A Romaria de Nossa Senhora d’Agonia voltou a colocar Viana do Castelo no centro das tradições populares e religiosas portuguesas entre 15 e 23 de agosto de 2026, com um programa que cruzou fé, etnografia, folclore, música, artesanato e a ligação histórica da cidade ao mar.
Entre os participantes esteve Sandra Couteiro Romano, residente na Suíça e presidente do Rancho Folclórico de Basileia, que regressou às suas raízes vianenses e participou em alguns dos principais quadros da festa, este ano acompanhada pelo filho Messias, de 21 anos.
A edição de 2026 teve nove dias de programação oficial, embora as iniciativas tenham começado a 7 de agosto, com a inauguração da Exposição de Rua e a abertura da XXIV Exposição e Feira de Artesanato da Romaria d’Agonia, no Jardim Público. O calendário principal arrancou a 15 de agosto, com a Trasladação das imagens do Senhor dos Aflitos e de Nossa Senhora da Assunção e o Sarau dos Coros Polifónicos.
A festa mantém uma relação histórica com as comunidades ligadas à pesca. Segundo o Turismo de Portugal, a veneração de Viana do Castelo a Nossa Senhora d’Agonia está documentada desde 1744, associada aos pescadores que invocavam a Virgem perante os riscos do mar. Em 1772, uma portaria régia autorizou a realização de uma feira franca nos dias 18, 19 e 20 de agosto e, em 1783, passou a celebrar-se anualmente uma Missa Solene no dia 20, data que se tornou o centro religioso da romaria. É precisamente esta ligação ao mar que atravessa a história familiar de Sandra Couteiro Romano. Os seus pais nasceram na Ribeira de Viana do Castelo e as famílias paterna e materna estiveram ligadas durante gerações à atividade marítima. O pai, Messias, foi marinheiro profissional, assim como outros familiares. Quatro homens da família perderam a vida a bordo de embarcações. O nome do seu filho, Sandra explica que a escolha foi uma homenagem ao pai e que a devoção à Nossa Senhora d’Agonia está associada também aos homens da sua família.
“É por isso que Nossa Senhora d’Agonia ocupa um lugar tão especial no meu coração. Ela é a padroeira das gentes do mar e, para mim, homenageá-la é também recordar os meus familiares, os homens que partiram para o mar e todos aqueles que fizeram da vida marítima uma parte da identidade da Ribeira e de Viana do Castelo”, afirmou à nossa reportagem.
A participação de Sandra na edição deste ano começou no domingo, 16 de agosto, precisamente num momento que se estreou no programa da Romaria. O Domingar na Romaria realizou-se pela primeira vez em 2026, criado pela organização para valorizar os diferentes trajes tradicionais de Viana do Castelo, com destaque para o Traje de Domingar. O percurso terminou na Praça da República. Sandra participou com um traje em tons de azul-marinho e fez o desfile acompanhada por pessoas ligadas à sua infância na Ribeira, entre elas Celeste, a filha desta, Mariana, e Francisca, filha da amiga Rafaela. Foi também um momento muito especial por ter tido comigo duas amigas de infância da Ribeira. “A nossa amizade começou através dos nossos pais, que eram amigos, e foi crescendo ao longo dos anos. Revermo-nos e partilharmos aquele momento foi uma bonita viagem às memórias da nossa infância e às nossas raízes comuns”, recordou. O programa prosseguiu nos dias seguintes com arruadas, oficinas de danças tradicionais, atividades desportivas e concertos. A 18 de agosto, o Centro Cultural recebeu a Festa do Traje, outro dos momentos associados à preservação e apresentação da indumentária tradicional minhota. Na quarta-feira, 19 de agosto, Sandra voltou às ruas da cidade para participar no Desfile da Mordomia. Vestiu um traje de Mordoma preto, de colete, e levou a vela votiva. Ao seu lado esteve Letícia, namorada do filho Messias, com um traje semelhante pertencente à mãe. “Apesar de vivermos longe de Viana do Castelo, faço questão de lhes mostrar a importância das nossas tradições, da nossa cultura e, sobretudo, da responsabilidade que temos de não deixar que elas desapareçam”, sustentou.
