vimos e mantermos as nossas tradições vivas. É uma forma de mostrar o nosso orgulho em ser portugueses, mesmo vivendo noutro país. É a nossa maneira de dizer: “Somos portugueses e estamos aqui!”
Ana Pereira, 23 anos, estudante universitária: “Venho todos os anos com os meus amigos. É incrível ver tanta gente junta, a celebrar a nossa cultura. Sinto um orgulho enorme em ser portuguesa e em fazer parte desta comunidade. É um momento de união e de partilha que não troco por nada.”
A Festa de S. João em Payerne é muito mais do que um evento festivo; é um poderoso instrumento de coesão social e de preservação cultural. Num contexto de emigração, onde o risco de assimilação cultural é uma realidade, estas celebrações assumem uma importância vital na manutenção da identidade portuguesa. Através da música, da dança, da gastronomia e da língua, as novas gerações de lusodescendentes são expostas e integradas nas tradições dos seus antepassados, garantindo a continuidade do legado cultural português em terras suíças. A festa reforça o sentimento de pertença, combate a solidão e promove a entreajuda, elementos essenciais para o bem-estar de uma comunidade emigrada.
A Festa de S. João em Payerne é um exemplo notável de como uma comunidade emigrada pode não só sobreviver, mas prosperar culturalmente, mantendo vivas as suas tradições e fortalecendo os seus laços. É uma celebração que honra o passado, vive o presente e constrói o futuro da comunidade portuguesa na Suíça, garantindo que a chama lusa continue a brilhar intensamente em terras helvéticas. Este evento anual é um testemunho da riqueza cultural de Portugal e da dedicação de uma comunidade que, apesar da distância, nunca esquece as suas raízes.
Estão de parabéns, uma vez mais, todas as pessoas que contribuíram para que o evento se realizasse e o sucesso que obteve só e possível graças às mulheres, aos homens e adolescentes que se disponibilizaram a estrarem presentes e a participarem de mais uma grande manifestação da portugalidade por terras helvéticas.
Ilídio Morgado





