Ao longo do ano lectivo 2025/2026, a Native Scientists levou a ciência, em português, a crianças de três regiões suíças, através do programa Same Migrant Community (SMC), unindo laboratórios e salas de aula através da língua que estas crianças falam em casa.
Em cinco intervenções, 14 pessoas cientistas da diáspora portuguesa chegaram a 75 crianças e registaram 252 interações – das quais 72% foram o primeiro contacto dessas crianças com uma pessoa cientista. No final, 100% afirmaram ter aprendido coisas novas e 100% gostaram de conhecer a/o cientista.
Desenvolvido pela Native Scientists, uma organização pan-europeia sem fins lucrativos, o programa Same Migrant Community (SMC) nasce de uma convicção simples e poderosa: quando uma criança migrante vê alguém que fala a sua língua, partilha as suas raízes e ainda assim é cientista, algo muda dentro dela. Segundo relatórios da União Europeia e das Nações Unidas, crianças migrantes têm o dobro da probabilidade de apresentar resultados inferiores em ciências, comparativamente aos seus pares não migrantes. Ao interagirem com modelos de referência que partilham a sua língua de herança, as crianças aumentam o seu capital científico, veem o seu desenvolvimento linguístico reforçado e os estereótipos sobre pessoas cientistas e sobre a própria ciência são desafiados.
Cinco intervenções, um ano inteiro de ciência em português
A primeira intervenção do ano decorreu a 26 de março na escola Bützenen, no cantão de Basileia-Campo. Quatro pessoas cientistas da diáspora portuguesa dinamizaram atividades para 16 crianças, entre os 6 e os 16 anos, com o apoio da Coordenação do Ensino de Português no Estrangeiro na Suíça (CEPE), associada ao Instituto Camões. Os temas abordados incluíram genómica, astrofísica e física de partículas, o sistema imunitário e as vacinas, e princípios de física explorados através de experiências com energia, movimento, som e ímanes. Para muitas daquelas crianças, foi talvez a primeira vez que ouviram a palavra “cientista” e sentiram que ela também lhes podia pertencer.
A 30 de abril, foi a vez do Collège Léon Michaud, em Yverdon, receber a intervenção. Quatro cientistas dinamizaram atividades para 11 crianças, entre os 9 e os 10 anos, com o apoio da Society for Experimental Biology (SEB), uma sociedade científica internacional fundada em 1923 e dedicada à promoção da biologia experimental. As crianças mergulharam em mundos que raramente chegam às salas de aula: as bactérias que vivem no intestino das abelhas, os sinais precoces de problemas de saúde mental, o processo de endocitose e o papel surpreendente do microbioma intestinal na forma como o nosso corpo gere o stress.
Já a 6 de maio, na escola Schulhaus Lendenbach West, em Wetzikon, realizou-se a intervenção composta por duas oficinas dinamizadas pelas mesmas três pessoas cientistas, que juntas chegaram a 32 crianças, entre os 9 e os 12 anos. Os temas abordados incluíram o desenvolvimento de novos medicamentos que reforçam o sistema imunitário para combater doenças complexas, novas abordagens para fortalecer as defesas do organismo, e o comportamento da energia em colisões de partículas à escala subatómica. Esta intervenção contou com o apoio da SEB.
Por fim, a 9 de maio, a École Tattes d’Oie, em Nyon, foi palco da última intervenção do ano. 19 crianças, entre os 8 e os 9 anos, encontraram três cientistas das áreas das ciências médicas e farmacêuticas e saíram da sala a fazer perguntas que as pessoas adultas à sua volta ainda não sabem responder. Esta intervenção contou igualmente com o apoio da SEB.
Ciência na língua de herança, mais perto de casa
Em todas as intervenções, as atividades foram conduzidas em português, a língua que estas crianças falam ao jantar, que ouvem nas chamadas com os avós, que carregam como uma parte silenciosa de si mesmas. Para muitas delas, ouvir falar de ciência nessa língua foi, pela primeira vez, uma forma de perceber que a ciência também tem espaço para quem são, de onde vêm e como falam. A diversidade de áreas científicas exploradas – da genómica à física de partículas, das ciências médicas à saúde mental – contribuiu também para desconstruir ideias pré-concebidas sobre o que é a ciência e quem a faz.
Uma década de impacto em toda a Europa
A Native Scientists desenvolve o programa Same Migrant Community há mais de uma década, com o apoio de parceiros como o Instituto Camões e a SEB. Até à data, o programa já transformou a relação com a ciência de mais de 7 500 crianças em toda a Europa, crianças que, talvez, um dia venham a ser as cientistas que irão inspirar a próxima geração.
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Sobre a Native Scientists
A Native Scientists é uma organização pan-europeia que cria pontes entre crianças e cientistas que partilham a mesma língua de herança, promovendo a literacia científica e a equidade educativa. Através de oficinas inovadoras, inspira a próxima geração enquanto celebra a riqueza da diversidade linguística e cultural.
Catarina Miranda





