Paulo Pescador, figura incontornável da Associação do Centro Desportivo e Recreativo Português de Payerne, mais conhecido por Centro Português de Payerne, hoje Presidente de uma das mais profícuas e dinâmicas associações portuguesas em solo helvético.
Encontrámos um homem singular, homem moldado pelas ondas do mar, mar que cruzou vezes sem conta na sua actividade de pescador, tal como o nome que porta. Foi na vida dura do mar e da pesca que se contruiu e de onde partiu para procurar dias melhores para si e a sua família.
Paulo Pescador, homem de terras de pescadores e de vida dura.
É isso. Nasci no concelho de Mira, terra de pescadores e ali iniciei a minha vida no mar durante 22 anos, na costa portuguesa e igualmente na pesca do bacalhau na Noruega, África do Sul, ponto mais longínquo onde estive, na pesca da pescada e outras espécies. Entretanto fiz a carta de mestre de embarcação e fiquei mais perto de casa, na costa portuguesa, especialmente na minha zona de intervenção. Infelizmente a arte da pesca está a desaparecer, especialmente a Arte Xávega, uma técnica muito antiga de pesca de cerco com redes puxadas à mão ou com tratores do mar para a praia, na minha linda praia de Mira que mantém a tradição dos barcos “meia-lua” e a venda de peixe fresco, com carapau, cavala, sargos, etc.
Lamento que esteja tudo a quase desaparecer, é uma actividade que requere paixão e muito esforço, pouco atractiva para os jovens de hoje que não lhe atribuem futuro como profissão. Hoje é graças a emigrantes que a actividade ainda se vai aguentando, assim como a agricultura, vidas duras, mas reconfortantes.
Com outras condições de incentivo teria continuado a vida de pescador?
O futuro ninguém o consegue adivinhar, mas provavelmente teria continuado, por gostar e por ser tradição familiar, mas sobretudo porque, embora duro, por vezes muito duro, a vida do mar é uma paixão que se sente e que é difícil de explicar. Trabalhei com uns amigos que me convidaram para trabalhar num barco de um deles, eramos sócios, mas chegou a uma altura que não conseguíamos alimentar a família e tivemos de procurar outras soluções, um deles está também na Suíça. A pesca veio por meio familiar, o meu pai foi para a pesca do bacalhau em 1937, foi um dos primeiros a aventurar-se em águas do Norte, na pesca ao arrasto, a que veio substituir a pesca à linha nos botes. Eramos cinco filhos homens, todos pescadores e três irmãs também ligadas à actividade piscatória.
Vida muito dura como é óbvio, mas acha que a vida de pescador, conforme a sua, ajudou no seu percurso de vida a ser resiliente e obstinado, no bom sentido, para levar as suas ideias para a frente?
Sim, obviamente que sim. Passava muito tempo no mar, longe da família, chegava a estar 5, 6 meses, no meio de uma imensidão de água. E é muito duro. Depois tínhamos o conforto de chegar a e o carinho de podermos ver os nossos apagava a rudeza de estar deles apartado.
Existem muitos lamentos de partida e grandes alegrias de chegar?
O cenário é aproximado. A incerteza de saber se voltaríamos era muito angustiante, para os que partiam e aqueles que ficavam a tomar conta da casa, da vida das crianças, etc. Eu quando era novo, antes de ter começado as viagens longas, estava convencido que era uma aventura excitante. Nunca mais me esqueço da minha primeira viagem em 1986, ia todo contente porque não sabia para onde ia precisamente, e vi os meus colegas mais velhos, pessoas já com idade a chorar e eu não percebia. Pensava: “mas vamos para a pesca, vamos para aquele país lindo que era África do Sul, na altura, e a malta chora, não percebo, aquilo é espetacular”, só que na segunda viagem eu chorava mais porque já sabia o que me esperava.
Depois de uma vida de esforço, e devido ao desencanto com o tratamento dado ao sector das pescas em Portugal, decide tentar outra sorte e vem para a Suíça.
Sim, vim a convite de um amigo, a pesca em declínio, apanhava-se peixe, mas não se conseguia vender, a escassez de algumas espécies, contribui muito para acumular desencanto e resolvi tentar a minha sorte. Vim trabalhar para a construção, eu que nunca o tinha feito, mas, como bom português, experimentei, adaptei-me e cá estou há 19 anos. Ter sido bem acolhido e ter alguém conhecido ajudou bastante.
