Aos seis anos, José Pedro Galvão descobriu a música na Sociedade Filarmónica Recreativa e Beneficente Vilanovense. Dois anos depois, encontrava no eufónio o instrumento que moldaria o seu percurso artístico, orientado pelo professor Simão Santos.
O que começou como um impulso infantil tornou-se, ao longo da última década, numa carreira em afirmação no panorama nacional e internacional.
Em 2012 ingressou no Conservatório de Música de Coimbra, onde estudou com Mauro Simões, Luís Gomes e Nuno Costa, tendo Luís Oliveira como professor de música de câmara. A evolução constante levou o, em 2021, à Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE), no Porto, onde integrou a classe de Ricardo Antão e concluiu a licenciatura em 2024.
Atualmente, prossegue formação avançada na Hochschule der Künste Bern, na Suíça, onde frequenta o segundo ano do mestrado em performance sob a orientação de Thomas Rüedi, uma das referências mundiais do eufónio.
Ao longo do seu percurso, Galvão participou em masterclasses com alguns dos mais reconhecidos nomes internacionais, entre os quais Thomas Rüedi, Jukka Myllys, Anthony Caillet, Sérgio Carolino, Daniel Perantoni, Ricardo Carvalhoso, Juanjo Munera e Gil Gonçalves. Esta exposição a diferentes escolas e abordagens consolidou a maturidade interpretativa que hoje o distingue.
A carreira competitiva tem sido igualmente marcante. Em 2019 conquistou o 2.º prémio no escalão júnior do Concurso Internacional de Instrumentos de Sopro de Oliveira de Azeméis, regressando em 2023 para vencer o 1.º prémio no escalão sénior, arrecadando ainda o prémio absoluto. Em 2024 alcançou o 2.º prémio no nível superior, categoria Eufónio/Tuba, no prestigiado Prémio Jovens Músicos – RTP/Antena 2. A edição teve um significado especial: foi a primeira vez que o concurso integrou o eufónio, e José Pedro Galvão tornou-se o primeiro eufonista finalista e premiado na história da competição.
Além da atividade competitiva, tem desenvolvido trabalho pedagógico, orientando em dezembro de 2024 uma masterclasse no Conservatório de Música de Coimbra, integrada na V Jornada de Tuba da EACMC.
A sua presença em palco tem sido constante. Apresentou se em recitais a solo no Conservatório de Música de Coimbra em 2023 e 2024, e tem colaborado com orquestra em diferentes contextos. Em agosto de 2025 participou no Festival Gravíssimo!, onde estreou um arranjo da sua autoria, Fado Avé Marias, inspirado na tradição musical de Vila Nova de Anços, a sua terra natal. No mês seguinte foi solista convidado do X Estágio para Orquestra da Associação de Estudantes do Conservatório de Música de Coimbra, interpretando o Concerto para Eufónio de Vladimir Cosma com orquestra sinfónica.
Percurso de ambição
Com um percurso marcado por rigor, consistência e ambição, José Pedro Galvão afirma se como uma das vozes emergentes do eufónio em Portugal, integrando uma geração que começa a projetar o instrumento para novos espaços de reconhecimento artístico.
Mestrado na Suíça
Em conversa com o Gazeta Lusófona José Pedro Galvão explica que a escolha da Suíça para o mestrado surgiu da vontade de estudar com Thomas Rüedi, uma das suas maiores referências internacionais no eufónio. Desde cedo teve professores que marcaram o seu percurso, primeiro no Conservatório de Música de Coimbra, onde trabalhou com Mauro Simões, Luís Gomes, Nuno Costa e Luís Oliveira, e mais tarde na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo, para onde ingressou especificamente para estudar com Ricardo Antão. Este, por sua vez, foi o primeiro aluno português de Thomas Rüedi e incentivou-o a prosseguir estudos com o mestre suíço. Assim, a decisão de ir para Bern foi motivada pelo desejo de “beber diretamente à fonte” e conviver com um artista que sempre admirou. Até agora, afirma, a experiência tem sido incrível e sem arrependimentos.
Prémio Jovens Músicos – RTP/Antena 2
Sobre o Prémio Jovens Músicos – RTP/Antena 2, onde se tornou o primeiro eufonista finalista e premiado, considera o momento marcante tanto para si como para o instrumento. Em 2024, pela primeira vez, o eufónio pôde concorrer, ainda que integrado na categoria da tuba. A primeira fase foi anónima e por gravação; na segunda, já na Casa da Música, passaram quatro eufonistas e quatro tubistas. Recorda o ambiente de camaradagem e o apoio entre colegas, e o orgulho que sentiu ao perceber que representava uma comunidade inteira. Apesar de não ter alcançado o primeiro prémio, considera o percurso extremamente positivo e deseja que no futuro exista uma categoria própria para o eufónio.
Quanto ao papel dos concursos, reconhece que podem ser importantes no percurso de um estudante, mas também acarretam riscos emocionais. Defende que é essencial estar preparado para qualquer resultado e que o mais valioso é o processo de preparação e as aprendizagens que ficam. Para si, um bom resultado é uma confirmação do trabalho realizado, mas não uma garantia de carreira.
Questionado sobre as várias dimensões da sua atividade, solista, professor, músico de orquestra e participante em masterclasses, afirma que todas lhe dão prazer, embora de formas diferentes. Ensina desde muito novo e acredita que o ensino também o faz crescer enquanto instrumentista. No entanto, admite que, se tivesse de escolher, preferiria tocar a solo para o resto da vida, pois é nesse contexto que sente transmitir mais emoção.
Desafio de viver na Suíça
Viver na Suíça tem sido desafiante, sobretudo para um estudante dependente dos pais, devido ao elevado custo de vida. A distância de casa pesa, mas tudo ganha sentido quando entra na sala de aula para trabalhar com Thomas Rüedi. Destaca também o privilégio de conviver diariamente com músicos de renome, como o trombonista Ian Bousfield, com quem estuda trombone como instrumento paralelo. Considera que as condições de estudo e as oportunidades na Suíça estão “uns furos acima” das portuguesas, essencialmente por uma questão de capital.
Valorização do músico na Suíça e em Portugal
Comparando os ambientes musicais dos dois países, afirma que o músico é muito mais valorizado na Suíça, onde existem mais oportunidades de trabalho e melhor remuneradas. Reconhece a elevada qualidade do ensino português, apesar das limitações estruturais, e considera que em Portugal muitas vezes se “fazem omeletes sem ovos”. Na Suíça, diz, tudo funciona melhor: há mais orquestras, mais proximidade entre instituições e mais incentivos para os estudantes assistirem a concertos.
Objetivos para o futuro
Quanto aos objetivos a curto e médio prazo, pretende concluir o mestrado em performance e construir um início de carreira sólido. Quer continuar a desenvolver a composição e os arranjos, como demonstrou com a rapsódia Lusofonia, oferecida à Sociedade Filarmónica Recreativa e Beneficente Vilanovense no seu 148.º aniversário.
Deseja manter uma carreira versátil, conciliando performance, escrita e, eventualmente, pedagogia, já que um mestrado nessa área não está fora dos planos. Sobre regressar a Portugal, mantém a possibilidade em aberto.
Adélio Amaro





