Genebra acolheu, no dia 13 de junho, o 3.º Fórum dos Portugueses da Suíça (FAPS), uma iniciativa que reuniu dezenas de participantes na Sala de Plainpalais e que marcou mais um momento significativo na afirmação da comunidade portuguesa na Suíça.
Organizado pela FAPS, com a presidência de António Cunha, mentor deste brilhante projeto, e transmissão em direto através da Rádio Arremesso que, também, assegurou as questões técnicas do Fórum que se consolidou como um espaço de reflexão e celebração da presença portuguesa na Suíça, afirmando de forma clara a importância da participação cívica para o futuro da comunidade. A edição deste ano reforçou a maturidade de um projeto que, ao longo das suas três edições, tem vindo a criar pontes entre gerações, instituições e sensibilidades diversas, promovendo um diálogo estruturado sobre o papel dos portugueses na sociedade suíça contemporânea.
O encontro, que decorreu entre as 9h e às 24h, combinou debate, participação juvenil e celebração cultural, num programa contínuo que mobilizou associações, famílias, estudantes, investigadores, representantes políticos e membros da diáspora. A diversidade das atividades, do Parlamento dos Jovens à Mesa-redonda, passando pelo sarau musical, evidenciou a vitalidade da comunidade portuguesa e a sua crescente presença na vida cívica e social na Suíça.
Criado em 2022, em Renens, o Fórum afirmou-se desde a primeira edição como um espaço de diálogo sobre a relação entre os portugueses residentes na Suíça, a sociedade de acolhimento e as instituições dos dois Estados. A sua evolução temática reflete também a evolução da própria comunidade: depois de ter debatido a identidade portuguesa (2022) e os valores da Revolução dos Cravos (2024), a edição de 2026 centrou-se nos desafios da participação cívica, tema que ganhou relevância após o processo de reconhecimento simbólico da comunidade portuguesa.
Esse reconhecimento não surgiu do acaso. Durante décadas, os portugueses contribuíram decisivamente para o desenvolvimento económico da Suíça, integrando setores essenciais da economia cantonal e participando ativamente na construção social do território. O Fórum procurou agora discutir a evolução desse reconhecimento, de uma comunidade valorizada pelo trabalho para uma comunidade valorizada pela sua voz cidadã. A questão central, como transformar reconhecimento simbólico em participação efetiva, atravessou os debates e foi retomada por vários intervenientes ao longo da jornada.
Ao colocar a participação cívica no centro da discussão, o Fórum sublinhou que a integração plena não se esgota na dimensão laboral ou cultural, mas exige também o exercício ativo dos direitos democráticos, a presença nos espaços de decisão e a capacidade de influenciar políticas públicas. A edição de Genebra tornou-se, assim, um marco na reflexão sobre o papel da comunidade portuguesa no Cantão, reforçando a ideia de que o futuro da diáspora passa pela sua afirmação enquanto comunidade com voz, direitos e responsabilidades na vida coletiva.
O encontro integrou também o projeto “Notre História”, promovido pelo Bureau de l’Intégration et de la Citoyenneté, que apresentou uma exposição dedicada ao contributo histórico, social e cultural dos portugueses para o desenvolvimento da Suíça, através de fotografias, testemunhos, documentos e painéis informativos que apresentaram um percurso que contextualizou o reconhecimento simbólico da comunidade portuguesa.
Ao longo do dia, o Fórum combinou reflexão, debate e celebração cultural, reforçando a ideia de que a participação cívica é hoje um dos pilares essenciais para o futuro da comunidade. A presença de representantes institucionais suíços e portugueses, bem como de associações, professores, jovens e membros da diáspora, evidenciou a vitalidade de um encontro que procurou não apenas celebrar a identidade portuguesa, mas também incentivar uma cidadania ativa e informada.
A articulação entre o Fórum e o projeto “Notre História” conferiu ao evento uma dimensão adicional: a de inscrever a experiência portuguesa na narrativa coletiva. A exposição funcionou como ponto de encontro entre memória e futuro, permitindo que os participantes reconhecessem o percurso da comunidade e refletissem sobre os desafios que se colocam à sua plena integração cívica.
