Da diáspora portuguesa ao poder local em Romont. Fisioterapeuta lusa eleita pelo partido “Os Verdes” assume mandato com foco em mobilidade, sustentabilidade e coesão social na comuna suíça.
Natural de Cêtos, no concelho de Castro Daire, em Portugal, Cláudia Santos foi eleita para o Conselho Geral de Romont, na Suíça, integrando uma assembleia composta por 50 membros. Aos 42 anos, fisioterapeuta e proprietária de uma clínica local, onde coordena uma equipa de cinco profissionais, a agora deputada assume um novo papel na vida pública da comuna onde reside desde 2013. A candidatura, apresentada pelo partido ecologista, surge após um percurso de envolvimento em causas locais, com destaque para a mobilidade escolar e o ordenamento do território.
“Há cerca de um mês, aceitei o desafio de me candidatar ao Conselho Geral de Romont”, afirmou Cláudia Santos, sublinhando que a decisão resulta de uma ligação progressiva à comunidade. Com seis eleitos, o partido posiciona-se como uma das principais forças políticas no executivo local, em coligação com o Partido Socialista. Cláudia alcançou o segundo lugar entre os representantes eleitos da sua força política.
A nova integrante do referido Conselho Geral assume como prioridade a concretização de projetos de proximidade, com enfoque em soluções locais para os transportes públicos, eficiência térmica e preservação do território. “Espero poder contribuir para tornar algumas decisões mais sustentáveis e socialmente equitativas”, declarou. Entre as propostas defendidas, destaca-se a criação de um condomínio ecológico junto à estação ferroviária, pensado como eixo estratégico para a mobilidade e dinamização económica da região.
Com raízes em Portugal e vida construída na Suíça, e em entrevista ao Gazeta Lusófona, Cláudia Santos sublinha a dimensão identitária do seu percurso. “Sinto que tenho o coração dividido entre o Douro e os Alpes, mas isso é uma riqueza enorme”, referiu. Esta responsável explicou ainda que “a vivência entre dois territórios, acrescenta, reforça o compromisso com políticas que valorizem a diversidade e respondam aos desafios climáticos com soluções adaptadas à realidade local”.
Acredita que a comunidade portuguesa apoiou a sua candidatura?
Acredito que sim! Romont é uma pequena vila de pouco mais de seis mil habitantes, mas onde as comunidades estrangeiras dominam o panorama social. A portuguesa representa aproximadamente 30% da população e acredito que o bom resultado que obtive nesta eleição se deve, em parte, à minha interação quotidiana com estas comunidades e, sobretudo, com a portuguesa.
Como é a sua interação com a comunidade portuguesa na Suíça?
Dado o meu contexto profissional, tenho contacto permanente com a comunidade portuguesa. O dia a dia é pautado por um “bom dia!” que se repete vezes sem conta no caminho de casa até ao meu local de trabalho, apenas 800 metros à frente. Num meio tão pequeno criam-se sempre laços fortes com os que falam a nossa língua.
Diante deste novo cenário, quais são os próximos passos?
Brevemente acontecerá a cerimónia de tomada de posse para a entrada em funções, que terá lugar na Prefeitura da Glâne, em Romont, no próximo dia 24 de abril.
Em que se compromete a contribuir?
Comprometo-me a reforçar a ecologia política à escala local. O poder de decisão do Conselho Geral permite-nos votar as decisões legislativas em curso. Espero poder contribuir para tornar algumas decisões mais sustentáveis e socialmente equitativas.
Quais são as linhas de ação e o que pretende fazer?
As principais linhas para esta legislatura são o reforço da oferta de habitação na vila, com a criação de condomínios eco-responsáveis e de construção sustentável, assim como a dinamização de espaços públicos exteriores, até aqui deixados ao abandono, através da criação de um “skate park” e de um “pump track”. Estes serão espaços de partilha onde pequenos e grandes poderão usufruir de momentos de lazer, atualmente inexistentes na região. O ordenamento do território também não será esquecido: propomos ligar a zona da estação ferroviária e rodoviária a uma futura zona comercial e industrial através de uma via verde ciclável, livre de automóveis, onde trotinetas, bicicletas e peões poderão circular com total segurança.
Como é viver na Suíça?
A experiência de viver na Suíça tem sido extremamente positiva. É um país que nos proporciona um bem-estar e uma qualidade de vida dificilmente superáveis em qualquer outro lugar.
Como os portugueses são recebidos no país?
Os portugueses gozam de uma excelente reputação além-fronteiras. Somos historicamente reconhecidos como trabalhadores dedicados e honestos, aos quais se junta agora uma geração com uma formação profissional de excelência.
Como a comunidade portuguesa pode “usufruir” dessa sua interação política?
O meu contacto constante com a comunidade permite-me compreender as suas barreiras no acesso à informação institucional. Com a minha eleição, assumo o compromisso de facilitar este processo de integração, utilizando a minha experiência para apoiar e orientar os portugueses em todas as questões ligadas à vida pública em Romont.
Havia mais portugueses em outras listas pelo país?
