No âmbito da iniciativa “Portugal em Movimento”, Luís Portela, presidente da Fundação Bial, concedeu, em exclusivo, uma entrevista ao Gazeta Lusófona que teve lugar no Hotel Park Hyatt Zürich, em Zurique. Contou como tudo começou e deu-nos a conhecer a Bial e a Fundação Bial, duas referências de nível mundial.
LUÍS PORTELA
Licenciado em Medicina, Luís Portela exerceu atividade clínica e foi docente universitário, optando depois por se dedicar à empresa da família – Bial – de que foi CEO (1979-2011) e chairman (2011-2021). Sob a sua liderança criou e desenvolveu um Centro de Investigação, especializado na investigação de novos fármacos, onde foram criados os dois primeiros medicamentos de investigação portuguesa a serem comercializados no mercado global: um antiepilético e um medicamento para a Doença de Parkinson.
Em 1994 criou, com a Bial e o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, a Fundação Bial, com o objetivo de incentivar a investigação sobre o ser humano, tanto sob o ponto de vista físico como espiritual. Foi também presidente do Health Cluster Portugal e do Conselho Geral da Universidade do Porto, vice-presidente da Fundação de Serralves e membro da Direção da COTEC – Portugal.
Publicou dez livros, entre os quais os best sellers “Ser Espiritual” (34ª edição) e “Da Ciência ao Amor” (15ª edição). Em 2021, retirou-se da vida profissional para se dedicar à Fundação Bial, a que preside, mas também à leitura, à escrita e à família.
Entre outras distinções, tem três condecorações: Comendador da Ordem do Mérito, Grã-Cruz da Ordem do Mérito e Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública. Foi distinguido com quatro doutoramentos Honoris Causa pelas Universidades de Cádis, Porto, Coimbra e Lisboa. Recebeu os prémios “Neurociências da Louisiana State University” e “Universidade de Lisboa” e foi eleito membro honorário da Parapsychological Association of the American Association for the Advancement of Science.
BIAL
A empresa Bial nasceu em 1924 pelas mãos de Álvaro Portela, avô paterno de Luís Portela, que começou a trabalhar aos 14 anos na farmácia Padrão, no Porto. Ao mesmo tempo que estudava à noite, num curso industrial, sugeria ideias ao patrão para a farmácia evoluir. E, segundo Luís Portela, uma das ideias que o seu avô deu ao patrão foi abrir a farmácia por volta das seis da manhã, antes do horário normal, porque, “naquela altura, existiam poucas farmácias no Porto e grande parte da população residia nos subúrbios e depois deslocava-se muito cedo para o centro da cidade. As pessoas traziam a prescrição médica e só podiam entregar ao fim do dia, no regresso à casa, e levantar os medicamentos no dia seguinte, também ao fim do dia. A ideia do meu avô é que, ao virem dos subúrbios, deixassem as receitas e, a meio da tarde, no regresso à casa, já pudessem levar os medicamentos. Isso funcionou muito bem. Havia uma paragem do carro elétrico mesmo à porta da farmácia e o meu avô ficava ali a receber as receitas e por volta das 2 ou 3 da tarde. Quando as pessoas regressavam aos subúrbios, paravam de novo ali e levavam os medicamentos”. Esta ação promoveu um grande desenvolvimento à farmácia ao ponto de ser necessário instalar “um pequeno laboratório no primeiro andar para poder aviar tantas encomendas. Em sequência disto, o meu avô terá tido a ideia de montar uma pequena unidade industrial e apresentou a proposta ao patrão. Este disse que sim”, revelou-nos Luís Portela, acrescentando que esta proposta terá surgido em 1919 e, “como as coisas burocráticas em Portugal sempre demoraram muito”, a autorização para o novo projeto arrancar só foi dada em 1924. O patrão, “Sr. Almeida, que nessa altura já tinha alguma idade, disse ao empregado, o Álvaro Portela – já tenho muita idade, toma conta do negócio que já não me quero meter nisso, eu ajudo-te financeiramente – e, assim, a empresa avança já só com o meu avô e com o Sr. Almeida fora sociedade”. Quando questionado sobre o nome “Bial”, Luís Portela revelou-nos o segredo: “Bial vem dos dois «Al», “Al” de Almeida e de Álvaro, por isso, bi+al deu Bial”.