Juventude em destaque
A manhã do Fórum foi marcada pelo 2.º Parlamento dos Jovens Portugueses na Suíça, um dos momentos mais participativos e simbólicos da jornada. A iniciativa reuniu professores e alunos dos diferentes ciclos de ensino, transformando a Sala de Plainpalais num verdadeiro laboratório democrático, onde os mais novos puderam experimentar, de forma prática, o funcionamento das instituições e os mecanismos de decisão coletiva.
A sessão replicou com rigor o modelo parlamentar com apresentação de propostas, defesa de argumentos, debate e votação. Este exercício, cuidadosamente preparado pelas equipas docentes, permitiu aos jovens compreenderem não apenas a estrutura formal de um parlamento, mas também a importância da escuta, da negociação e da responsabilidade na construção de medidas que pretendem responder a problemas reais.
O tema escolhido para esta edição, “Os jovens e as redes sociais: oportunidades e riscos”, revelou-se particularmente pertinente. Num contexto em que as plataformas digitais moldam comportamentos, relações e formas de participação, os alunos trouxeram para o debate experiências pessoais, preocupações e propostas concretas. As intervenções foram vivas, fundamentadas e, por vezes, surpreendentes pela maturidade demonstrada.
Para muitos dos alunos participantes, esta foi a primeira oportunidade de falar num espaço público, perante uma plateia atenta, exercendo uma cidadania ativa que ultrapassa os limites da sala de aula. Professores e organizadores destacaram o envolvimento dos jovens e a qualidade das propostas apresentadas, sublinhando que o Parlamento não é apenas uma atividade pedagógica, mas um instrumento de formação cívica que contribui para aproximar as novas gerações das instituições democráticas.
Debate sobre cidadania ativa
A tarde do 3.º Fórum dos Portugueses da Suíça foi marcada pela realização de uma mesa-redonda sobre cidadania ativa, moderada por Adélio Amaro, diretor do jornal Gazeta Lusófona. O debate reuniu investigadores, sindicalistas, eleitos, associativistas e membros da comunidade, num painel plural que procurou analisar, a partir de diferentes perspetivas, os caminhos possíveis para reforçar a participação cívica dos portugueses na Suíça.
Ao longo de quase duas horas, os intervenientes discutiram o papel da comunidade portuguesa na vida pública helvética, destacando avanços, desafios e oportunidades. A conversa evidenciou que, apesar de a presença portuguesa ter ganho maior visibilidade nos últimos anos, persistem obstáculos à mobilização, ao acesso aos mecanismos de decisão e ao exercício pleno dos direitos democráticos.
A mesa-redonda contou com a participação de Laura Galhano (socióloga), Marta Carvalhal (documentalista), Pâmela Cabreira (historiadora), Ivane Domingues (associativista), Yvone Ribeiro (FAPS), António Guerra (Conselheiro das Comunidades), Miguel Limpo (ex-eleito comunal e cantonal), Gabriel Gomes (ator) e Catarina Freitas (representante do Parlamento dos Jovens).
Cada intervenção trouxe uma leitura própria sobre o que significa participar civicamente na Suíça e sobre o papel que a comunidade portuguesa pode desempenhar nas esferas económica, cultural, associativa, social e política.
A socióloga Laura Galhano sublinhou que os portugueses têm desempenhado um papel fundamental ao viverem em comunidade, criando redes de apoio e espaços de pertença que fortalecem a coesão social. Para Marta Carvalhal, as bibliotecas, enquanto espaços de conhecimento e encontro, devem funcionar como pontes entre Portugal e a diáspora, promovendo literacia, cultura e diálogo intercultural.
A historiadora Pâmela Cabreira reforçou que ser cidadão não se limita ao ato de votar, envolve ações quotidianas, pensamento crítico e participação ativa. “Tudo é política”, afirmou, lembrando que a cidadania se exerce também nas pequenas decisões e na forma como cada pessoa se relaciona com o coletivo.