A transmissão desse património é igualmente feita na Suíça através do Rancho Folclórico de Basileia, estrutura que Sandra acompanha desde a sua fundação e à qual preside. Os filhos cresceram próximos das atividades do grupo, dos trajes, da música e das danças portuguesas.
“Os meus filhos acompanham o Rancho desde que nasceram e, dessa forma, têm crescido ligados às nossas músicas, aos nossos trajes, às nossas danças e às nossas tradições. É a minha maneira de manter Viana e Portugal presentes nas nossas vidas, mesmo estando longe”, explicou.
O dia 19 concentrou outros momentos do programa, como a Revista de Gigantones e Cabeçudos, o início da confeção dos Tapetes Floridos nas ruas da Ribeira, a ornamentação dos barcos para a Procissão ao Mar, o concerto de Augusto Canário & Amigos e a Festa dos Pescadores, que se prolongou durante a madrugada junto às embarcações. O concerto de Augusto Canário teve este ano uma ligação particular à Ribeira. A atuação prestou tributo aos homens e mulheres ligados ao mar e contou, entre outros momentos, com a participação de moradores da Ribeira trajados, grupos tradicionais, bombos e cabeçudos. Para Sandra, cuja história familiar está ligada à atividade marítima, o concerto assumiu uma dimensão pessoal.
“Um dos momentos que mais me marcou este ano foi também o concerto de Augusto Canário e Amigos, que teve uma homenagem muito especial aos homens do mar e às mulheres da Ribeira. Para quem tem uma história familiar tão ligada ao mar, foi impossível ficar indiferente”, referiu.
O centro religioso da Romaria chegou a 20 de agosto, dia de Nossa Senhora d’Agonia e feriado municipal em Viana do Castelo. O programa começou pela manhã com a visita às ruas da Ribeira e incluiu o Circuito do Feirão, a Revista de Gigantones e Cabeçudos e, às 14h30, a Solene Celebração Eucarística, seguida da Procissão ao Mar. À noite realizaram-se o desfile “Vamos para a Festa”, o “Festival de Folclore” e, à meia-noite, o “Fogo da Santa”. Sandra participou na Eucaristia e na Procissão ao Mar a bordo de um barco de pesca, acompanhando depois o percurso pelas ruas da Ribeira, preparadas na noite anterior pelos moradores com os tradicionais tapetes. Teve consigo a mãe, Zeza, e a irmã, Simone. A Procissão ao Mar representa uma das expressões da relação entre a cidade e a atividade piscatória. A imagem de Nossa Senhora é levada para a água numa embarcação, acompanhada por barcos engalanados, num ritual ligado à proteção das comunidades marítimas. O dia 20 trouxe ainda outro reencontro, desta vez dentro da família de Sandra. A tia Melindra, irmã da mãe, reuniu familiares na casa onde viveram os avós maternos, Laura, conhecida por Fárruca, e José, conhecido por Pomarão. Segundo Sandra, “foi a primeira vez desde a morte dos avós, em 2005, que a família voltou a reunir-se naquele espaço”. A data tinha um significado concreto. Laura mantinha a tradição de preparar uma refeição para toda a família no dia 20 de agosto.
“Regressar àquela casa, tantos anos depois, e voltar a reunir a família no mesmo dia foi como recuperar uma tradição e, ao mesmo tempo, abraçar uma parte da nossa história que nunca deixou de estar presente”, contou Sandra. Depois do jantar, a família re gressou também a outro costume: subir ao terraço para assistir ao fogo de artifício.
“Por instantes, parecia que o tempo tinha voltado atrás e que estávamos novamente todos juntos naquela casa, a viver uma tradição que fazia parte da nossa infância e da nossa família”, recordou.
