A criadora portuguesa Sandra Soares, radicada em Genebra, levou a Milão uma coleção concebida a partir de referências da cultura portuguesa, numa experiência que ligou moda e artesanato durante a realização do projeto “Lettres du Monde”.
A participação surgiu através de um convite da estilista Sofia Nose, responsável pela seleção de criadores apresentados no projeto, realizado na cidade italiana entre 23 e 24 de setembro, período coincidente com a “Milano Fashion Week”.
A ligação de Sandra Soares ao projeto começou a partir da experiência de Sofia Nose em Portugal. Durante uma passagem pelo Porto, a estilista encontrou na cidade referências que procurou posteriormente transportar para o conceito de uma Carta de Portugal. O objetivo passou por “encontrar uma criadora capaz de interpretar essa identidade através da moda, sem se limitar à reprodução direta de símbolos nacionais”.
Foi nesse processo que chegou ao trabalho de Sandra Soares. A criadora portuguesa, que vive na Suíça, desenvolve peças através da “Sandra Soares Creations”, com uma componente de confeção manual e atenção aos detalhes. Segundo os elementos disponibilizados sobre o projeto, foram precisamente o método de trabalho, o tempo dedicado à confeção e a relação entre artesanato e moda que estiveram na origem da escolha.
O convite abriu caminho a uma viagem criativa entre Portugal, Genebra e Milão. Para representar o país, Sandra Soares desenvolveu quatro vestidos inspirados em três referências da cultura portuguesa: o Galo, o Fado e a Filigrana. Em vez de reproduzir esses elementos, a criadora procurou incorporá-los nas peças através dos materiais, das formas, das cores e do trabalho manual.
Dois dos vestidos receberam a designação “Galo Dourado”. Trabalhados em tons de castanho e dourado, partiram da figura do galo enquanto referência da cultura popular portuguesa. As duas peças apresentam interpretações distintas do mesmo elemento, conjugando a referência tradicional com uma construção pensada para o contexto da moda contemporânea.
Outra das criações recebeu o nome “Fado Dourado”. Neste caso, Sandra Soares procurou transportar para o vestido elementos associados à memória e à dimensão emocional do fado, utilizando a silhueta, os materiais e os detalhes da peça como meios de representação de uma expressão cultural portuguesa que atravessou fronteiras e se tornou uma das referências internacionais do país.
A quarta criação colocou a filigrana no centro do trabalho. No vestido “Coração de Filigrana”, um coração dourado aplicado sobre o branco foi imaginado e bordado à mão. O elemento foi concebido como parte integrante da peça, aproximando técnicas associadas ao artesanato da construção de uma proposta de moda.
A apresentação em Milão tornou-se um ponto de encontro entre o percurso de uma portuguesa emigrada na Suíça e referências culturais do país de origem. A experiência mostrou também como elementos associados ao património e ao artesanato podem ser reinterpretados por criadores que desenvolvem o seu trabalho fora de Portugal.
Para Sandra Soares, a experiência representou ainda uma ligação entre os diferentes territórios que fazem parte do seu percurso. Portugal forneceu as referências culturais. Genebra é o lugar onde desenvolve atualmente o seu trabalho. Milão tornou-se o espaço de apresentação das quatro criações.
A passagem por Milão colocou o trabalho da criadora portuguesa residente na Suíça num contexto internacional e deu visibilidade a uma proposta onde moda e artesanato se cruzam. Galo, Fado e Filigrana deixaram de funcionar apenas como referências culturais e passaram a integrar vestidos concebidos para apresentar uma leitura contemporânea de Portugal.
Entre Portugal, Suíça e Itália, a experiência de Sandra Soares mostra o papel que os criadores portugueses residentes no estrangeiro podem desempenhar na circulação internacional de referências culturais nacionais.
Em Milão, essa ligação materializou-se em quatro vestidos, construídos através do tecido, do bordado e do trabalho manual, levando para a passerelle elementos de uma identidade que a criadora continua a transportar consigo apesar da distância.
Ígor Lopes





