Nivalda Still conhece a realidade migratória na Suíça a partir de duas perspetivas que se cruzam no seu percurso: a experiência de quem chegou ao país em 2004 e a atividade profissional desenvolvida hoje na sede nacional do “Unia”, onde trabalha como secretária sindical especialista em migração, com particular atenção à comunidade portuguesa no país helvético.
O “Unia” é o maior sindicato da Suíça e representa trabalhadores de setores como construção, indústria, comércio e serviços, intervindo também na negociação de convenções coletivas de trabalho e na defesa das condições laborais. No exercício das suas funções, Nivalda Still acompanha as estruturas regionais do sindicato, participa no diálogo com parceiros sociais e trabalha dossiers relacionados com racismo, reconhecimento de diplomas estrangeiros e legislação sobre integração. É ainda delegada para a área da migração junto da SGB, a maior organização sindical de cúpula do país, que reúne, atualmente, 20 sindicatos.
Nascida em Moçambique, criada em Portugal e com passagem profissional pelo Canadá antes de se estabelecer em Luzern, Nivalda Still construiu na Suíça um percurso ligado à tradução e mediação intercultural, até chegar à intervenção sindical. A relação com a comunidade portuguesa ocupa parte do seu trabalho, através da produção de conteúdos em português para o jornal online “Horizonte”, da realização de seminários para membros e ativistas do “Unia” e da participação no Conselho Consultivo da Embaixada de Portugal em Berna. Em entrevista ao Gazeta Lusófona, aborda também a identidade de quem constrói a vida entre dois países e resume uma realidade que acompanha há mais de duas décadas: “O coração do imigrante português vive dividido: o coração permanece em Portugal, mas tudo o resto está aqui”. Uma experiência que, no seu caso, transformou a migração num campo de intervenção profissional, com uma orientação definida: “O meu trabalho tem de ter um sentido. Tem de servir para ajudar o próximo”.
O que faz atualmente no Unia?
Atualmente, trabalho na sede nacional do “Unia” (organização multisetorial que representa trabalhadores da construção civil, da indústria, do comércio e do setor privado de serviços na Suíça) como secretária sindical especialista em migração, com um foco particular na comunidade portuguesa na Suíça. Acompanho e aconselho as regiões do “Unia” nos meus dossiers e participo no trabalho com parceiros sociais e outras organizações sempre que os temas o justificam. Entre as áreas que acompanho estão, entre outras, o racismo, o reconhecimento de diplomas estrangeiros e a legislação relativa à integração de estrangeiros. Sou também delegada do SGB (maior central sindical da Suíça) para a área da migração. Uma parte importante do meu trabalho é a ligação à comunidade portuguesa. Escrevo os conteúdos em português para o Horizonte, o jornal on-line do “Unia”, procurando que a comunidade portuguesa tenha acesso não apenas à informação nacional, mas também a temas que dizem diretamente respeito à nossa diáspora. Ministro também dois seminários anuais em língua portuguesa para membros ativistas do “Unia”. São encontros de dois dias e, normalmente, esgotam rapidamente. O feedback é muito positivo e confesso que adoro ministrá-los. Tenho ainda colaboração com a Embaixada de Portugal em Berna enquanto membro do Conselho Consultivo da Embaixada e tenho participado em iniciativas conjuntas dirigidas à comunidade portuguesa.
Como e por que foi viver para a Suíça?
