Maria José dos Santos Peniche, conhecida pessoal, artística e profissionalmente como Zézinha Peniche, tem 65 anos, raízes familiares em Aguiar da Beira e uma ligação a Cascais.
Residente no cantão de Thurgau, na Suíça, iniciou o percurso artístico no teatro, com passagem pelo Parque Mayer, em Lisboa, antes de trabalhar como educadora de infância e professora. Formou-se também como analista química e exerceu atividade durante cerca de 14 anos nesta área, na Suíça. Com especialização em Estética, Dermocosmética e Medicina Natural, foi ainda formadora e inspetora na área da estética. Atualmente, é empresária e diretora da “Swiss ZP”, onde desenvolve trabalho nos domínios da medicina natural, do bem-estar, da nutrição e da estética especializada, mantendo, em paralelo, projetos literários, culturais e de formação. Em entrevista ao Gazeta Lusófona, aborda um percurso construído entre Portugal, país das suas origens, e a Suíça, território que passou a integrar a sua identidade e história.
O seu percurso começou como atriz no Parque Mayer, em Lisboa, e passou pela educação, pela química, pela gestão de artistas e pela estética. Como é que estas experiências contribuíram para a profissional e empresária que se tornou na Suíça?
Costumo dizer que vivi várias vidas dentro de uma só vida. Hoje percebo que todas essas experiências contribuíram para a mulher e profissional que me tornei. O teatro ensinou-me a comunicar, a observar as pessoas, a compreender emoções e a enfrentar o público. A educação ensinou-me a transmitir conhecimento. A química deu-me rigor, método e disciplina. A estética, a dermocosmética e a medicina natural aproximaram-me ainda mais das pessoas e reforçaram em mim a consciência da responsabilidade que existe quando alguém nos procura para cuidar de si. Mesmo na Suíça, nunca abandonei completamente o meio artístico. Criei uma empresa de apoio aos artistas, organizei e apresentei espetáculos e trouxe artistas portugueses à Suíça. Trabalhei também na divulgação e distribuição de cassetes e, mais tarde, CDs, fazendo-os chegar a diferentes centros portugueses. Foi uma forma muito bonita de aproximar Portugal dos seus emigrantes através da música e da cultura. Essa atividade permitiu-me construir amizades e contactos no meio artístico que permanecem até hoje. Ainda atualmente acontece contactarem-me à procura de determinado artista ou pedirem-me ajuda para estabelecer contactos. Portanto, posso ter-me afastado dos palcos como atriz, mas nunca me afastei verdadeiramente do mundo artístico.
A mudança para a Suíça representou uma etapa na sua vida pessoal e profissional. Quais foram os principais desafios que enfrentou?
A minha chegada à Suíça teve uma particularidade: vim inicialmente com uma bolsa de estudo. Comecei por estar na Suíça alemã e, posteriormente, passei também cerca de um ano na Suíça italiana para aprender italiano. Desde muito cedo compreendi que, para viver e trabalhar verdadeiramente num país, é fundamental conhecer a língua e compreender a sua cultura. Inicialmente, estive ligada a um projeto relacionado com a criação de uma creche destinada aos filhos de trabalhadores imigrantes da “Migros” que trabalhavam por turnos. O projeto não chegou a concretizar-se da forma inicialmente prevista, mas, entretanto, surgiu outra oportunidade que mudou o meu percurso profissional. Foi-me proporcionada a possibilidade de me formar como analista química. Fiz cerca de dois anos de formação em Munique e, posteriormente, estágio num laboratório ligado à “Migros”. Trabalhei depois aproximadamente 14 anos como analista. Foram anos de muito trabalho, aprendizagem e integração. Ao mesmo tempo, comecei a ajudar muitos portugueses que chegavam à Suíça e não dominavam o alemão. Fiz traduções, acompanhei pessoas perante diferentes entidades e ajudei portugueses em situações relacionadas com polícia, tribunais e documentação. Também dei apoio educativo a filhos de emigrantes e cursos de iniciação ao alemão a portugueses recém-chegados. Cheguei inclusivamente a ajudar famílias em processos muito difíceis, relacionados com regressos definitivos a Portugal e até com falecimentos de emigrantes. Na minha biografia existe uma expressão de que gosto particularmente: chamavam-me a “menina pingue-pongue”, porque andava constantemente de um lado para o outro a tentar ajudar toda a gente. E grande parte dessa ajuda era feita sem qualquer interesse financeiro. Fazia-o porque sabia o que significava estar num país estrangeiro e, muitas vezes, não saber onde pedir ajuda.
Atualmente, desenvolve atividade empresarial nas áreas da Medicina Natural e da Estética Especializada. Que projetos tem em curso e que respostas procura oferecer através da “Swiss ZP”?
