Em entrevista ao Gazeta Lusófona, João de Carvalho Figueiredo traçou um retrato do movimento associativo português na Suíça, destacando a sua importância histórica, mas também os desafios atuais que colocam em causa a sua continuidade e dinamismo.
Conselheiro das Comunidades Portuguesas pelos círculos da Suíça, Itália e Áustria, este dirigente, que acumula também funções, entre outras, como presidente da Assembleia da Casa do Benfica de Genebra, presidente da “Associação Laços” e dirigente sindical na UNIA, sublinhou que o associativismo continua a ser uma ferramenta essencial de ligação entre os portugueses no estrangeiro.
Segundo explicou, as associações tiveram, durante décadas, um papel central na integração dos emigrantes, funcionando como espaços de encontro, convívio e apoio, sobretudo numa altura em que muitos portugueses não dominavam a língua do país de acolhimento.
“Era uma maneira de comunicar entre eles, de conviverem, de beberem um copo todos juntos e se verem pelo menos uma vez por semana”, recordou.
Contudo, o contexto atual é significativamente diferente. João de Carvalho Figueiredo sublinha que as novas gerações, muitas já nascidas na Suíça, estão mais integradas na sociedade local e têm redes sociais mais diversificadas, o que reduz a dependência das associações tradicionais.
Ainda assim, este conselheiro das comunidades portuguesas referiu que iniciativas culturais e desportivas continuam a desempenhar um papel importante, apontando como exemplo o envolvimento de jovens em atividades como o rancho folclórico e o futebol, que ajudam a manter a ligação às raízes portuguesas.
Neste sentido, um dos principais desafios identificados prende-se com a dificuldade em atrair jovens para funções dirigentes, ou seja, apesar de existirem associados mais novos, João considera que falta um verdadeiro “sentido de entrega e de missão”, apontando para uma mudança de mentalidade marcada por uma sociedade mais materialista, onde o voluntariado enfrenta maiores obstáculos.
Perante este cenário, o conselheiro defendeu que as associações precisam de se reinventar. Na sua perspetiva, é fundamental adaptar os modelos de funcionamento às novas realidades, nomeadamente através da modernização e da incorporação de ferramentas digitais, de forma a torná-las mais apelativas para as gerações mais jovens. Caso contrário, alertou, “será difícil garantir a renovação e continuidade do movimento associativo”.
Outro ponto essencial destacado por João de Carvalho Figueiredo é o papel das famílias na transmissão destes valores. Para o conselheiro, o envolvimento dos jovens nas associações começa em casa, sendo determinante o exemplo dado pelos pais.
“Se os pais não motivarem os miúdos, eles não vão”, afirmou, sublinhando que a responsabilidade não pode ser atribuída apenas às instituições ou ao Estado.
Este responsável abordou ainda a importância da formação para dirigentes associativos, considerando-a positiva para melhorar a gestão e potenciar o impacto das iniciativas, mas apontou limitações na sua organização, pois, na sua opinião, “os prazos de divulgação devem ser mais alargados, tendo em conta as exigências profissionais dos emigrantes, de forma a permitir uma maior participação”.
Apesar dos desafios, João de Carvalho Figueiredo acredita que o movimento associativo português na Suíça continua a ter futuro, desde que consiga adaptar-se às novas dinâmicas sociais e envolver de forma mais ativa as novas gerações, mantendo-se assim como um pilar fundamental da identidade e coesão das comunidades portuguesas no estrangeiro.
Ígor Lopes