Com este laboratório foi conseguindo algumas fórmulas para medicamentos até que um farmacêutico refugiado da Guerra, húngaro, “conheceu o meu avô e ele contratou-o e foi ele quem trouxe a fórmula de um xarope antitússico que teve muito sucesso e foi o principal produto até aos anos 1960” – o Benzo-Diacol. A marca foi registada pela Bial em 1929.
Luís Portela descreve o seu avô como “sendo muito dinâmico, com muitas ideias e liderou a empresa durante cerca de 30 anos”.
“Quando o meu avô faleceu o meu pai já vinha sendo preparado, assumiu primeiro a farmácia e depois a empresa”, disse.
O pai de Luís Portela, António Emílio Portela, assumiu a presidência em 1962, mas “apenas liderou a empresa durante 10 anos porque faleceu com 50 anos de idade. Enquanto o meu avô era muito extrovertido, homem do palco, narcisista, o meu pai era muito discreto, talvez até pelos excessos que via do meu avô, mas procurou robustecer a empresa do ponto de vista financeiro. Do ponto de vista industrial, procurou comprar equipamentos, máquinas, linhas de produção e procurou ter uma boa situação económica da empresa”.
Luís Portela, desde jovem, tinha a ambição de ser médico e fazer investigação. Médico porque “gostava de ajudar as pessoas, contribuir para a sua saúde, para o seu bem-estar e, ao mesmo tempo, fazer investigação na área das neurociências e na área da parapsicologia porque eram áreas que me pareciam ainda com pouco conhecimento e que eu gostava de dar algum contributo para o desenvolvimento dessas áreas. Portanto, sempre me vi como médico e como investigador. O meu pai faleceu quando eu tinha 21 anos e passei a ser trabalhador-estudante, procurando ter boas notas para depois ficar a lecionar na universidade. Fui conseguindo isso… quando o meu pai morre, mantive a ideia de que o meu irmão mais velho é que iria liderar a empresa, eu seria médico e iria ajudá-lo”, deu-nos a conhecer Luís Portela. Quando questionado sobre o que aconteceu para mudar de planos, revelou ao Gazeta Lusófona que a “empresa estava a passar uma fase difícil, o meu irmão começou a dizer que era melhor ficar só um porque nos desentendíamos um bocado… temos maneiras de ser muito diferentes e as voltas da vida são assim mesmo e nem me sentia muito vocacionado para empresário, mas tinha muito orgulho e muita honra na obra do meu avô e do meu pai e senti que, ao continuar a minha carreira académica, a empresa poderia soçobrar”, descreveu Luís Portela.
Todavia, aos 27 anos teve a oportunidade de fazer o doutoramento em Cambridge e “acabei por fazer pela Bial o que não faria por outra empresa. Deixei a minha carreira, empenhei-me até à ponta dos cabelos e comprei a maioria do capital da empresa e, aos 27 anos, fiquei como presidente da empresa sem saber se essa iria ser a minha carreira, porque o que eu queria era salvar e dar continuidade à empresa. Deixei a função pública e meti uma licença sem vencimento porque não sabia o que ia acontecer”, confidenciou-nos Luís Portela.
Assim, em 1979, um ano depois de ter sido lançado o Reumon Gel, pela Bial, Luís Portela assumiu a presidência da empresa e, no primeiro ano ao seu comando, a Bial duplicou as vendas, sendo este um sinal de que “as coisas poderiam correr bem”.
Para Luís Portela o sucesso só foi possível porque confiou nas pessoas. Acredita que estas “são a grande riqueza das instituições. Com pessoas boas nós podemos fazer coisas muito bonitas e, com pessoas menos boas, por vezes até competentes, mas, com mau caráter, as coisas complicam-se e não se fazem bem. A minha primeira preocupação foi conseguir conquistar bons profissionais e só no primeiro ano fomos buscar quatro diretores a multinacionais farmacêuticas, nas áreas de produção, marketing, vendas e planeamento. Procurei que essas pessoas criassem um espírito de equipa para podermos dinamizar, mas com respeito por quem vinha de trás. Não queria situações de rotura, mas de continuidade, com outra ambição e outra dinâmica. O Conselho de Administração era constituído por pessoas já com alguma idade, mas que tinham sido excelentes colaboradores do meu avô e do meu pai. Portanto, não havia o direito de os excluir. Conseguimos, de forma bonita, fazer uma evolução na continuidade, mas com uma dinâmica muito forte que eles próprios foram aceitando as novas ideias e percebendo que estas iam funcionando bem. Como estava a correr bem, só no primeiro ano fiz três aumentos para as os trabalhadores. Um primeiro aumento para todos e o segundo e terceiro para o mérito. Também apostámos e pagámos a formação das pessoas e demos melhores condições a todos”, descreveu-nos Luís Portela.