A “Swiss ZP” representa a concretização de um percurso profissional construído ao longo de várias décadas, sempre com uma preocupação muito grande com a formação, a inovação e o acompanhamento individualizado de cada pessoa. A minha ligação a esta área vem de longe. Desenvolvi a minha própria marca já em 1987 e, ao longo dos anos, fui acompanhando a evolução das necessidades das pessoas e do próprio mercado. Atualmente, a minha marca conta com cinco produtos próprios, tendo o mais recente sido desenvolvido há cerca de dois anos. Para mim, isto tem um significado especial, porque não se trata simplesmente de comercializar produtos. Existe por trás uma história profissional, uma identidade e muitos anos de experiência. Na “Swiss ZP” desenvolvo atividade nas áreas da Medicina Natural, bem-estar, nutrição e Estética Especializada. Realizo consultas de orientação nutricional e avaliações relacionadas com alimentação, intolerâncias e alergias, dentro do âmbito da minha formação e competências profissionais, recorrendo também aos equipamentos disponíveis na minha área de atuação. Na vertente estética, trabalho com diferentes técnicas e tecnologias especializadas, procurando sempre adequar os tratamentos às características e objetivos de cada pessoa. A formação contínua é uma das minhas prioridades. Neste momento estou também a concluir formação complementar, com duas componentes dedicadas às áreas da ansiedade e depressão, temas que considero extremamente importantes na sociedade atual. Quero continuar a desenvolver a marca, aperfeiçoar os meus produtos e serviços e proporcionar um acompanhamento cada vez mais responsável e personalizado. Depois de tantos anos de profissão, continuo a ter a mesma curiosidade de quando comecei. Para mim, aprender não tem idade e um bom profissional nunca pode dizer: “já sei tudo”.
É autora de livros como “Amor e Sucesso”, “A Força do Pensamento Positivo & Poesia”, “Ser Saudável” e “Dictionary for your questions in different languages”. O que motivou cada uma destas obras e que relação existe entre a escrita, a saúde e a sua experiência de vida? Tem outros livros escritos?
A escrita acompanha-me há muitos anos e nasce, sobretudo, das experiências que fui acumulando. Escrevo sobre sentimentos, saúde, pensamento positivo, relações humanas, crianças e também sobre aquilo que observo na sociedade. Tenho vários livros publicados e participei também em numerosas coletâneas, cerca de 26. Entre as minhas obras e projetos literários encontram-se igualmente “O Olhar da Criança”, “Um Segredo Maior que o Tempo”, publicado em diferentes línguas, e “Weinfelden – Jardim da Comuna”, entre outros trabalhos. Uma das maiores alegrias recentes do meu percurso literário aconteceu em Itália. Uma obra minha foi traduzida e publicada em italiano e, posteriormente, participei num concurso literário, no qual conquistei o segundo lugar, com um trabalho ligado à natureza e às montanhas. Receber um reconhecimento literário fora de Portugal e numa língua diferente da minha foi extremamente emocionante. Para mim, escrever é também deixar uma parte de nós para depois de nós.
Que novos livros, iniciativas empresariais, encontros literários ou eventos estão previstos para os próximos meses, em Portugal, na Suíça ou noutros países?
Tenho sempre projetos em desenvolvimento, tanto na área profissional como literária. Quero continuar a desenvolver a “Swiss ZP”, continuar a minha formação e manter a ligação entre a minha atividade profissional e a divulgação de conhecimentos relacionados com o bem-estar. Na literatura, continuo a escrever e pretendo participar em novas iniciativas, apresentações e encontros literários em Portugal, na Suíça e, sempre que surja oportunidade, noutros países. Depois de tantos anos, continuo a ter projetos. Acho que isso é fundamental: enquanto tivermos projetos, continuamos a ter futuro.
Quem é hoje a Zézinha Peniche?
Esta talvez seja uma das perguntas mais difíceis e, ao mesmo tempo, mais bonitas. Hoje, Zézinha Peniche é uma mulher que já viveu muitas vidas numa só. Sou mãe, avó, irmã, amiga, empresária, escritora e profissional. E, no fundo do coração, continuo também a ser atriz. Fui uma mãe que criou praticamente sozinha as suas duas filhas e que teve de conciliar maternidade, trabalho, estudo e responsabilidades. Hoje tenho duas filhas maravilhosas e um neto, e considero a minha família uma das maiores conquistas da minha vida. Também sou uma mulher profundamente rica em amizades. Tenho amigos e amigas de décadas, inclusive do mundo artístico, da televisão e da cultura, que continuam presentes na minha vida. Profissionalmente sinto-me realizada. Continuo a estudar, trabalhar, escrever e sonhar. Se há um sonho que ficou parcialmente por cumprir, foi o teatro. Afastei-me por circunstâncias da minha vida pessoal e, naturalmente, por vezes penso no caminho que poderia ter seguido. Mas não vivo presa ao passado. A vida ensinou-me que não podemos ter tudo. Houve momentos felizes e outros muito difíceis, mas todos fizeram parte da construção da mulher que sou. Hoje posso dizer com serenidade que sou uma mulher feliz, realizada, agradecida e ainda cheia de sonhos.