Nos dias seguintes, a programação manteve a presença do folclore e das tradições populares. A 21 de agosto realizaram-se, entre outros momentos, a Romaria dos Pequeninos, o Circuito do Feirão, a Revista de Gigantones e Cabeçudos, o Encontro de Cantadores ao Desafio, o Festival de Folclore e o Fogo Preso, no Jardim Marginal. A última participação ativa de Sandra na edição deste ano aconteceu no sábado, 22 de agosto, no Cortejo Histórico-Etnográfico, cujo tema em 2026 foi “Lendas de Amor”. O cortejo é um dos quadros de maior dimensão das Festas d’Agonia e envolve mais de três mil figurantes, carros alegóricos e representações da história, dos ofícios e da etnografia do concelho. A tradição deste cortejo remonta a 1908, quando era designado Parada Agrícola. Sandra integrou o quadro da família com um traje de Ribeira Lima vermelho. Desta vez, esteve acompanhada pelo filho Messias e pela namorada deste, Letícia, pela irmã Simone e pelo cunhado Artur. A presença do filho marcou, segundo Sandra, “um dos momentos centrais desta passagem por Viana do Castelo”.
“Descer a Avenida com o meu filho de 21 anos ao meu lado foi uma experiência particularmente bonita e emocionante. Olhá-lo ali, vestido e a participar comigo numa tradição que faz parte de mim, da história dos meus pais e dos meus avós, fez-me sentir que todo o esforço de transmitir este legado aos meus filhos vale a pena”, disse Sandra, que sintetiza a imagem daquele momento numa frase: “Naquele momento, o passado e o presente caminharam lado a lado”. Nem todos os elementos da família conseguiram participar este ano. O marido, Dario, e o filho mais novo, Marco, permaneceram na Suíça devido ao início do período escolar. Sandra admite que a ausência foi sentida, mantendo a expectativa de que Marco possa também participar em futuras edições da Romaria. Ao longo da permanência em Viana do Castelo, a família acompanhou ainda diferentes momentos do programa, entre a Feira de Artesanato, arruadas, revistas de Gigantones e Cabeçudos, Vamos para a Festa, concertos, Festa do Traje, Noite dos Tapetes, festivais de folclore, feirões, encontros de cantadores ao desafio e espetáculos de fogo de artifício. A Romaria prolongou-se oficialmente até domingo, 23 de agosto. O último dia sofreu alterações devido às condições meteorológicas, que levaram ao cancelamento de vários momentos e ao adiamento do Festival de Folclore e da Serenata de fogo de artifício sobre o rio Lima. A Procissão Solene, prevista para às 16h e condicionada pelo estado do tempo, acabou por sair às ruas durante uma melhoria das condições meteorológicas.
Para Sandra Couteiro Romano, a edição de 2026 ficou associada sobretudo à continuidade geracional. A presidente do Rancho Folclórico de Basileia regressou a Viana do Castelo como participante da Romaria, mas também como filha e neta de famílias da Ribeira, descendente de homens ligados ao mar e mãe de uma nova geração que cresce na Suíça em contacto com as tradições portuguesas.
“Ter o meu filho Messias comigo, com o nome do avô marinheiro que está na origem de tantas destas memórias, tornou esta Romaria ainda mais especial. Ao vê-lo participar, vestir o traje, caminhar ao meu lado e viver estas tradições, senti que uma parte da história da nossa família continua viva”, referiu. E é nessa passagem entre gerações que Sandra enquadra a sua relação com as Festas d’Agonia.
“Este ano, na Romaria da Senhora d’Agonia, não estive apenas a celebrar uma tradição. Estive a celebrar a minha família, a Ribeira, os homens e mulheres do mar e, acima de tudo, a oportunidade de passar ao meu filho um pedaço da história que também é dele. Porque é assim que as tradições permanecem vivas: quando alguém as recebe, as vive e, um dia, as entrega à geração seguinte”, finalizou Sandra.
Ígor Lopes





