Há momentos no calendário que não são ou não podem ser apenas comemorações.
Para a comunidade portuguesa na Suíça, o 25 de Abril e o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas são marcos que nos recordam quem somos, de onde vimos e o que continuamos a construir, mesmo longe da terra natal.
O 25 de Abril permanece, para cada português, um património íntimo e coletivo. Não é apenas a memória da madrugada que restituiu a liberdade. É a afirmação de que a democracia exige vigilância, participação e responsabilidade. Para quem vive fora do país, esta data ganha uma camada adicional. Lembra-nos que a liberdade também se exerce na forma como representamos Portugal no estrangeiro, na forma como trabalhamos, criamos, participamos e mantemos viva a nossa identidade cultural.
Na Suíça, país de rigor, estabilidade e diversidade, o espírito de Abril encontra terreno fértil. A comunidade portuguesa, tantas vezes discreta, tem sabido mostrar que a liberdade se honra com dignidade, solidariedade e trabalho. Celebrar Abril aqui é reafirmar que a democracia portuguesa vive também nos gestos quotidianos de quem constrói pontes entre culturas.
Já o 10 de Junho é, por excelência, o dia em que Portugal se olha ao espelho e reconhece que a sua força está espalhada pelo mundo. É o dia em que a diáspora deixa de ser margem e passa a ser centro.
Para os portugueses na Suíça, esta data é mais do que um símbolo. É um reencontro. É a oportunidade de afirmar que a língua, a literatura, a história e a cultura não se perdem com a distância. Transformam-se, adaptam-se, ganham novas expressões. É também o momento de reconhecer o papel das associações, dos artistas, dos trabalhadores, dos jovens lusodescendentes que reinventam diariamente o que significa ser português no estrangeiro.
Entre o 25 de Abril e o 10 de Junho há um fio que os une: a ideia de pertença. Pertença a um país que se democratizou para todos, incluindo aqueles que partiram. Pertença a uma cultura que se expande sem se diluir. Pertença a uma comunidade que, mesmo longe, continua a ser parte essencial da nação.
Num tempo em que a velocidade do mundo ameaça apagar memórias e simplificar identidades, estas duas datas recordam-nos que Portugal não é apenas um território. É uma continuidade afetiva, histórica e cultural que atravessa fronteiras.
E é na Suíça, como em tantos outros lugares, que essa continuidade se renova com uma força admirável.
Celebrar Abril e o Dia de Portugal é, portanto, celebrar-nos a nós próprios, a nossa liberdade, a nossa língua, a nossa capacidade de permanecer unidos, mesmo quando a geografia insiste em separar-nos. É afirmar que Portugal vive onde vive cada português.
Adélio Amaro, diretor