Em que locais de Portugal tem família?
Tenho família espalhada por várias regiões de Portugal, nomeadamente em Cascais, Lisboa, Setúbal, Algarve, Monchique e Aguiar da Beira. Tenho uma ligação particularmente afetiva a Aguiar da Beira, terra da minha mãe e das minhas raízes familiares, e também a Cascais, que ocupa um lugar muito especial na minha vida e onde tenho casa. Tenho ainda família espanhola e familiares em Espanha. Faz com que a minha história familiar ultrapasse as fronteiras de Portugal.
Como é a sua vida na Suíça?
É uma vida de trabalho, responsabilidade e organização, mas também uma vida que construí com muito carinho. Tenho aqui a minha atividade profissional, família, amizades e uma história de muitos anos. A Suíça deixou há muito de ser apenas o país para onde emigrei. Tornou-se também casa.
Como é viver na Suíça?
É viver num país muito organizado, seguro e exigente. Existe um grande respeito pelas regras, pelos horários e pelo trabalho. Naturalmente, nem tudo é perfeito e a adaptação exige esforço. Mas considero que a Suíça oferece estabilidade e oportunidades a quem procura integrar-se, trabalhar e respeitar a sociedade onde vive.
Convive com a comunidade portuguesa na Suíça?
Sim. A comunidade portuguesa faz parte da minha história na Suíça desde praticamente o início. Durante muitos anos ajudei emigrantes, organizei atividades, estive ligada a espetáculos e trouxe artistas portugueses à Suíça. Por isso, a minha ligação à comunidade portuguesa não é apenas social. Faz parte do meu próprio percurso de emigrante.
Como os portugueses são recebidos no país?
De uma forma geral, considero que os portugueses conquistaram uma boa imagem na Suíça. Somos frequentemente reconhecidos como trabalhadores, responsáveis e pessoas que procuram integrar-se. Essa imagem foi construída ao longo de gerações por milhares de portugueses que trabalharam muito e deram também o seu contributo para o desenvolvimento deste país.
Frequenta associações portuguesas?
Ao longo do meu percurso tive uma ligação muito próxima a centros e estruturas da comunidade portuguesa, sobretudo através da cultura, dos espetáculos, da divulgação de artistas e do apoio aos emigrantes. Hoje, a minha vida profissional ocupa grande parte do meu tempo, mas continuo muito ligada à comunidade e às pessoas.
Como consegue matar as saudades de Portugal?
Nunca se matam completamente. Matam-se um bocadinho falando português, cozinhando comida portuguesa, ouvindo música, convivendo com portugueses, telefonando à família e aos amigos e, atualmente, através das redes sociais, que diminuíram muito as distâncias. Mas há saudades que só desaparecem quando o avião aterra em Portugal.
Qual é o sentimento quando regressa a Portugal de férias?
É sempre emoção. Há qualquer coisa que muda dentro de nós quando chegamos ao nosso país. A língua, os cheiros, a comida, o mar, as pessoas, a maneira de falar. Podemos viver muitos anos fora, podemos estar perfeitamente integrados noutro país, mas quando regressamos percebemos que existe uma parte de nós que nunca saiu de Portugal.
Pensa em voltar a viver em Portugal algum dia?
Portugal fará sempre parte da minha vida e quero continuar a passar períodos no meu país. Neste momento, porém, a minha vida profissional e uma parte importante da minha vida pessoal estão construídas na Suíça. Não gosto de dizer “nunca”, porque a vida já me ensinou que pode mudar muitas vezes. Talvez no futuro consiga dividir ainda mais o meu tempo entre os dois países.
O que conquistou na Suíça até agora?
Conquistei muito mais do que bens materiais. Conquistei formação, experiência, uma carreira, integração, amizades, conhecimento de outras culturas e a possibilidade de construir os meus próprios projetos. Mas talvez a maior conquista tenha sido perceber que fui capaz de recomeçar várias vezes. Cheguei como uma jovem portuguesa com uma bolsa de estudo e hoje olho para trás e vejo décadas de trabalho, formação, empreendedorismo, cultura e apoio à comunidade. Essa é a minha verdadeira riqueza.
O que a Suíça significa para si?
Significa oportunidade, aprendizagem, disciplina e uma parte enorme da minha vida. Foi o país que me recebeu, onde estudei, trabalhei, criei projetos e onde também vi crescer a minha família. Tenho orgulho em ser portuguesa, mas tenho igualmente uma enorme gratidão pela Suíça. No meu coração existe espaço para os dois países.