Saiu de uma aventura no mar para uma aventura na terra.
É uma aventura em terra, onde eu, ao princípio, senti-me um peixe fora de água, pelo trabalho, a língua e as diferenças culturais, aqui há uma “distância” maior entre as pessoas, estava habituado a uma forma de união mais estreita, mas tudo se alinha. Vim para Payerne e por aqui fiquei. O primeiro local que conheci foi este Centro Português. Os primeiros dois anos foram muito difíceis, a minha família só veio ao fim de quatro anos e meio, as saudades da família eram muitas e ou vinham ou eu ía embora, não fazia sentido estar longe e todos a sofrer. Felizmente que a reunião deu outro alento e por cá continuamos. Tenho um filho que na polícia, a minha esposa trabalha aqui no Centro e eu dou uma ajuda aos fins de semana.
Entretanto surge a história do Centro, sendo que foi o seu primeiro ponto de contacto quando chegou.
Culpa do meu amigo Hélder, vizinho e que já foi meu patrão. Foi ele que me incutiu o “bichinho” da associação. Primeiramente comecei por assar a sardinha na festa de S. João, pescador e conhecedor de peixe, convidaram-me e eu aceitei o desafio, de seguida comecei a inserir-me nas actividades gerais do Centro. Procurámos expandir a oferta gastronómica a robalos, douradas, chocos, lulas, etc., e hoje é um prazer ver que a comunidade portuguesa, e não só, se deslocam até ao Centro para almoçar ou jantar com as suas famílias, sabem da qualidade dos produtos e também sabem que encontram animações e actividades para todas as idades.
E hoje Presidente da Direcção do Centro Português de Payerne.
Quem diria. Até ser Presidente muitas coisas se passaram, no cargo estou há 8 anos, sinal que tem corrido bem, julgo eu. Fui convidado para fazer parte da direção, o Presidente era o nosso amigo Joaquim da Fonte o qual, depois de ter dado tanto, disse estar cansado e tivemos de encontrar um substituo. Dos 14 que fazíamos parte votaram em mim. Felizmente tive a sorte de ter a contribuição maravilhosa de uma equipa espectacular. Todos temos as nossas tarefas e a entreajuda é muito boa, só assim pode funcionar, quando existem divergências discutimos e resolvemos, como adultos responsáveis.
Trabalho de equipa.
Sempre! O trabalho de equipa é a alma do Centro. Crescemos de ano para ano e hoje temos cerca de sócios inscritos, pagantes somente 186. O Centro foi inaugurado 2 de maio de 1992, há 33 anos, já tem uma história importante na comunidade portuguesa local e limítrofe, é uma responsabilidade grande manter as portas abertas e o funcionamento onde os sócios se reconhecem. No passado tivemos algumas dificuldades, mas hoje estamos bem, com malta boa que colabora com um sorriso nos lábios.
Os mandatos são de 2 em 2 anos o que dá oportunidade a manter a coesão da equipa e o desgaste, que também existe, é atenuado pelo trabalho bem feito e escrutinado pelos sócios. A comunidade portuguesa é importante em Payerne, reconhecem o nosso trabalho e a importância do Centro para a divulgação da nossa língua, usos e costumes, assim como a actividade cultural que promovemos. Hoje apoiamos esquipas de futebol, na medida do possível, investimos na modernização de equipamentos, reinventámos a forma de nos apresentarmos à comunidade e a todos que nos frequentam, suíços e de outras nacionalidades.
A Festa de S. João e o sucesso que tem tido ao longo do tempo ajudou.
É a jóia das actividades do Centro. A visibilidade é muito grande, o retorno igualmente. É hoje ponto de referência da comunidade portuguesa na Suíça, data que junta o que de melhor há na nossa cultura e gastronomia. A participação é enorme, calculamos que passaram cerca de 28 000 pessoas no ano de 2025 onde realço a presença de muita juventude, sinal de que as nossas raízes continuam a ser seguidas pela malta mais jovem, é muito gratificante.
Que outros eventos mais impactantes desenvolve o Centro?