Quando questionado sobre a procura da internacionalização da empresa, Luís Portela referiu ao Gazeta Lusófona que, durante a presidência do seu pai, houve “uma primeira tentativa, mas não foi bem-sucedida porque é um processo que demora muito tempo. Mas, com a minha presidência, definimos três grandes linhas de desenvolvimento da empresa: qualidade; inovação e internacionalização. No entanto, só fazia sentido a internacionalização se tivéssemos medicamentos nossos, patentes nossas. Só assim poderíamos ter condições para desenvolver a internacionalização. Mas, também senti que tínhamos de ter alguma preparação para trabalharmos noutros países. Começámos pelos países mais pequenos e tentamos ganhar hábitos de comercializar fora de portas. Entendemos, rapidamente, que cada mercado é diferente de país para país e tentámos em África de expressão portuguesa”.
Com a inauguração das instalações da Bial em São Mamede do Coronado, Trofa, em 1996, e a compra da Aristegui, em Espanha, e a criação da Bial Espanha, a Bial desenvolveu a sua internacionalização. O crescimento foi de tal forma que a Bial, em 2005, tornou-se membro da European Federation of Pharmaceutical Industries and Associations. Dois anos mais tarde alcançou o licenciamento do Acetato de Eslicarbazepina para os mercados dos EUA e Canadá.
O ano de 2008 foi de grande internacionalização com a constituição da Bial na Costa do Marfim, no Panamá, em Angola e na Suíça (Novipharma). Nesse mesmo ano, a Bial foi distinguida pela “Exame: 500 Maiores e Melhores” como a melhor empresa do setor “Produtos Farmacêuticos”. No ano seguinte, obteve o licenciamento de Acetato de Eslicarbazepina para os mercados europeus e respetivo lançamento. Em 2010, adquiriu a SARM Allergeni em Itália e criou a Bial Itália.
Em 2011, Luís Portela passou a presidente não executivo e António Portela, a CEO. No ano seguinte, a expansão pelo mundo continuou e foi inaugurada a Bial em Bilbau, Espanha, assim como a aquisição da Unidade de Negócio da empresa espanhola Juste.
No ano de 2013 foi licenciado o Opicapona para o mercado japonês e a FDA aprovou o Acetato de Eslicarbazepina tendo a comercialização iniciado nos EUA no ano seguinte. Dois anos mais tarde, a Bial iniciou operações na Alemanha e no Reino Unido e, em 2016, a Comissão Europeia aprovou o Opicapona.
Em 2017, foi vendida a área de Imunoalergologia e conseguiu o licenciamento de Opicapona para os mercados dos EUA e Canadá. O mesmo produto obteve licenciamento para a China e Coreia do Sul, em 2019. No ano seguinte foi aprovado para Japão, Taiwan e Austrália. Neste mesmo ano, 2020, a Bial fez uma aposta forte nos EUA com a criação de uma nova filial naquele país – Bial Biotech Investments Inc.
Em 2021, António Horta-Osório substituiu Luís Portela como chairman da Bial. O ano de 2022 ficou marcado pela inauguração da nova fábrica de antibióticos da Bial, assim como a ampliação da área industrial.
No ano de 2023 foi feita uma expansão estratégica na área de novas modalidades e doenças raras e, em 2024, a Bial celebrou o seu centenário e recebeu a condecoração “Membro-Honorário da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada” atribuída pelo Presidente da República portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa.
FUNDAÇÃO BIAL
A Fundação BIAL foi constituída em 1994 pela empresa Bial em conjunto com o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas. Nasceu com a missão de incentivar o estudo científico do ser humano, tanto do ponto de vista físico como espiritual.
