O concerto de Cuca Roseta em Genebra foi, acima de tudo, um momento de comunhão com o público. Desde os primeiros acordes, a fadista conseguiu estabelecer uma ligação próxima e genuína com a plateia, criando uma atmosfera de cumplicidade que atravessou toda a atuação. Entre silêncios atentos, aplausos calorosos e emoções partilhadas, o público acompanhou cada canção com entusiasmo e respeito.
Uma presença forte, segura e cativante. A sua entrega, aliada a uma expressividade muito própria, deu profundidade a cada interpretação e confirmou a sua capacidade de transformar o espectáculo numa experiência simultaneamente íntima e intensa. A fadista soube ocupar o palco com naturalidade, comunicando não apenas através da voz, mas também do olhar, do gesto e da emoção.
Em Genebra, Cuca Roseta ofereceu um concerto marcado pela autenticidade e pela emoção. Foi uma noite em que o fado português se afirmou como linguagem universal, aproximando artista e público através da música, da memória e de uma identidade cultural profundamente sentida.
Cuca, bem-vinda a Genebra, uma vez mais muito obrigado já pela sua disponibilidade. A Cuca não tem um percurso “tradicional”, ninguém da sua família estava ligada ao fado, e também não viveu perto de ambientes fadistas, descobriu o fado ou foi ele que a descobriu? Choque, chamamento emocional?
Sim, não tenho tradição fadista na família, a minha descoberta do fado, mais do que um chamamento, acho que era o meu propósito de alma, era o meu propósito de vida, algo que estava à espera de ser activado. Nasci num país de fado, nele estudei e andei andei à procura do meu caminho, estudei psicologia, estudei direito, estudei marketing, estudei sei lá o quê, e realmente nesse percurso sempre cantei. Cantava mas as músicas que cantava não me cativavam a 100%, faltava a alma, o sentido do que se canta, aquela faísca que faz a diferença e que nos guia pelo caminho para o qual estamos destinados. Foi a tradição que me prendeu. Eu sou um amante das tradições e gosto particularmente das nossas, assim que quando o fado aconteceu na minha vida, fiquei presa e rendida, houve um despertar interior, de alma, que me fez perceber que me estava no sangue. Este “sentir” que somente o fado tem, o sebastianismo, o saudosismo, as coisas boas e menos boas do povo português, tem mensagens límpidas, mensagens de amor, de esperança. As melodias do fado são um alquimia de tudo isso, traduzidos em canções lindíssimas que faz sucesso em todo o mundo, não por acaso é Património Imaterial da Humanidade.
Num dos seus fados há um verso: “O teu fado é ser feliz”, este verso, ao contrário de muitos fados que têm uma fatalidade tremenda transmite uma mensagem diferente, é uma das suas mensagens?
Há uma esperança, não é? Há sempre esperança num futuro melhor, numa vida melhor, num mundo melhor. O fado canta muito o fatalismo e consegue-o transmitir de uma forma sublime, assim como também consegue passar mensagens de fé e de esperança. A nossa alma, as nossas vivências vão para além do fatalismo. Eu acho que o fado sempre teve muito focado no queixume, que também é uma característica do nosso país mas pra mim não vejo a tristeza como algo de completamente negativo.A tristeza, é desconfortável, obviamente, mas, é a tristeza que nos faz evoluir mais e depois, mais tarde, nós percebemos porque é que temos que passar, pelas coisas. Desse modo, eu gosto sempre de me focar mais no lado positivo do ensinamento do que no lado negativo do queixume, porque no queixume, quando nós estamos nesse momento, não vamos dali pra lado nenhum, não é? E, na verdade, não há nada a fazer, senão avançar. Então, eu acho que sim, o meu fado traz essa esperança, porque não é que não se fale de todos os sentimentos que nós vivemos, todas as emoções que nós vivemos, que são os nossos instrumentos de aprendizagem, mas acima de tudo entender o que é que nós tiramos daí. Eu tenho uma canção que se chama “O teu fado é ser feliz”, porque eu acho que nós sempre podemos olhar para as adversidades como algo de bom. E se formos gratos por elas havemos de evoluir mais rapidamente. É isso que eu acredito.
O fado tem uma caracte-rística muito vincada, a palavra dita, afirmada, quase soletrada. Os sentimentos que transmitem ditas de um certo modo. Sente que as pessoas recebem o seu fado e as suas palavras dessa maneira, com essa intensidade?
Eu acho que sim, porque eu própria faço questão de ter uma boa dicção e de dar importância à palavra. Às vezes, chego até a declamar a poesia no meio das minhas canções, precisamente para chamar a atenção para o poema. Tento sempre explicar um pouco aquilo que vai ser a canção. Para mim, o fado é a poesia cantada. Estava a falar de Ary dos Santos, que é um dos poetas mais incríveis ligados ao fado. O foco do fado está na poesia e na história, muito mais do que na voz. Claro que a voz também é importante e que permite mostrar a interpretação, mas está ao serviço da palavra, para transmitir uma mensagem. E, naturalmente, se a voz for maravilhosa, mais bonita será essa mensagem. Mas, mesmo para quem não entende a nossa língua, o facto de darmos tanta intensidade e tanto corpo a cada palavra faz com que ela toque o coração dos outros, mesmo que não se compreenda tudo. A energia e a magia passam para quem nos ouve.
Para terminar, e sabendo que está cansada, queria agradecer-lhe. Foi um enorme prazer voltar a ouvi-la ao vivo. A sua voz fadista é lindíssima. Peço que deixe uma mensagem à comunidade portuguesa aqui na Suíça?
É realmente incrível a comunidade portuguesa que existe aqui. É sempre um gosto enorme, porque viajo pelo mundo inteiro a cantar e nós cantamos muito.
Já cantámos em 59 países de línguas diferentes, várias vezes, e sabemos o que é estar longe de casa. É muito bonito poder trazer esta canção, esta saudade e este sabor a casa às comunidades portuguesas, normalmente na Suíça, em França e no Luxemburgo.
Em todos os espectáculos há sempre muitos compatriotas, e é lindo ver a forma como bebem da nossa cultura, da saudade e, olhos ávidos a anteciparem os sons e palavras que os fazem sentir em casa. Fico muito feliz por poder partilhar isso com eles. É bonito e emocionante poder trazer esta canção, esta saudade e este sabor a casa às comunidades portuguesas. Obrigada a todos.
Ilídio Morgado