Sem dúvida. Verificamos uma presença crescente de portugueses em diversas listas por todo o país, o que demonstra que a nossa comunidade está cada vez mais integrada e empenhada em participar ativamente nas decisões locais e na vida política suíça.
Frequenta associações portuguesas?
Infelizmente, frequento menos do que gostaria. Ultimamente, a minha disponibilidade profissional e pessoal tem sido limitada. No entanto, reconheço e valorizo profundamente o papel fundamental que estas associações desempenham na união da nossa comunidade.
Como consegue matar saudades de Portugal?
Mato saudades mantendo Portugal vivo no meu quotidiano: na língua que falo com os meus pacientes, que ensino às minhas filhas e nas visitas regulares a Castro Daire para recarregar energias junto da família.
Qual é o sentimento quando regressa a Portugal de férias?
É um misto de alegria e pertença. Por muito bem que estejamos integrados na Suíça, o regresso a Portugal de férias é onde o coração bate mais forte. É o cheiro da terra, o sabor da nossa comida e aquele calor humano que só nós temos. É o momento de celebrar as conquistas do ano com os que mais amamos, reafirmando as raízes que me dão força para continuar o meu caminho ca fora.
Pensa voltar a viver em Portugal algum dia?
Essa é a pergunta que todos os emigrantes guardam no coração. Atualmente, a minha vida e os meus projetos estão em Romont, onde tenho a minha clínica e agora o compromisso de representar os cidadãos no Conselho Geral. Contudo, Portugal será sempre o meu porto de abrigo e o desejo de um dia regressar às origens está sempre presente, embora sem uma data marcada.
O que a Suíça significa para si?
A Suíça é a minha segunda casa. É o lugar onde construí o meu projeto de vida e onde aprendi a admirar a democracia direta e a proximidade entre os vários atores sociais. Significa segurança, qualidade de vida e a tranquilidade de saber que o esforço é recompensado. Sinto que tenho o coração dividido entre o Douro e os Alpes, mas isso é uma riqueza enorme.
Que imagem tem de Portugal?
Olho para Portugal e vejo um país a duas velocidades. Por um lado, o brilho do turismo nas cidades; por outro, o interior, como a minha região de Castro Daire, que luta contra o esquecimento e o isolamento. A imagem que guardo é a de uma terra que amamos profundamente, mas que nos deixa uma sensação de mágoa por não nos conseguir oferecer a estabilidade que encontrámos aqui na Suíça.
Como e porquê foi viver nesse país?
Mudei-me para a Suíça há 13 anos por uma questão de sobrevivência profissional e ambição pessoal. Hoje, ao olhar para o meu percurso, sei que foi a decisão mais difícil, mas também a mais acertada da minha vida.
Qual a diferença de vida entre Portugal e a Suíça?
Para mim, a grande diferença é o respeito pelo tempo. Na Suíça, existe uma cultura de eficiência que permite separar claramente a vida profissional do pessoal. O rigor helvético reflete-se numa sociedade mais justa e menos caótica. Portugal tem o sol e a gastronomia, mas a Suíça oferece a estrutura e a paz de espírito necessárias para quem quer evoluir. É a diferença entre viver num sistema que nos apoia ou num sistema que, muitas vezes, nos coloca obstáculos.
Estas novas responsabilidades podem sugerir uma integração completa no país?
Sem dúvida. A eleição para um cargo público é o expoente máximo da integração. Quando passamos de residentes a representantes eleitos, deixamos de estar apenas ‘de passagem’ para assumir a responsabilidade de moldar o futuro da comunidade. Ser eleita para o Conselho Geral de Romont, sendo portuguesa, é a prova de que a integração é plena quando existe participação ativa. É um sinal de que a Suíça não é apenas o país onde trabalho, mas sim o país onde exerço a minha cidadania e onde a minha voz tem valor institucional.
Que mensagem deixa para o público eleitor?
A mensagem que deixo é, acima de tudo, de profunda gratidão e responsabilidade. Agradeço a confiança depositada no meu percurso e nas minhas ideias. Estarei presente, atenta e empenhada em transformar as vossas preocupações em ações concretas no Conselho Geral. O meu compromisso é trabalhar para uma vila mais sustentável, mais justa e onde cada cidadão, independentemente da sua origem, sinta que a sua voz é ouvida e respeitada.
Por quanto tempo será o seu mandato?
Este é o início de um caminho de cinco anos que me permitirá uma aprendizagem profunda sobre o funcionamento institucional. Uma candidatura ao Conselho Comunal é uma etapa que não descarto mais tarde. O meu objetivo é, e será sempre, trabalhar onde possa ser mais eficaz na defesa dos valores da sustentabilidade e da justiça social.
Por fim, como vive o coração do emigrante português na Suíça?
É habitar entre dois mundos. É ter a mente focada no rigor, na organização e nos desafios helvéticos, mas manter o pulsar das emoções ligado às raízes. Significa carregar a saudade como uma força motriz e não como um fardo, usando a nossa e determinação e resiliência naturais para construir pontes e fazer a diferença na sociedade que nos acolheu. É um coração que aprendeu a amar a montanha, mas que não esquece o horizonte do seu país.
Ígor Lopes
