Há sempre qualquer coisa de simbólico no virar do calendário. Não porque um novo ano apague o anterior, mas porque nos devolve a possibilidade, e a responsabilidade, de recomeçar.
Para a comunidade portuguesa na Suíça, este gesto tem um peso particular: vivemos entre dois países, duas rotinas, dois afetos. E é nesse intervalo que, ano após ano, reinventamos a nossa forma de estar no mundo. O recomeço, para nós, nunca é apenas uma questão de promessas pessoais. É também um exercício de pertença. Olhamos para trás e vemos o que construímos: famílias que crescem entre línguas, negócios que se afirmam, associações que persistem, histórias que atravessam fronteiras. Olhamos para a frente e percebemos que o futuro continua a pedir o mesmo de sempre: coragem, trabalho, e a capacidade de manter viva a ligação a Portugal sem perder o enraizamento na Suíça.
E, no entanto, há algo mais que merece ser dito: recomeçar, para quem vive fora, é também um ato de resistência silenciosa. É acordar cedo num país que aprendemos a decifrar, mas que nunca deixará de nos desafiar. É educar filhos que se movem entre identidades com uma naturalidade que nos comove e, por vezes, nos desarma. É manter viva a memória de um lugar que continua a ser “casa”, mesmo quando o quotidiano se desenrola a milhares de quilómetros.
Este recomeço anual é, por isso, um momento de balanço íntimo e coletivo. Perguntamo-nos o que queremos preservar, o que precisamos de mudar, e como podemos continuar a construir uma comunidade que se reconheça na sua diversidade. Porque a diáspora portuguesa na Suíça já não é apenas um conjunto de trajetórias individuais, é uma realidade social, económica e cultural que se afirma com maturidade, consciência e uma identidade própria, feita de raízes e de reinvenção.
Num tempo em que a distância parece encolher graças à tecnologia, mas em que a vida continua a exigir presença física, o Gazeta Lusófona mantém-se como um espaço de encontro. Aqui, celebramos conquistas, discutimos desafios, e lembramos que a identidade portuguesa não se dilui quando atravessamos os Alpes, transforma-se, adapta-se, ganha novas camadas. E é justamente por isso que, ao iniciarmos um novo ano, reafirmamos o compromisso de acompanhar, informar e dar voz a uma comunidade que continua a crescer e a surpreender.
Crans-Montana
O início deste ano de 2026 fica marcado pela tragédia em Crans-Montana, onde um incêndio num estabelecimento de diversão noturna provocou vítimas e deixou várias famílias em choque. As autoridades suíças continuam a investigar as causas do incêndio, e a comunidade local tem-se mobilizado em vigílias e manifestações de solidariedade. Entre os afetados encontram se pessoas de várias nacionalidades, o que torna este momento particularmente doloroso.
Num tempo em que falamos de recomeços, esta tragédia recorda-nos a urgência de reforçar a cultura de segurança, de exigir responsabilidade e de cuidar uns dos outros, na Suíça, em Portugal e em qualquer lugar onde a vida nos leve.
Recomeçar não é começar do zero. É continuar com consciência. E, juntos, continuamos mais longe.
Adélio Amaro, diretor