Que imagem tem de Portugal?
Vejo Portugal como um país extraordinariamente rico em história, cultura, gastronomia, paisagens e humanidade. Temos um povo acolhedor e uma capacidade incrível de adaptação. Gostaria, naturalmente, de ver mais oportunidades para os jovens, melhores condições para quem trabalha e maior valorização de tantas pessoas qualificadas que, infelizmente, continuam a sentir necessidade de emigrar. Portugal tem um potencial enorme.
Como e por que foi viver na Suíça?
A minha primeira vinda para a Suíça aconteceu através de uma bolsa de estudo. A partir daí surgiram oportunidades de formação e trabalho e fui construindo aqui uma parte importante da minha vida. Mais tarde regressei a Portugal, onde vivi cerca de 13 anos. Nesse período desenvolvi uma intensa atividade empresarial: criei três estruturas de formação profissional, uma de maior dimensão e duas mais pequenas, e desenvolvi também clínicas na área da estética, procurando sempre acompanhar a formação, as novas técnicas e a evolução do setor. Acabei, contudo, por sentir novamente saudades da Suíça e decidi regressar. Entreguei a continuidade da empresa em Portugal à minha filha mais velha e comecei novamente uma etapa da minha vida neste país. Portanto, a minha relação com a Suíça é feita também de partidas, regressos e recomeços.
Qual a diferença de vida entre Portugal e a Suíça?
São sociedades diferentes e cada uma tem qualidades extraordinárias. A Suíça tem uma cultura muito marcada pela organização, pontualidade, segurança, estabilidade e cumprimento das regras. Portugal tem uma dimensão humana, espontaneidade, proximidade familiar e uma forma calorosa de viver que é muito nossa. Não considero necessário escolher qual é “melhor”. Aprendi a retirar de cada país aquilo que tem de melhor. Talvez eu própria seja hoje uma mistura das duas culturas: mantenho o coração e a espontaneidade portuguesa, mas adquiri também muito da disciplina e organização suíças.
A língua é um problema?
A língua pode ser uma das principais dificuldades para quem emigra, mas, no meu caso, tive a felicidade de chegar à Suíça já com algum conhecimento de línguas. Além do português, falava espanhol e francês, sendo o francês a língua estrangeira que mais utilizava nessa altura. Já na Suíça, retomei também os estudos de inglês e fui desenvolvendo os conhecimentos necessários para me integrar nas diferentes regiões do país. Mais tarde tive ainda a oportunidade de passar cerca de um ano na Suíça italiana, onde aprofundei o italiano. Tive também um privilégio muito especial: contar com o apoio da minha madrinha, uma mulher extraordinária, cantora de ópera, que falava português e espanhol e que me ajudou muito durante esse período da minha vida. Faleceu no ano passado, aos 94 anos, e guardo dela uma enorme gratidão e muitas recordações. Por isso, diria que a língua não foi para mim uma barreira tão difícil como pode ser para muitos emigrantes. Mas essa experiência fez-me compreender ainda melhor a importância da comunicação para a integração. Talvez também por isso, ao longo dos anos, procurei ajudar portugueses que chegavam à Suíça sem falar alemão. Dei cursos de iniciação à língua, fiz traduções e acompanhei pessoas em situações em que não compreender o idioma poderia representar uma enorme dificuldade. Acredito que aprender a língua do país que nos acolhe é uma das melhores formas de conquistar autonomia, integrar-nos e, simultaneamente, demonstrar respeito pela sociedade onde escolhemos viver.
Como vive o coração do imigrante português na Suíça?
O coração do emigrante aprende uma coisa muito especial: aprende a viver em dois lugares ao mesmo tempo. Criamos raízes na Suíça. Trabalhamos, fazemos amigos, criamos os nossos filhos, construímos uma casa, uma profissão e uma vida. Mas existe uma raiz que nunca se arranca. Portugal continua presente numa música, num prato de comida, numa palavra, numa fotografia, numa chamada telefónica ou simplesmente numa saudade que aparece sem avisar. Com o passar dos anos percebemos que já não pertencemos apenas a um lugar. Quando estamos na Suíça, às vezes temos saudades de Portugal. Quando permanecemos algum tempo em Portugal, começamos também a sentir falta de coisas da Suíça. Talvez essa seja uma das contradições mais bonitas da emigração. Eu sou profundamente portuguesa. Tenho orgulho nas minhas origens, na minha língua e na minha história. Mas também tenho gratidão e carinho pela Suíça, porque este país faz parte da mulher que me tornei. Depois de tantos anos, já não sinto que tenha de escolher entre um e outro. Portugal é a minha raiz. A Suíça tornou-se também uma parte da minha casa. E eu aprendi a viver com os dois dentro do mesmo coração.
Ígor Lopes