Da parte da FAPS, Yvone Ribeiro destacou o trabalho da Federação na valorização do associativismo, sensibilizando a comunidade para a importância de participar e de se reconhecer como parte integrante da sociedade suíça. O associativista Ivane Domingues acrescentou que as associações devem repensar as suas atividades face aos modelos de financiamento e aos apoios disponíveis, adaptando-se às novas realidades sociais.
O conselheiro das comunidades António Guerra foi direto ao afirmar que os portugueses precisam de ser mais ativos, defender as suas ideias e ocupar os espaços de decisão, tanto nas instituições portuguesas como nas suíças. Já Miguel Limpo, com experiência enquanto eleito comunal e cantonal, lembrou que um partido político funciona, em muitos aspetos, como uma associação e que uma das suas prioridades, enquanto eleito, foi promover a introdução da língua portuguesa.
O ator Gabriel Gomes trouxe ao debate a dimensão cultural, refletindo sobre as medidas de incentivo à cultura e sobre as dificuldades que artistas e agentes culturais enfrentam para aceder a apoios e oportunidades. A jovem estudante Catarina Freitas, representante do Parlamento dos Jovens Portugueses na Suíça, sintetizou de forma simbólica a experiência das novas gerações na diáspora. Usou uma metáfora dizendo que não é “de nenhum dos dois países, mas é dos dois”, sublinhando que o que transforma cada pessoa é o pensamento crítico e a capacidade de construir pontes entre identidades.
Cultura musical lusófona
Após a mesa-redonda o evento contou com um sarau musical que se prolongou até às 24 horas, transformando a Sala de Plainpalais num espaço de convívio intercultural. Danças do Minho, Fado de Coimbra e de Lisboa, música cabo-verdiana, portuguesa e brasileira cruzaram-se num ambiente informal e acolhedor.
Assim, este sarau iniciou com um momento poético e transição musical. Cristina Vaz apresentou no palco a magia da poesia e o coro de professores abrilhantaram o momento com cantares tradicionais, seguindo as atuações do Grupo Folclórico “Danças e Cantares do Minho” e da Tuna Helvética.
A animação musical e cultural continuou com música de Cabo Verde através de Magda Varela & Carlo Kwane, Francisco Costa com fado de Coimbra, Sofia Mendes com fado de Lisboa, Ricky & Sam, Grupo Musical Nélio Real e muita música latina, bossa nova, pop internacional, forró, lambada, quizomba e kuduro.
Entidades
Entre as diversas entidades, marcaram presença, neste Fórum, Alphonse Gomez, presidente do município de Genebra, Leonor Esteves, Cônsul-geral de Portugal em Genebra, e Júlio Vilela, embaixador de Portugal em Berna, que enalteceu, durante a sua intervenção, o papel das associações, sendo as mesmas “fundamentais para persecução” das atividades e manterem vivas a história e a cultura de Portugal. Júlio Vilela deixou uma segunda palavra para os professores, porque sem eles “os jovens não viriam” ao Fórum, e sem “os jovens os pais muito menos, o que significa que os professores do ensino português na Suíça são entidades essenciais, são instrumentos fundamentais para que a língua portuguesa continue a ser ensinada”, salientou Júlio Vilela que encerrou a sua intervenção dando uma palavra de agradecimento à FAPS e desejando que o “4.º Fórum venha a ser uma realidade”.
Alphonse Gomez também elogiou o evento identificando-o como uma iniciativa importante, facto que se reflete na importância da comunidade portuguesa em Genebra que ajudou a construir a cidade, como esteve refletido na exposição “Notre História”. Terminou a sua intervenção agradecendo à FAPS e toda a sua equipa que contribuiu voluntariamente para o sucesso do 3.º Fórum.
Parcerias e apoios
O Fórum contou com a colaboração da Coordenação do Ensino do Português – Instituto Camões, da Rádio Arremesso, da Associação 25 de Abril, do jornal Gazeta Lusófona e do Rancho Folclórico Amigos do Ribatejo de Genebra. Entre os patrocinadores estiveram o Bureau de l’Intégration et de la Citoyenneté, o Canton de Genève, a Ville de Genève, o Ministério dos Negócios Estrangeiros, o Banco Santander, o Banco Millennium e a Delta AS.
Adélio Amaro





