Portugal viveu, nas últimas duas semanas, um daqueles momentos em que a política e a realidade se cruzam de forma quase simbólica. De um lado, a eleição de António José Seguro como Presidente da República, confirmada na segunda volta com uma vitória clara. Do outro, a não surpreendente vitória de André Ventura entre os portugueses residentes na Suíça, revelando um padrão eleitoral distinto daquele observado no território nacional.
Enquanto o país discutia escolhas e futuros, a zona Centro era devastada pelas tempestades Kristin, Leonardo e Marta, num lembrete brutal de que há urgências que não esperam calendários eleitorais.
Para a comunidade portuguesa na Suíça, estes acontecimentos são espelhos de um país que continua a viver entre expectativas e fragilidades.
A eleição de António José Seguro para Presidente da República marca um momento relevante na vida política portuguesa. A vitória na segunda volta, expressiva e consolidada, foi interpretada por muitos analistas como um voto de confiança num perfil institucional e dialogante. Outros veem nela a procura de estabilidade num tempo de incertezas.
Independentemente da leitura, há um ponto que interessa particularmente à comunidade portuguesa na Suíça: a necessidade de que o novo Presidente compreenda que os portugueses no estrangeiro não são apenas um círculo eleitoral, mas uma parte estrutural da identidade nacional.
A Presidência da República tem, por natureza, um papel simbólico e agregador. E é precisamente nesse papel que a comunidade portuguesa espera ser reconhecida, com políticas de participação efetiva, visão estratégica que integre a emigração na construção do país e respeito pela sua importância económica, cultural e social.
Se o resultado nacional foi claro, na Suíça foi o que se esperava. André Ventura venceu, demonstrando que a comunidade portuguesa na Suíça tem preocupações, prioridades e perceções distintas das que se manifestaram no território nacional.
Os portugueses na Suíça, pela sua história, são trabalhadores, disciplinados, exigentes e profundamente sensíveis a temas como justiça social, segurança, meritocracia e reconhecimento do esforço individual. A vitória de Ventura neste círculo eleitoral mostra que uma parte significativa dos emigrantes sente que estes valores não têm sido suficientemente representados pela política tradicional.
Ignorar este sinal seria um erro. Reduzi-lo a um fenómeno isolado seria outro.
O que este resultado revela é que existe um eleitorado que se sente desprotegido, esquecido ou desiludido com as respostas que o sistema político tem oferecido e que procura, por isso, discursos mais diretos e mais disruptivos.
Enquanto o país discutia escolhas políticas, a natureza lembrava-nos, com violência, que há urgências que não esperam. As tempestades Kristin, Leonardo e Marta atingiram a zona Centro com uma força devastadora: empresas e habitações destruídas; casas inundadas; explorações agrícolas arrasadas; infraestruturas colapsadas; famílias desalojadas e redes de eletricidade, água e comunicações arruinadas. Quando escrevo este editorial, vivendo a 3 quilómetros da cidade de Leiria, a “minha” aldeia, duas semanas depois da Kristin, continua sem eletricidade, tal como em mais de 70 mil clientes.
As eleições passam. As tempestades repetem-se. Mas a força de uma comunidade permanece.
Aos portugueses na Suíça deixo um apelo para que se mantenham atentos, participativos e unidos. O país precisa da vossa lucidez, da vossa exigência e da vossa capacidade de olhar Portugal com a distância crítica.
Neste momento. Portugal precisa da vossa ajuda para se reerguer…
Adélio Amaro, diretor




