Desde 24 de fevereiro de 2022, a guerra da Rússia contra a Ucrânia desenhou um mapa de destruição que se estende por cidades, aldeias e vidas. Entre ruínas, estradas cortadas e hospitais sem meios, a ajuda humanitária tornou-se uma corrida contra o tempo.
Há quase quatro anos, uma iniciativa civil, fundada e executada sem apoios institucionais, insiste em chegar onde muitos não chegam. Trata-se do projeto “Let’s Help Ukraine”, criado por Silvana Lopes Gomes, brasileira de 50 anos, e pelo marido Nuno Cardoso Gomes, português de 44 anos, residentes no cantão de Argóvia, na Suíça.
No próximo dia 11 de março assinalam-se exatamente quatro anos desde a primeira entrada do projeto em território ucraniano. Desde então, foram realizadas mais de 53 viagens humanitárias, sempre a partir da Suíça, atravessando vários países europeus. No interior da Ucrânia, o casal percorreu cerca de 272 mil quilómetros, incluindo zonas de elevado risco, muitas delas completamente destruídas, onde a guerra deixou um cenário de ausência total de infraestruturas e de serviços básicos. É nesse terreno, extremo e instável, que o projeto mantém a sua atuação regular, tendo o casal passado também por momentos de angústia com a hostilidade militar na região.
As missões chegam a cidades e regiões marcadas por bombardeamentos contínuos, estradas comprometidas e perigo permanente. Ainda assim, a ajuda chega, como alimentos, produtos essenciais e, sobretudo, apoio médico. Medicamentos para mulheres em tratamento oncológico, materiais hospitalares, cadeiras de rodas e outros equipamentos seguem diretamente para, além das mulheres, crianças, idosos e doentes que perderam tudo. Em muitos destes locais, hospitais deixaram de funcionar e o acesso a cuidados básicos tornou-se inexistente.
Apesar da dimensão do trabalho, o projeto não recebe apoio governamental, não tem patrocinadores fixos e não conta com enquadramento institucional na Suíça. As missões são realizadas sem equipas nem voluntários. Todo o trabalho humanitário é executado por Silvana Lopes Gomes, com o apoio do marido. Todos os custos, incluindo combustível, portagens, vinhetas de estrada e manutenção do veículo, são assumidos pelo próprio projeto, que consegue apoio através de lives e doações espontâneas.
“O combustível e a manutenção da carrinha, e já usamos três diferentes, representam o principal obstáculo à continuidade das missões”, disse Silvana.
O casal refere que “o impacto humano é visível e constante. Cidades sem casas, famílias a viver entre escombros, mulheres doentes sem acesso a medicamentos. Ao mesmo tempo, surgem os momentos que sustentam a continuidade do trabalho”, como abraços silenciosos, olhares de gratidão, crianças que voltam a sorrir quando a ajuda chega.
“Seguimos porque acreditamos que ajudar é um dever humano, mesmo sem apoio, mesmo com riscos e mesmo diante das maiores dificuldades”, afirmaram Silvana Lopes Gomes e Nuno Cardoso Gomes.
A realidade atual é crítica. Faltam alimentos, combustível, apoio financeiro e recursos para a manutenção do veículo. Apenas cerca de três por cento das pessoas que ajudavam no início continuam a apoiar o projeto, uma quebra que compromete diretamente a capacidade de avançar para novas missões. As deslocações não foram interrompidas por desistência, mas por ausência de condições mínimas de segurança e logística.
“O compromisso mantém-se, com responsabilidade e transparência, sem promessas que não possam ser cumpridas”, disseram.
Paralelamente às missões, Silvana Lopes Gomes prepara um segundo livro onde regista, de forma aprofundada, os quase quatro anos de experiência no terreno. Um relato humano, sem romantizar a guerra, centrado nas consequências do conflito e no preço pago por quem escolhe ajudar. A obra dará continuidade ao primeiro livro, onde foi descrito o início do projeto e os primeiros passos da ajuda humanitária.
O projeto prepara agora a 54.ª missão, o “Tour 54”, dependente da mobilização de apoio da sociedade civil. Pessoas comuns, na Suíça e noutros países, continuam a contribuir como podem, com alimentos, combustível ou vinhetas de estrada, permitindo que a ajuda chegue a quem dela depende para sobreviver.
Num conflito que se prolonga e tende a sair do centro das atenções, a ação deste casal luso-brasileiro recorda que a guerra não terminou para quem vive no terreno. Quase quatro anos depois, a Ucrânia continua a precisar. E a ajuda, mesmo solitária, continua a fazer a diferença.
Mais informações sobre o projeto podem ser consultadas em www.letshelpukraine.ch
Ígor Lopes





