Em novembro passado, o Gabinete Federal para a Igualdade entre Mulheres e Homens lançou uma campanha de prevenção contra a violência doméstica, sexualizada e baseada no género. Para combater todas as formas de violência, a campanha atua onde ela frequentemente começa: nos desequilíbrios de poder e nas normas discriminatórias.
A campanha combate a violência de três maneiras: sensibiliza para os sinais iniciais de comportamentos violentos, encoraja a falar sobre o tema e informa sobre serviços de apoio e aconselhamento. A violência doméstica, a violência sexualizada e a violência baseada no género raramente começam com agressões físicas. Elas manifestam-se em comentários e situações que muitas pessoas vivenciam diariamente, no ambiente privado ou em espaços públicos.
Durante a primeira fase, a campanha pretende encorajar as pessoas afetadas a ouvirem a si mesmas e a levarem a sério as suas preocupações, antes que a violência se torne física. Pretende também motivar a quebrar o silêncio, trazer o tema à conversa e procurar ajuda.
Nesse sentido, em entrevista ao Gazeta Lusófona, Talitha Widmer, conselheira / lic.phil.I Psychologin FSP, deu-nos a conhecer o projeto e informações sobre esta temática que, infelizmente, afeta a nossa sociedade.
Todavia, além do que é apresentado na presente entrevista, é possível obter mais informações em https://www.opferhilfe-schweiz.ch/de/ ou www.frauenberatung.ch, assim como solicitar esclarecimentos através do e-mail info@frauenberatung.ch :
Que comportamentos precoces são frequentemente ignorados como violência?
Muitos comportamentos de violência aparecem de forma muito precoce, mas acabam sendo ignorados porque são vistos como uma brincadeira, uma fase ou algo sem importância. Muitas vezes, a própria sensação de que algo está errado é normalizada e colocada de lado. Esses sinais também podem ser justificados de maneira errónea como cuidado, interesse ou amor.
Alguns exemplos são as agressões verbais, como xingamentos, humilhações, gritos ou ameaças, que muitas vezes são tratados como piadas. O controle excessivo também é comum, quando alguém quer decidir com quem a outra pessoa fala, o que veste ou onde vai, e isso é visto como ciúme ou cuidado. Há ainda o ciúme constante, a desconfiança e a invasão de privacidade, como mexer no celular ou nas redes sociais.
Outros sinais incluem a manipulação emocional, a desvalorização, pequenas agressões físicas disfarçadas de brincadeira, o isolamento social e atitudes de intimidação. Quando esses comportamentos se repetem, eles podem evoluir para formas mais graves de violência, por isso é tão importante reconhecê-los cedo.
Que sinais mostram que alguém está sob pressão ou a ser controlado?
Os sinais podem variar, mas geralmente envolvem mudanças no comportamento e no estado emocional. A pessoa pode demonstrar medo constante de desagradar, dificuldade em tomar decisões sozinha ou uma queda clara na autoestima.
Também é comum que ela se isole, fique mais quieta ou ansiosa, passe a pedir permissão para coisas simples ou evite certos assuntos por medo de conflitos. Além disso, podem surgir sinais físicos de stress, como cansaço, insónia, dores de cabeça ou dificuldade de concentração entre outros.
Quem está mais em risco e qual o papel do estatuto de residência?
A violência pode afetar qualquer pessoa, independentemente da idade, género, situação económica, religião ou orientação sexual. No entanto, algumas pessoas sentem-se mais vulneráveis, especialmente aquelas com um estatuto de residência inseguro.
Muitas vezes, o medo de perder a autorização de permanência impede a pessoa de procurar ajuda. É importante saber que existem leis na Suíça que podem proteger as vítimas e que cada caso deve ser analisado individualmente. Os centros de apoio às vítimas oferecem aconselhamento gratuito e confidencial, e não é necessário fazer uma denúncia para ser atendido.
Como abordar o tema da violência?
Para abordar esse tema, é essencial estar bem informado e conhecer os locais de apoio disponíveis. Também é importante refletir sobre os próprios preconceitos e mitos em torno da violência.
O mais importante é oferecer uma escuta empática, sem julgamentos, respeitar o tempo da vítima e não agir de forma impulsiva. Sempre que possível, deve-se incentivar a pessoa, com cuidado, a procurar um centro de apoio às vítimas, onde poderá receber orientação e informação sobre os seus direitos.
O que alguém pode fazer para ajudar, sem se colocar em perigo?
Ajudar não significa intervir diretamente. O principal é ouvir, apoiar e saber para onde encaminhar a pessoa. É importante conhecer os recursos disponíveis, como os centros de apoio às vítimas. Em situações de violência aguda, ameaças graves ou presença de armas, a segurança vem em primeiro lugar, e é fundamental contactar imediatamente a polícia através do número 117.
Como é possível prevenir a violência no seio da família?
A prevenção começa por não minimizar atos de violência. É preciso falar sobre o tema, quebrar o silêncio e evitar que a violência se torne um tabu.
Procurar apoio especializado, conversar com um médico ou médica de família e recorrer aos centros de apoio às vítimas são passos importantes. Acima de tudo, é essencial que as pessoas saibam que não estão sozinhas e que existem leis e organizações prontas para apoiar. Todos nós podemos contribuir para a prevenção da violência, ao nos relacionarmos de forma respeitosa e em condições de igualdade.
Que ofertas de ajuda existem na Suíça?
Na Suíça, existem muitas ofertas de ajuda gratuitas e confidenciais, tanto para pessoas afetadas pela violência como para quem tem receio de se tornar violento. Todos os Centros de Apoio às Vítimas oferecem aconselhamento gratuito, confidencial e sem necessidade de denúncia. Se necessário, também é possível contar com um intérprete.
Cada cantão tem pelo menos um centro. No Cantão de Zurique, por exemplo, existem vários serviços especializados para crianças, jovens, mulheres e também para pessoas que exercem violência. Há ainda casas de acolhimento para mulheres e adolescentes.
O mais importante é saber que existe uma rede ampla de apoio e que vale sempre a pena procurar informação e ajuda.
Este conteúdo foi realizado com o apoio do Gabinete Federal
para a Igualdade entre Mulheres e Homens (BFEG)