Dizem que o amor faz o mundo girar. No meu caso, foi literalmente o amor que me trouxe para a Suíça. Antes de vir para cá, a minha vida estava em Toronto, Canadá. Tinha construído a minha carreira em Arquitetura de Interiores, trabalhava como independente, tinha o meu apartamento, a minha vida social e uma vida profissional organizada e bem-sucedida. O grande amor da minha vida, o pai do meu filho, vivia em Luzern. Escolher entre continuar a vida que tinha construído em Toronto ou começar uma nova vida na Suíça não foi uma decisão fácil. Demorei cerca de um ano a decidir. A viagem definitiva para Luzern aconteceu no dia 27 de setembro de 2004. Nunca me vou esquecer dessa data. Na altura, o meu companheiro tinha um negócio, que mais tarde expandimos. Trabalhávamos muito e fomos construindo a nossa vida aqui. O início em Luzern foi difícil. A língua foi uma barreira importante e senti também muitas ideias preconcebidas relativamente a uma mulher jovem, estrangeira e pertencente a uma minoria étnica. Com o tempo, amadureci. Hoje, já não sinto que tenha de dar explicações a ninguém. Ou me aceitam como sou ou podem simplesmente olhar para o lado. Não me incomoda.
Como é a sua vida na Suíça?
Vivo em Luzern e é aqui que faço a minha vida normal, como qualquer pessoa que vive neste país. O meu filho nasceu aqui e Luzern tornou-se a nossa casa. Depois de Lisboa, nunca vivi tanto tempo no mesmo lugar. Costumo até dizer que, depois de Lisboa, Luzern é a cidade mais bonita do mundo. Talvez tenha alguma influência o facto de o meu filho ter nascido aqui – e as duas cidades começarem pela letra “L”. Eu não me vejo como uma migrante. Vejo-me como uma pessoa que se estabeleceu na Suíça para viver a sua vida. Mas existe uma diferença entre a forma como eu me vejo e a forma como a sociedade suíça me vê: para a Suíça, continuo a ser uma migrante. Não penso em mim como alguém que está aqui temporariamente, à espera do dia em que regressará definitivamente. Eu estabeleci-me na Suíça. Não estou aqui de passagem.
Como vê a comunidade portuguesa e a vida entre Portugal e a Suíça?
Grande parte do meu contacto com a comunidade portuguesa acontece através do trabalho, mas a comunidade portuguesa não é para mim apenas uma realidade profissional. Faço compras em lojas portuguesas, frequento restaurantes portugueses e encontro portugueses no meu dia a dia. Vou a Portugal pelo menos uma vez por ano. E uma das coisas que simplesmente adoro fazer quando chego em solo luso é ligar o rádio e ouvir as músicas que sempre ouvi e poder cantá-las todas na minha língua. Gosto de entrar numa loja e ver tudo escrito em português, abrir um menu e escolher em português, e não ter de pensar em que língua vou falar quando encontro alguém conhecido. Adoro falar português. Adoro ouvir português. Portugal é a minha casa, as minhas raízes, a minha língua e a minha cultura. Tenho um carinho enorme pelo país e muito orgulho em dizer que sou portuguesa.
Quais são as diferenças entre Portugal e a Suíça?
Costumo dizer, meio a brincar e meio a sério, que em Portugal vive-se e, na Suíça, sobrevive-se. Não significa que considere a vida na Suíça pior. São formas diferentes de viver. Em Portugal sinto uma cultura mais espontânea, mais próxima e calorosa. O clima também ajuda. Na Suíça valorizo a organização, a estabilidade e a previsibilidade. Não acho que uma seja necessariamente melhor do que a outra. Aprendi a viver com as duas culturas.
Pensa voltar a viver em Portugal?
É uma possibilidade que considero. Se um dia voltar a viver em Portugal, penso que será no Norte. Talvez os mais de 20 anos que vivi na Suíça também tenham influência nessa escolha. O Norte representa uma parte muito profunda da minha infância e das minhas memórias. Mas ainda não faço planos definitivos. Tanta coisa pode mudar num ano, quanto mais em dez. E há uma ironia que acho curiosa: descobri, entretanto, que existe uma população de suíços que escolheu precisamente o “meu” local favorito no Norte de Portugal para se estabelecer. É justamente a região onde imagino que poderia viver se um dia regressasse. Talvez a migração tenha destas coisas: às vezes passamos a vida a atravessar as mesmas fronteiras em sentidos diferentes.
O que espera do futuro?