A Festa de S. João é o ex-libris, mas temos alguns eventos que também já fazem parte das datas dos portugueses aqui radicados, a Festa da Mulher em Março, em 2025 eram mil, o Magusto das Castanhas, outro muito apreciado, a Festa de Natal para as crianças, que tem muito impacto por ser o culminar de um ano de trabalho. Participamos também na Festa das Comunidades organizada pela vila de Payerne e onde estão representadas as comunidades estrangeiras que aqui residem, a portuguesa é a maior, de longe.
Para além destas actividades, ainda apoiam outras associações.
Sim, na medida das nossas capacidades, apoiamos algumas associações, com material ou apoio logístico. Neste momento apoiamos duas equipas de futebol, um grupo de motards e um grupo que se serve de apoio à selecção nacional. Disponibilizamos as instalações para os partidos políticos locais que aqui vêm apresentar as suas ideias e, claro, a permanência consular que tem ajudado muitas centenas de compatriotas a resolver assuntos que levariam muito tempo.
Sente que o vosso trabalho é reconhecido, pela comunidade e pelas representações portuguesas?
O Centro, desde que me lembre, é apartidário e sem clube. Somos abertos a todos os que nos queiram visitar e/ou acompanhar nas actividades. Infelizmente, a nível político somente o actual SG do P.S., José Luis Carneiro, nos honrou com a sua visita no passado mês de novembro, não obstante a nossa colaboração com a Embaixada em Berna e o Consulado em Genebra, somos ignorados. Actualmente existem permanências consulares nas instalações do Centro, e esperemos que possam continuar, mas presença ou visitas dos representantes, nunca, é pena. Por outro lado, as autoridades suíças visitam-nos muitas vezes e falamos de colaborações que só enobrecem a nossa comunidade, somos embaixadores e orgulhosos disso. A comunidade, como já referi, reconhece o nosso esforço e dedicação, prova disso é a afluência cada vez maior nas nossas instalações e nos eventos que organizamos. Sabem que tentamos promover a nossa língua e cultura, além de ser ponto de contacto para muitos que, tal como eu quando aqui cheguei, sentem as saudades de casa e o Centro ajuda a diminuir essas distâncias. Acresce que atualmente, com a crescente influência portuguesa na economia local, através de empresas em diversas áreas, sirva, igualmente, para estabelecer contactos empresariais e até emprego.
Suponho que por vezes se pergunte sobre o futuro do Centro, quando chegar a hora de sair, acha que há rapaziada para continuar o trabalho? Sente que existe vontade ou não?
Ao longo destes anos têm chegado e partido, julgo que há pessoal para continuar, há vontade, mas quando tiverem de pegar o touro pelos cornos, perder horas, dias a fio, sacrificar o nosso tempo para colocar o Centro a funcionar, aí é que se verá quem tem unhas para tocar esta guitarra. Por vezes existe o desencanto de não sermos apreciados pelo trabalho, pelo sacrifício e abnegação que deixamos. As sugestões que chegam incidem mais em crítica negativa que em ideias para melhorar, temos de viver com isso, mas é complicado. Há uma malta jovem que mostra ter vontade, veremos. A estrutura que hoje está montada, o modo como funcionamos, que obviamente tem falhas, resulta bem e mantém a essência dos serviços de um Centro desta natureza, depois é uma questão de se evoluir, adaptar e, essencialmente, não estragar.
Eu espero que os que venham no futuro, vejam esta casa como a casa mãe das associações da região, que mantenham e criem uma rede de apoios onde todos podemos interagir e contribuir para que a nossa cultura viva e seja transmitida para as gerações futuras. Também espero que os nossos representantes olhem para as associações como veículos de colaboração e não de abandono, visitem-nos, a nós e a outras, colaborem, as associações são o berço onde estão os verdadeiros embaixadores de Portugal, os emigrantes, ignorá-los é até um insulto. Uma palmadinha nas costas não serve de muito, mas sabe bem.
Aproveito para agradecer a todos os que têm levado o Centro para a frente e que cá estarei para receber críticas, construtivas, sugestões e ideias que contribuam para a evolução do Centro e o bem-estar dos associados.
Agradecer, igualmente, o trabalho da Gazeta Lusófona que, tal como nós, também luta para poder continuar a divulgar a comunidade portuguesa na Suíça, um abraço a todos os nossos compatriotas e deixo o convite para que nos visitem quando passarem pelas nossas bandas.
Ilídio Morgado