Para Luís Portela, o nascimento de uma fundação faz sentido quando uma empresa tem “sucesso no mercado e tem, de alguma forma, a obrigação de corresponder à confiança que o mercado mantém nela. No nosso caso, não só os doentes, mas também os profissionais de saúde. Quando as coisas nos começaram a correr bem, entendemos que era bom apoiar o desenvolvimento científico e a investigação científica. Em Portugal não há grande tradição do mecenato científico e nós decidimos, em 1994, convidar o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas para se associar a nós e constituirmos uma instituição independente para apoiar o desenvolvimento da investigação científica. Eu continuo a achar que, nomeadamente, as neurociências e a área da parapsicologia eram áreas que tinham muito para serem investigadas. O Conselho de Reitores aceitou o convite e nasceu a Bial”, descreveu-nos Luís Portela.
Ao longo das três décadas de existência, a Fundação Bial tem desenvolvido uma relação de proximidade com a comunidade científica, primeiro em Portugal e, depois, no mundo. É, atualmente, uma instituição de referência, particularmente no âmbito da investigação em Neurociências e Parapsicologia, que visa estimular descobertas que beneficiem as pessoas, proporcionando mais saúde e permitindo alcançar novos patamares no conhecimento.
A Fundação assume a gestão do “Prémio Bial de Medicina Clínica”, criado em 1984, focado na distinção e enaltecimento da investigação básica e clínica, o qual distinguiu, ao longo de 21 edições, 111 obras de grande repercussão na medicina, afirmando-se como um galardão de grande significado na área da Saúde. Em 2018, a Fundação Bial, com o intuito de alargar o seu âmbito de atuação e de reconhecer o que de mais notável e relevante tem sido descoberto na vasta área biomédica, criou o Bial Award in Biomedicine, que passou a ser atribuído, a partir de 2019, em anos alternados com o “Prémio Bial de Medicina Clínica”. Em 2020, em homenagem à memória da médica e grande imunologista Maria de Sousa, a Ordem dos Médicos e a Fundação BIAL decidiram promover, em parceria, o Prémio Maria de Sousa, destinado a apoiar jovens investigadores portugueses, até aos 35 anos, com projetos científicos na área das Ciências da Saúde, incluindo obrigatoriamente um estágio num centro internacional de excelência.
Praticamente desde o início, concretamente em 1996, a Fundação começou a organizar os simpósios “Aquém e Além do Cérebro” que, desde então, reúnem, bianualmente, a elite científica internacional nas áreas das Neurociências e da Parapsicologia, bem como vários dos investigadores espalhados pelo mundo, que desenvolvem projetos financiados pela Fundação. Esta também tem uma base de dados a que a comunidade científica e o público em geral podem ter acesso.
A Fundação BIAL promove igualmente concursos de “Apoios a Projetos de Investigação Científica” orientados para o estudo neurofisiológico e mental do ser humano, nas áreas da Psicofisiologia e da Parapsicologia. Neste âmbito, a Fundação Bial já aprovou para financiamento 946 projetos, envolvendo cerca de 1900 investigadores de 31 países. Desde 1994 até fevereiro de 2025, o trabalho financiado pela Fundação Bial resultou na publicação de 2141 artigos em revistas indexadas.
A Fundação Bial conta com o Alto Patrocínio do Presidente da República portuguesa e o patrocínio do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas e da Ordem dos Médicos.
PORTUGA EM MOVIMENTO
Sobre a iniciativa “Portugal em Movimento”, na qual Luís Portela foi o orador convidado, o presidente da Fundação Bial ficou encantado com a “organização muito simpática. Após o convite do Manuel Santiago, que conheci há um ano, num evento que ele organizou em Portugal e do qual gostei, achei muito interessante participar porque sei que a comunidade portuguesa na Suíça, hoje, é uma comunidade com peso. Terá começado há umas décadas com pessoas ligadas às áreas de hotelaria, táxis e construção civil, e hoje temos uma comunidade de pessoas com um número muito grande de doutorados, licenciados e técnicos de grande valor, que estão, naturalmente, a dar um bom contributo para o desenvolvimento da Suíça. Este evento é muito interessante porque permite que eles se reúnam e tenham um motivo para, de alguma forma, manterem os laços entre si e com Portugal”.
“Quando eu vejo uma comunidade portuguesa a reunir-se e a valorizar o que é português eu fico deliciado. Os três jovens músicos portugueses que encerraram o evento deixaram-me deliciado… jovens absolutamente talentosos. Eu desejaria que parte dos portugueses como estes jovens possa equacionar a hipótese de regressar a Portugal e dar um contributo para um Portugal melhor nos próximos anos”, concluiu Luís Portela.
Adélio Amaro