Espero, acima de tudo, continuar a ter saúde. Espero que o meu filho encontre o seu próprio caminho e quero estar aqui sempre que ele precisar de mim. Quero continuar a aprender, a ser desafiada de uma forma interessante e a contribuir para tornar este mundo um lugar um pouco melhor. Um dia de cada vez, uma pessoa de cada vez. Para mim, o meu trabalho tem de ter um sentido. Tem de servir para ajudar o próximo. Caso contrário, não seria interessante para mim.
Na sua opinião, como vive o coração do português na Suíça?
O coração do imigrante português vive dividido: o coração permanece em Portugal, mas tudo o resto está aqui. Para a primeira geração, o sonho do regresso é muitas vezes muito presente. Depois passam 10, 20 ou 30 anos. Os filhos nascem aqui, constroem aqui as suas vidas, e a ideia de “voltar para casa” torna-se mais complexa. Portugal continua a ser casa, mas a Suíça também passa a fazer parte de nós. Talvez essa seja uma das características de quem vive entre dois países: aprender que se pode ter mais do que uma casa.
Por fim, quem é Nivalda Still?
Tenho 55 anos. Nasci em Moçambique e saí de lá aos cinco anos de idade. Cresci em Portugal, em Lisboa, mas tenho uma ligação muito forte ao Norte do país. A minha família está dividida entre Lisboa e a Póvoa de Varzim, no distrito do Porto. Passei grande parte da minha infância no Norte de Portugal e, embora Lisboa seja a minha cidade, o Norte é para mim uma espécie de segunda casa. Muitas das minhas memórias de infância, até aos 15 ou 16 anos, estão mais ligadas ao Norte do que a Lisboa. Vivo com o Gonçalo, o meu filho, que acabou de fazer 18 anos, e com a Ino, a nossa pinscher, que faz parte da família desde os dois meses de idade. A Ino cresceu connosco e, naturalmente, já não imaginamos a nossa família sem ela. O Gonçalo nasceu em Luzern e aqui sente-se em casa. Está atualmente a fazer uma formação profissional como chefe de cozinha no Hotel Schweizerhof, em Luzern. E sim, sou uma mãe “galinha” – assumidamente. Estudei Arquitetura de Interiores em Toronto, no Canadá, e comecei a trabalhar na área aos 29 anos. Trabalhei como profissional independente, sobretudo como freelancer para empresas de maior dimensão, e a minha profissão levou-me também a viajar bastante por toda a América do Norte. Gostava muito do que fazia e continuo a sentir que o desenho de interiores é algo muito intuitivo para mim. Um espaço extraordinário não é necessariamente aquele que chama a atenção. É aquele que nos faz sentir alguma coisa quando entramos. O interior deve complementar a estrutura do espaço e, de alguma forma, contar uma história. Quando vim para a Suíça, em 2004, não consegui continuar imediatamente nessa profissão, mas continuei a coordenar alguns projetos on-line. A língua foi uma das principais barreiras e também havia diferenças nos conhecimentos e usos técnicos no mercado suíço. Comecei então a aprofundar as minhas competências linguísticas e trabalhei como tradutora intercultural, nomeadamente para a Caritas e, também, de forma independente, para casas de abrigo para mulheres e serviços de apoio às vítimas. Com o tempo, percebi que não queria apenas traduzir, mas que gostaria de intervir na discussão. Compreendi que muitos problemas surgem devido às diferenças culturais. O meu objetivo passou a ser não só traduzir de forma imparcial ou literal, mas dar voz, da forma mais fiel possível, a quem não a tinha. Foi isso que me levou ao estudo da mediação intercultural e, mais tarde, a outros três “CAS”, todos ligados à área da migração e da interculturalidade. A entrada no “Unia” aconteceu quase por coincidência. Comecei por trabalhar muito ligada à comunidade portuguesa e ao grupo de interesse das mulheres. A migração, no entanto, sempre foi o meu principal foco e, em 2024, surgiu a oportunidade de passar para a sede nacional do sindicato.
Ígor Lopes





