Podia ser um filme, tal é a dinâmica do espectáculo, mas trata-se de teatro, teatro de revista onde os diferentes cenários se vão encaixando e transformando a uma velocidade alucinante.
Sem tempos “mortos”, as actrizes e actores assumem personagens umas atrás de outras como se fosse a coisa mais natural do mundo e onde o trabalho escondido não aparece, a preparação, a mudança de cenários, os meses de ensaios.
Fomos assistir ao espectáculo “Revue et non Corrigée”, ex-libris da cultura satírica genebrina sobre a vida política da cidade, do cantão e do país, assim como um olhar crítico sobre as actualidades internacionais.
Susana Plácido, portuguesa dos sete costados, oriunda de Tomar, assume, uma vez mais, o papel de inúmeras personagens e igualmente a produção e guião de alguns dos cenários em cena. Presença conhecida do meio artístico genebrino, a sua versatilidade apresenta-se em diferentes eventos culturais, e não só, na região de Genebra. Ela é uma self made woman, produtora, actriz, promotora de espectáculos e outros eventos, a sua energia contagiante faz dela um furacão que a todos atinge e contagia. Na presente edição do espectáculo, a presenção de personagens portugueses é mais acentuada, na proporção da importância da comunidade na sociedade genebrina. Em sátiras plenas de humor positivo e de crítica social construtiva, a alma lusa está bem identificada e as gargalhadas que recebe são reflexo da simbologia identitária das mais valias que a presença dos portugueses trouxe e traz ao dia a dia da vida mundana em Genebra e, consequentemente, na Suíça.
Se as revisões de fim de ano são frequentemente marcadas por notícias políticas, a dos Vieux Granadeiros prefere um equilíbrio entre a sátira social e a política. “Variamos os assuntos, com ligeira preferência por temas sociais e músicas parodiadas”. Este ano, o fio condutor é “A Derrota dos Vizinhos”, uma visão desagradável do famoso Dia do Vizinho, que muitas vezes se transforma em brigas em vez de convívio.
Ao contrário de outras revistas mais institucionais, La Revue reivindica total liberdade de tom. “Não temos especificações, podemos dizer o que quisermos, desde que seja engraçado”. Longe da autocensura, a equipe joga a carta da irreverência e da insolência, o que atrai um público cada vez maior.
Outra particularidade desta revista: apenas cinco actores em palco, o que impõe uma dinâmica sustentada. “Ao contrário de um espetáculo clássico onde os figurinos mudam no intervalo, aqui mudamos a cada sketch”, o esforço da equipa é monumental, num espaço exíguo fazemos milagres. Graças a truques de encenação e mudanças de cenário em tempo recorde, o ritmo é frenético, para surpresa dos espectadores.
A redação da revista é um esforço coletivo, combinando improvisações e adaptações a partir da atualidade. “Este ano integramos mais os atores na escrita”, indica Susana. Até o último momento, os sketchs evoluem de acordo com as descobertas da equipa e a atualidade que possam enriquecer o espetáculo.
“Sucesso crescente, nas nossas ambições futuras está, com base no crescente sucesso, e esperamos poder mudar em breve para uma sala maior porque as sucessivas sessões esgotadas e os pedidos aos quais não conseguimos responder nos levam a projetar um espaço maior para o nosso público”.
Revista, sátira, gargalhadas garantidas!
Com apresentações todas as quartas, sextas e sábados até 22 de março, além de matinês especiais, principalmente para idosos, o espetáculo já tem várias datas completas e espera pela vossa visita, Apareçam! Com base no seu crescente sucesso, a equipe espera poder mudar em breve para uma sala maior.
Ilídio Morgado